A MENSAGEM DO BAGAVAD GITA

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O Bagavad Gita ou Cântico do Senhor é um dos mais antigos e populares textos sobre o Yoga. É parte do grande poema épico Mahabharata, composto por cerca de 100.000 estrofes e conta a grande epopéia da Índia. A palavra sânscrita Maha significa grande e Bharata, Índia. Teria sido composto por um sábio, chamado Vyasa que pedira ao deus Ganesha que fosse escrevendo aquilo que ele iria relatando. Recebeu inúmeras traduções e interpretações, em todas as línguas, pelos quatro cantos do mundo. Grandes pensadores, filósofos, cientistas e religiosos, tais como Aldous Huxley, Schopenhauer, Henry Thoreau, Goethe, Emerson e outros, buscaram conhecimento nessa obra.

O estudioso da tradição do Yoga, Georg Feuerstein (2001) considera o Mahabharata “uma imensa e magnífica sala cheia de tesouros da mitologia, da religião, da filosofia, da ética, dos costumes e de informações sobre clãs, reis e sábios no decorrer das eras”.

Diz ainda Feurstein (2001): “qualquer que tenha sido sua realidade histórica, o Mahabharata também admite interpretações simbólicas e alegóricas (…) como a luta entre o bem e o mal, o certo e o errado, tanto no mundo, como no coração dos homens”.

O Gita discorre sobre uma guerra travada entre dois reinos tribais antigos. De um lado estavam os Pândavas e de outro os Kauravas. A saga fala de um príncipe dos Pândavas que por causa de uma trapaça num jogo de dados, jogo esse muito comum na época, perdera seu reino e sua esposa para o reino vizinho dos Kauravas. Por isso, os cinco irmãos e príncipes Pândavas foram exilados por 13 anos. Toda a Índia fica então sob o domínio dos Kauravas, que tem um rei cego. O conflito começa quando os Pândavas retornam e reivindicam, justamente, seu reino de volta. Os Kauravas se negam a entregar, dando início a uma guerra. O príncipe Arjuna comanda o exército do Pândavas contra os Kauravas.

Quando Arjuna está no meio do campo de batalha, em pé na sua biga, defendendo seu reino das forças inimigas, vê nos seus adversários, pessoas conhecidas tais como seus primos, vizinhos e tios. Nesse momento, ele tem uma “crise existencial”, fica em dúvida se deve lutar, se deve combater, fica inseguro e incerto de sua ação, questiona seu papel, sua posição. Pede ajuda espiritual, deseja obter discernimento, para saber como agir. Então, no seu carro de guerra o deus Krishna (encarnação de Vishnu) passa a orientá-lo. Krishna, ao longo de todo o combate, ensina ao príncipe o equilíbrio entre a necessidade da ação e da renúncia, da religião e da ética, da vida mundana e da vida espiritual. Mostra a Arjuna a essência das diferentes escolas do Yoga, Jnana Yoga como fonte de discriminação e sabedoria, Karma Yoga, da ação, Bakti Yoga, da devoção sincera e profunda e a Raja Yoga, da consciência plena. Fala da necessidade da ação como única maneira do ser humano obter experiências e vivências para poder se auto-realizar. Explica que no caminho da realização, o ser humano precisa agir (Karma Yoga), com discernimento (Jnana Yoga), sem apego aos frutos de suas ações, que devem ser oferecidas a Deus (Bakti Yoga).

É por transmitir tantos ensinamentos pertinentes à alma humana, que o Gita é tido como fonte inspiradora e orientadora. Muitos conflitos que nós, seres humanos vivemos, recaem na temática do protagonista Arjuna, quando nos perguntamos sobre os anseios da existência, se devemos nos exilar ou lutar, agir ou não agir, como pautar nossa ética e como lidar com tantos sentimentos internos, que por vezes estabelecem verdadeiras guerras dentro de nós.

O filósofo Huberto Rohden, um dos tradutores e comentadores da obra, diz que “a quintessência do Gita é, pois, um convite para o reto-agir, porque o homem não se realiza nem pelo não-agir nem pelo falso-agir”.

Mas são as reflexões sábias de Mahatma Gandhi (1992), líder político e religioso, que se baseou nos preceitos éticos do Yoga, ahimsa – a não-violência e satya – a verdade, para conseguir a independência da Índia, que mais enriquecem essa explanação. Resumidamente, ele lista os seguintes pontos, na introdução de sua tradução do Gita:

  • O objetivo do Gita é mostrar o melhor caminho para a auto-realização.
  • Esse caminho incomparável é a renúncia aos frutos da ação.
  • Essa renúncia é o sol central ao redor do qual a devoção, o conhecimento e os demais giram, como planetas.
  • Como é possível se libertar da ação, da mácula da ação? Pela ação desinteressada; pela renúncia aos frutos da ação; dedicando todas as atividades a Deus, entregando-se a Ele de corpo e alma.
  • Mas a falta de desejos ou a renúncia não vêm pelo mero falar delas. Não são obtidas por uma proeza intelectual. São obtidas somente por um contínuo agitar do coração.
  • Para obter a renúncia, é necessário o verdadeiro conhecimento.
  • Para que o conhecimento não siga sem rumo, o Gita insiste em que se faça acompanhar de devoção, e atribui a esta o primeiro lugar.
  • Mas conhecimento e devoção, para serem verdadeiros têm de resistir à prova da renúncia aos frutos da ação.
  • Ninguém alcançou a meta sem ação.
  • Toda atividade, seja mental ou física deve ser incluída no termo ação.
  • O que abandona a ação, cai. O que abandona somente a recompensa, eleva-se. Mas a renúncia aos frutos, de maneira alguma significa indiferença pelo resultado. Deve-se estar completamente concentrado no devido cumprimento da tarefa à sua frente.
  • Renúncia significa ausência de ânsia pelos resultados, e não falta de frutos para o renunciante.
  • A renúncia do Gita é dura prova de fé. Quem está sempre pensando nos resultados amiúde perde a calma na execução de seu trabalho.
  • O Gita mostra-nos que a religião deve reger até mesmo nossas atividades mundanas.
  • O Gita é um grande poema religioso. O investigador tem liberdade para extrair desse tesouro qualquer significado que lhe agrade e que o capacite a observar em sua vida o ensinamento fundamental. O desejo pelos frutos da ação é a única proibição fundamental. O desapego é obrigatório.
  • O Gita teceu louvores ao conhecimento, mas está além do mero intelecto; essencialmente, dirige-se ao coração e só pelo coração pode ser compreendido. Portanto, o Gita não é para aqueles que não têm fé.

Que possamos nos beneficiar dessa sabedoria milenar para solucionar os conflitos dentro de nossos corações!

 

 

Bibliografia Consultada e Referência Bibliográfica:

Azevedo, M.N. O Olho do Furacão – um panorama do pensamento do extremo oriente, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1973.

Feuerstein, G. A Tradição do Yoga, Pensamento, São Paulo, 2001.

Gandhi,M., Bagavad -Gita segundo Gandhi, Ícone, São Paulo, 1992.

Rohden, H. Bhagavad Gita, 8a. Edição, Alvorada, São Paulo.

Stella, J.B. A Bhagavad – Gita, XXXII Coleção da Revista de História , São Paulo, 1970.

 

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