A MITOLOGIA INDIANA

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Os indianos hindus não dizem que existe um só Deus. Eles falam dizem que só existe Deus. Nada fora de Deus existe. Por este motivo, o hindu tem respeito por todas as formas de vida e formas não vivas também.

Apesar de a filosofia hindu parecer politeísta, sua concepção é monoteísta. Swani Saraswati explica: “No hinduísmo existe um só Deus. Existem diversas formas e nomes do mesmo Deus. Como um homem, para a sua mulher é marido, para as crianças é pai e para os seus irmãos é irmão. Para os clientes pode ser um médico, ou qualquer outra coisa. Pode ser tratado por nomes diferentes e usar vestuários diversos, de acordo com as regras, a posição ou a função, mas é sempre o mesmo homem. A mesma coisa se passa com Deus. No hinduísmo é sempre o mesmo e um só. Mas se você o ama como pai, ele apresenta-se como pai; se você o ama como uma mãe, ele vem como mãe; se você o chama amigo, então ele vem para ajudá-lo como um amigo. É a pessoa, é o devoto que cria as formas de Deus. Deus aproxima-se de acordo com nossas necessidades e desejos. É por isso que você vê muitas formas e muitos nomes de Deus, mas, de fato, Deus é um só”.

A Trindade (Trimurti) hindu é Brahma, Vishnu e Shiva, simbolizando tudo o que é criado, preservado e destruído no universo. Para os hindus tanto a vida como o universo e tudo que nele vive têm um caráter dinâmico, que se movimenta, transitório, mas que evolui. Shiva é considerado pelos seus adeptos como o aspecto principal da realidade trina, e há a esse respeito uma história cuja antiguidade é desconhecida.

Certa vez, Vishnu e Brahma discutiam a respeito de quem seria superior ao outro, quando, repentinamente, surgiu entre eles uma coluna de luz. Os dois suspenderam a disputa e concordaram em pesquisar a origem de tão estranha aparição. Brahma revestiu-se com a sua forma tradicional de um ganso (Hansa) e voou tal uma flecha, em busca do topo da coluna de luz. Durante mil anos subiu com a velocidade de um raio de sol até que, sem forças e sem esperança de encontrar o fim de tão estranha luz, notou que, lá do alto, vinha descendo e revoluteando caprichosamente a pequena pétala de uma flor. Ao passar perto de Brahma, a pétala diz-lhe que vinha caindo há milênios, desde a época em que se havia desprendido da cabeça de Shiva. Ao ouvir Brahma relatar o fato, Vishnu tomou a forma de um javali e, imediatamente, com as suas formidáveis presas, começou a cavar o solo a fim de encontrar a base do pilar. Tudo em vão. Nesse momento, Shiva manifestou-se materialmente diante de Brahma e Vishnu, com mil braços e pernas, o sol, a lua e o fogo como os seus três olhos, a cabeça rodeada por uma guirlanda de serpentes. Disse então com voz retumbante:

“Oh, inconscientes, ambos nasceram de mim! Nós três somos um, embora apareçamos como Brahma, Vishnu e Shiva”.

Ao ouvir isso, conta à tradição, Vishnu e Brahma curvou-se diante de Shiva, num culto silencioso que reconhecia sua grandeza.

 

Outro fato curioso é que, enquanto Vishnu e Shiva são cultuadíssimos na Índia, Brahma praticamente não recebe o culto dos homens, e só existe um único templo a ele dedicado em todo território indiano.

Isso porque, segundo a lenda, quando Brahma, após ter tomado a forma de um ganso, regressou de suas infrutíferas investigações para encontrar o topo da coluna de luz (Shiva), trouxe consigo uma pequena pétala, que há milênios vinha caindo, depois de ter-se desprendido da cabeça de Shiva e, talvez por orgulho infantil ou por qualquer outra razão, pois não se pode saber o que se passa na cabeça de um Deus, mentiu e afirmou que a pétala tinha sido retirada da augusta cabeça de Shiva. Foi o suficiente para que fosse condenado por essa mentira, a não merecer o reconhecimento dos homens.

As palavras Brahman (neutra, em sânscrito) e Brahma (masculina) não devem ser confundidas. A primeira refere-se à noção de absoluto transcendente e imanente – termo metafísico; a segunda é uma personificação do criador, uma designação mítica.

Na mitologia hindu Brahma personifica o aspecto positivo do processo vital do universo. De maneira unilateral, apresenta apenas a fase criativa, a pura espiritualidade. Não é ambivalente nem enigmático, como se poderia esperar de um deus. Por outro lado, Shiva, Vishnu e a Deusa-mãe, guardam esse caráter paradoxal, são benignos e terríveis, criadores e destrutivos, belos e hediondos – tudo ao mesmo tempo.

Segundo Zimmer (1989), Shiva e Vishnu aparecem no moderno hinduísmo como deuses de igual estatura: são aspectos ou atitudes destrutivas ou preservadoras do Supremo. Nos seus mitos, Vishnu converte-se em Shiva, cuja aparência assume, quando faz suceder a dissolução periódica de todas as coisas. Quanto a Brahma, é descrito como mero agente da função criativa do Conservador, como o primeiro Ser nascido; nasceu assentado sobre o lótus que brota do umbigo de Vishnu. É uma manifestação antropomórfica da energia demiúrgica deste último – o Grande Deus -, não sendo, porém, de maneira alguma, seu igual.

Quando Shiva, mais do que Vishnu, toma o centro do palco, o papel do Brahman personalizado ganha tintas de morte e destruição. Enquanto Vishnu evoca o aspecto mais luminoso dos atributos vitais – simbolizando melhor, portanto, o caráter do criador-preservador -, o ascetismo rigoroso de Shiva lança um sortilégio negativo sobre a esfera do renascimento. Sua presença nega a transcende o caleidoscópio de sofrimento e júbilo. Apesar disso, concede sabedoria e paz; não é tão somente terrível: é também de uma profunda benignidade. Tal como Vishnu é destruidor, Shiva é criador e conservador; sua natureza transcende e abarcam, a um só tempo, todas as polaridades do mundo vivente.

A plenitude das funções e aspectos mutuamente antagônicos de Shiva revela-se quando seus devotos o invocam por uma centena de nomes. Descrevem-no também suas 25 “manifestações jocosas” (lilamurti) – que seriam dezesseis, de acordo com outra tradição. Reduz-se a estes cinco, às vezes, a multiplicidade de seus aspectos expressivos: (1) A Manifestação Benéfica (anugrahamurti), (2) A Manifestação Destrutiva (samharamurti), (3) O Mendigo Errante (bhiksatanamurti), (4) O Senhor dos Dançarinos (nrttamurti), (5) O Grande Senhor (mahesamurti). Entre os títulos integrantes das listas mais extensas estão: O Deus com a Lua no cabelo (candrasekhara), Protetor do Ganges (gangadhara), Matador do Elefante-Demônio (gajasamhara), Consorte da Deusa Uma e Pai de Skanda, Deus da Guerra (somaskanda), O Senhor Que é Metade Mulher (ardhanatha), Senhor do Píncaro (sikharesvara), Senhor dos Médicos (vaidjanatha), Destruidor do Tempo (kalasamhara), Senhor do Rebanho (pasupati), Dispensador de Dádivas (sankara), Auspicioso (siva), o Uivador (rudra).

Há uma invocação a Shiva que nos mostra seu poder dinâmico, transmutador:

Assim como, sem ter começo, existe um ciclo cruel de renascimentos, Shiva existe também, sem nunca ter tido começo. Shiva é o Deus que liberta as criaturas do ciclo de renascimentos.”

Shiva dançando é o bailarino cósmico, que movimenta tudo no universo com sua dança – Shiva Nataraja – representado por um homem de uma cabeça e quatro braços. Numa mão ele segura um tambor em forma de ampulheta, Damaru, para marcar o ritmo da manifestação, Em outra mão repousa o fogo eterno e purificador, símbolo da transformação, da destruição para a renovação. Noutra mão ele faz o mudra que diz: “Não tenha medo, tenha esperança!” E a outra mão aponta seu pé, indicando que a libertação põe fim a todo o sofrimento. O pé elevado indica a libertação, o distanciamento do mundo das paixões, o mundo inferior, material, grosseiro. Com o outro pé ele esmaga um ser misto de homem e animal – apsmara purusha – de caráter demoníaco, reforçando a idéia que devemos transcender o mundo inferior, das paixões egóicas que tanto nos mantêm presos na dor.

Ele tem representado no centro da testa, o terceiro olho, que vê além das aparências, e que com ele Shiva sustenta a manifestação, assim ele também é considerado o difusor da vida. Sua cabeleira é um outo interessante aspecto, ligada ao nascimento do rio Ganges ou Ganga, que corria no espaço, não conseguindo atingir a Terra. Para atender as preces dos seres que desejavam que o rio corresse na Terra, para poderem purificar as cinzas de seus antepassados, Shiva vai até os Himalaias e oferece sua cabeça para receber o choque do impacto daquele imenso curso de água ao encontrar a Terra. A força das águas é amortecida quando encontra seus embaraçados cabelos e vai encontrando seu curso na Terra, sem choque. Assim, é revelado o caráter bondoso de Shiva, protegendo o planeta e as pessoas que nele habitam.

Por ser o Yoga um caminho de transcendência, Shiva é considerado o patrono do Yoga.

Conta-se que certa vez, um grupo de filósofos discutia doutrinas errôneas. Shiva aparece entre eles e tenta mostrar-lhes que estão equivocados, produzindo uma filosofia de má qualidade. Mas ele não é ouvido. Os filósofos se revoltam com sua interferência e resolvem enviar contra Shiva um demônio anão. Shiva parte-lhe a espinha, pisando sobre ele inúmeras vezes. Despeitados, os falsos sábios enviam-lhe, um tigre feroz, a quem Shiva tira a pele com a ponta de seu dedo mínimo. Assim, mostrando sua supremacia, convence os filósofos de sua verdade.

Mas o objeto de adoração essencial, o mais comumente encontrado nos santuários de Shiva, é o falo ou linga. Os primeiros registros dessa forma divina poderão ser encontrados nos antigos símbolos de pedra venerados no período neolítico. Já em Mohenjo-Daro vê-se o linga ao lado de outros importantes símbolos, similares àqueles que figuram na iconografia hindu posterior. O linga simboliza a energia viril criadora de Shiva; em contraste com todas as outras representações do deus, é chamado de “fixo ou imóvel” (dhuruva), “forma fundamental” (mulavigraha). Comparadas a ele, as outras representações são consideradas secundárias (Zimmer, 1989).

Como símbolo da energia criadora masculina, o linga é associado com freqüência ao símbolo primário da energia criadora feminina, a yoni, que forma a base da imagem de cujo centro ergue-se o emblema masculino. É uma representação da união criadora, que procria e mantém a vida do universo. Linga e yoni, Shiva e sua deusa, simbolizam as antagônicas e cooperantes energias sexuais. Esse casamento sagrado (hieros-gamos, em grego) tem múltiplas representações nas várias tradições da mitologia mundial (Zimmer, 1989).

Como surgiu a Deusa.

Ela é descrita como uma inconquistável e sublime donzela guerreira, nascida da fusão da cólera de todos os deuses, reunidos certa vez em conselho. O milagre se deu num momento tenebroso para os deuses, quando um demônio-tirano ameaçava destruir o mundo. Dessa vez, nem mesmo Vishnu ou Shiva poderiam ser de alguma valia. O titã era um monstro colossal de nome Mahisa, cuja forma era a de um prodigioso búfalo da Índia.

Liderados por Brahma, os deuses refugiaram-se em Vishnu e Shiva. Depois de descrever a vitória do demônio, imploraram a ajuda da excelsa e dupla Supremacia. A cólera dilatou Vishnu e Shiva. Também fez com que inchassem as outras divindades, que ali permaneceram, sem ação. Mas logo suas energias tão intensas, convertendo-se em fogo, jorraram-lhes das bocas. Vishnu, Shiva e todos os deuses as emanaram, em conformidade com suas naturezas, na forma de jatos e torrentes ígneas. As correntes flamíneas reuniram-se numa nuvem chamejante que cresceu e cresceu, condensando-se de maneira gradual. Por fim, assumiu a forma da Deusa. Tinha dezoito braços.

Contemplando a mais auspiciosa personificação da suprema energia do universo, essa maravilhosa fusão da totalidade de seus poderes, os deuses rejubilaram-se, venerando-a como a esperança de todos. Nela, “A Mais Linda Donzela das Três Cidades” (TRIPURA-SUNDARI), Mulher perene e primordial, todas as forças particularizadas e limitadas de suas várias personalidades estavam integradas de modo poderoso, numa esmagadora totalização que significava onipotência. Com um gesto de total submissão e de abdicação espontânea voltaram suas energias para a Shakti primeva, força única e fonte de onde tudo nasceu e teve origem. O resultado foi uma grandiosa renovação do estado original do poder universal. Quando o cosmos desdobrou-se, pela primeira vez, em um sistema de esferas e forças diferenciadas de modo estrito, a energia da vida foi dividida numa multidão de manifestações, a própria Energia da Vida, princípio maternal primevo, as reabsorvera; o útero universal, para onde haviam regressado, as engolira. Agora, ela estava pronta para existir na plenitude de todo o seu ser.

Sendo as deusas ou shaktis (poder) as contrapartes femininas dos deuses, temos em Saraswati a shakti de Brahma, Lakshimi a shakti de Vishnu e Parvati a contraparte feminina de Shiva. Shiva teria além de Parvati, duas outras “esposas”, Kali e Durga.

Sarasvati é a divindade hindu responsável pela proteção daqueles que lidam com a arte e o conhecimento. É a deusa de todas as artes: música, pintura, escultura, dança e escrita, e sua origem remonta aos Vedas. Ela é representada como uma jovem de tez clara tocando cítara – um típico instrumento musical hindu de cordas. Em sua representação está presente, muitas vezes, uma flor de lótus branca. É a deusa da eloqüência, e as palavras fluem a partir dela como uma rio florido e doce. Um mito desta divindade é que ela é rival da deusa da força, Lakshmi. Sarasvati é conhecida por ser extremamente benevolente e gentil com os pedidos de seus seguidores, e por este motivo é conhecida como realizadora de desejos.

Nos Vedas, seu nome é o mesmo do extinto rio Sarasvati, uma das mais ancestrais relações da mitologia indiana. Em um sentido simbólico ela sugere a sacralidade inerente nos rios ou na água em geral. Ela é conhecida por sua generosidade, fertilidade e riquezas. Suas águas fertilizam a terra, para que essa possa produzir. Sarasvati representa pureza, como a água: principalmente água corrente. As margens do rio eram sagradas também para finalidades rituais.

Saraswati é então, a deusa de todas as artes, incluindo a arte do conhecimento. Tem natureza gentil, benevolente, é conselheira, ordeira, empreendedora, mental e racional.

Lakshmi é a deusa da saúde e prosperidade, tanto material quanto espiritual. A palavra LAkSHMI é derivada da palavra em sânscrito laksme, significando acerto. Dessa forma, Lakshmi representa o acerto da vida, que inclui a prosperidade espiritual. Na mitologia hindu, a deusa Lakshmi, também chamada Shri, é a esposa divina do deus Vishnu e fornece a ele a força para a manutenção e preservação da criação.

Em suas imagens e gravuras, Lashmi é mostrada com quatro braços e quatro mãos. Ela veste roupas vermelhas com bordados dourados e repousa em uma lótus. Ela tem moedas douradas e duas flores de lótus em suas mãos. Dois elefantes (algumas gravuras mostram quatro) são mostrados próximos à deusa. Este simbolismo segue o seguinte tema espiritual:

Os quatro braços representam as quatro direções no espaço e isto simboliza a onipresença e a onipotência da deusa.

A cor vermelha simboliza atividade. Sua aplicação na vestimenta indica que Lashmi está sempre ocupada distribuindo saúde e prosperidade para seus devotos.

O bordado dourado em seu vestido vermelho denota prosperidade.

A flor de lótus significa que enquanto vivendo neste mundo, deve-se desfrutar de sua saúde e força, mas sem se tornar obcecado por isso. Este ensinamento é análogo à lótus, que cresce na água mas não é molhada pela água.

As quatro mãos simbolizam os quatro fins da vida humana: dharma (caminho correto), kama (desejos genuínos), artha (força e saúde), e moksha (liberação do ciclo de nascimentos e mortes). As mãos da frente representam a atividades no mundo físico e as mãos de trás indicam as atividades espirituais para alcançar a perfeição espiritual.

Desde que o lado direito do corpo simboliza atividade, uma lótus na mão do lado direito de trás indica que deve-se fazer todas as atividades no mundo em acordo com o dharma. Isto conduz a alma ao moska (liberação), que é simbolizado por uma lótus na mão da esquerda de trás de Lakshmi.

As moedas douradas caindo no chão vindas da mão esquerda da frente de Lashmi ilustram que ela provê saúde e prosperidade para seus devotos.

Sua mão da direita da frente é mostrada abençoando seus devotos.

Os dois elefantes próximos à deusa simbolizam o nome e fama, associados com a força material. A idéia mostrada aqui é que os devotos não devem adquirir força apenas para ter nome e fama ou apenas para satisfazer seus desejos materiais, mas deve compartilhar isso com outros de forma a trazer alegria aos outros além de si mesmo.

Algumas figuras mostram quatro elefantes borrifando água de vales dourados até a deusa Lakshmi. Os quatro elefantes nesta situação simbolizam o contínuo esforço próprio de acordo com o próprio dharma e governado pela pureza, em busca da prosperidade material e espiritual.

A deusa Lakshmi é adorada freqüentemente em templos próprios de seus devotos. Uma adoração especial é oferecida a ela anualmente no dia de Diwali, com rituais religiosos e coloridas cerimônias especialmente destinadas a ela.

Lakshimi é assim, a deusa da saúde e da prosperidade material e espiritual. Também são dela os aspectos de beleza, estética, harmonia, sustentação, perseverança e estabilidade.

Parvati é uma divindade largamente idolatrada pelos hindus. É conhecida como cônjuge de Shiva e mãe de Ganesha. Por este motivo, aqui explicamos seu aparecimento e sua interação com eles.

Parvati é uma das formas da deusa Shakti, especialmente criada para seduzir Shiva.

Veja abaixo a história detalhada da criação de Parvati, desde o momento em que Shiva perdeu seu primeiro amor:

Profundamente triste com a morte do primeiro amor de Shiva (Sati), ele se isolou em uma caverna escura no Himalaia.

Enquanto isso, os demônios liderados por Taraka, vieram e expulsaram os deuses para fora do paraíso. Os deuses precisavam de um guerreiro que pudesse ajudá-los a restaurar a ordem celestial.

“Apenas Shiva pode lutar como um guerreiro” disse Brahma.

Mas Shiva, imerso na meditação, estava alheio aos problemas dos deuses. Sua meditação produziu grande força e energia. Sua mente estava cheia de bons conhecimentos e seu corpo tornou-se resplandecente de energia. Mas todo seu conhecimento e energia, dentro de seu ser, não podia ser usado para ninguém.

Os deuses invocaram à deusa mãe, Shakti, para que encontrasse uma forma de contornar a situação.

“Eu vou me enroscar ao redor de Shiva, e absorver seu conhecimento e energia para o bem do mundo e farei dele o pai de uma criança.” disse Shakti.

Shakti então encarnou como Parvati, determinada a retirar Shiva de dentro de sua caverna e fazer dele seu cônjuge.

Todos os dias Parvati visitou a caverna de Shiva, limpou o chão, decorou-a com flores e ofereceu a ele frutas, esperando ganhar dele o amor.

Mas Shiva nunca abriu seus olhos. Exausta, a deusa invocou Priti e Rati, deusas do amor e da longevidade.

Essas deusas entraram na caverna de Shiva e a transformaram em um belo jardim cheio da fragrância de flores e com o som de abelhas.

Guiada por Priti e Rati, Kama, o deus do desejo, assoprou e atirou flexas de desejo no coração de Shiva.

Shiva ficou furioso. Ele abriu seu terceiro olho e liberou chamas de fúria que engoliram Kama e reduziram seu belo corpo a cinzas.

A morte de Kama alarmou os deuses. “Sem a deusa do desejo, o homem não poderá abraçar a mulher e a vida cessará.”

“Eu devo encontrar outra forma de atingir o coração de Shiva. Quando Shiva se tornar meu cônjuge, Kama renascerá.” disse Parvati.

Parvati entrou na floresta e executou rigorosos tapas, não se vestindo para proteger seu corpo do clima rigoroso, não comendo nada, nem mesmo uma folha. Ao executar esses rigorosos procedimentos, Parvati ganhou a admiração das entidades da floresta, que a nomearam Aparna.

Aparna tocou Shiva em sua capacidade de se excluir do mundo e dominar seus desejos físicos. A força de seus tapas acordaram Shiva de sua meditação. Ele caminhou para fora da caverna e aceitou Parvati como sua esposa.

Shiva casou-se com Parvati na presença dos deuses, seguindo os rituais sagrados. Depois, levou-a para o local mais alto do cosmos, o monte Kailasa, o pivô do universo. Eles então se tornaram um e Kama pôde renascer.

Parvati amoleceu o coração empedrado de Shiva com seu afeto. Juntos eles descobriram as alegrias da vida de casados. A deusa acordou Shiva para o mundo, despertando nele vários desejos. Em troca, ele revelou a ela os segredos dos Tantras e dos Vedas, que ele havia adquirido durante a meditação.

Inspirado na beleza de Parvati, Shiva tornou-se o fomentador das artes, da dança e do teatro.

Conforme o combinado com os deuses, Parvati deu a aura de Shiva para eles e disse: “Daqui vocês vão poder retirar o deus da guerra que vocês procuram.”

Os deuses deram a aura de Shiva para Svaha, cônjuge de Agni, a deusa do fogo. Incapaz de conservar a força da aura por muito tempo, Svaha deu a aura para Ganga, a deusa do rio, que refrigerou-a em suas águas congelantes, até que a aura de Shiva se transformasse em uma semente.

Aranyani, a deusa da floresta, embebeu a semente divina no solo fértil da floresta, que cresceu e se transformou em uma criança robusta com seis cabeças e doze braços.

As seis ninfas da floresta, chamadas Krittikas, encontraram esta bela criança em uma lotus. Tomadas de afeição materna, começaram a cuidar da criança. O filho de seis cabeças de Shiva, nascido de várias mães, tornou-se conhecido como Kartikeya.

Parvati ensinou a Kartikeya a arte da guerra e transformou-o em um guerreiro celestial chamado Skanda. Skanda comandou os soldados celestiais, derrotou Taraka na batalha e restaurou o paraíso aos deuses.

Skanda, guardiã do paraíso, destruiu muitos demônios que se opuseram ao reinado dos deuses. Mas ele não conseguiu derrotar o demônio Raktabija. Jamais o sangue deste demônio tocou o chão, pois quando ele jorrava, tranformava-se em milhares de novos demônios. Ele parecia indestrutível.

Para ajudar seu filho em sua batalha para afugentar os três mundos do demônio, Parvati entrou no campo cósmico da batalha como a temida deusa Kali.

Kali sugou o sangue que jorrava do demônio com sua longa língua antes que o sangue pudesse se transformar em novos demônios. Raktabija, sem poder se reproduzir, foi perdendo sua força. Então Skanda foi capaz de derrotar Rajtabija e todas as duas replicações com facilidade.

Skanda agradeceu sua mãe por sua ajuda. Para celebrar sua vitória, Kali dançou muito no campo de batalha.

Intoxicada pelo sangue de Raktabija, Kali correu pelos três mundos, destruindo tudo e todos os que estavam em seu caminho.

Para acalmá-la, Shiva tomou a forma de um cadáver e bloqueou seu caminho. Como deusa, cega pelo sangue, ver o corpo de seu cônjuge sem vida foi um choque que tirou-a do êxtase. Ela caiu em si e quis saber se havia matado seu próprio marido. Ela pôs um pé em Shiva e o trouxe de volta à vida.

Shiva então tomou a forma de uma pequena criança e começou a chorar, trazendo o amor maternal para o coração de Kali. Isso forçou-a a mudar para sua próxima forma: Gauri, a mãe radiante, provedora da vida.

Gauri disse a Shiva que desejava ter uma criança. Mas Shiva não estava interessado em uma família. Ele se afastou dela e foi à floresta fazer tapas.

Determinada a ser uma mãe, Parvati decidiu criar um filho dela própria sem a ajuda de seu marido. Ela cobriu sua face com pasta de sândalo, retirou a pele morta, misturou-a e moldou-a em uma bela boneca, para a qual ela assoprou a vida.

Então ela ordenou ao seu filho recém criado, cujo nome é Ganesha, que vigiasse sua caverna e dela afastasse todos os estranhos.

Quando Shiva retornou para Kailas, Ganesha não o reconheceu e o impediu de entrar na caverna.

Irritado pela insolência da criança, Shiva pegou seu tridente e cortou sua cabeça.

Quanto Parvati viu o corpo de seu filho sem cabeça, ela chorou copiosamente. Para acalmar Parvati, Shiva ressucitou a criança, colocando uma cabeça de elefante no pescoço cortado. Shiva também aceitou Ganesha como o primeiro de seus filhos.

Ganesha, que impediu Shiva de atravessar a porta de da caverna de sua mãe, tornou-se adorado como o removedor de obstáculos, o senhor dos inícios e o senhor do aprendizado.

Com Parvati de seu lado, Shiva tornou-se um homem de família. Mas ele não abandonou sua forma de heremita: ele continou a meditar e imergir em sonhos. Sua falta de cuidado, sua recusa de responsabilidades algumas vezes irritou Parvati. Mas então ela voltava a si, conformava-se com os caminhos não convencionais de seu marido e restaurava a paz. A conseqüente paz matrimonial entre Parvati e Shiva assegurou a harmonia entre matéria e espírito e trouxe estabilidade e paz para o cosmos.

Parvati também se tornou Ambika, deusa da segurança de casa, do matrimônio, da maternidade e da família.

 

Krishna é um dos avatares mais comuns do deus Vishnu, ou seja, uma de suas encarnações mais comuns.

O olho em forma de lótus, de coloração escura de Krishna é o homem completo e perfeito da mitologia indiana tradicional. Isso faz Krishna o maior Deus não ariano no panteão Hindu. Ele foi a oitava encarnação de Vishnu, o Preservador do Universo. Ele incorporou a forma humana para redimir as ações das forças do mal. Krishna tinha um apelo físico irresistível.

Viasa, no poema épico Bhagavad Gita, narra os diálogos entre Krishna e o guerreiro Arjuna, onde a justa conduta do ser humano é ensinada. Dentre os doze avatares (encarnações de Vishnu), Krishna tornou-se o mais conhecido e cultuado. Personifica o amor divino e suas aventuras são descritas no Bhagavat Purana.

Há três principais estágios na vida de Krishna:

No primeiro, Krishna nasceu em uma prisão em Mathura, onde seus parentes foram capturados por um demônio que tomou o lugar de um rei chamado Ugrasena. Sobre essa captura: Um dia, Ugrasena e sua esposa estavam caminhando nos jardins, onde um demônio viu a rainha e sentiu amor por ela. Em sua luta por ela, ele distraiu a atenção de Ugrasena, e assumiu sua forma e concretizou seu desejo. A criança nascida desta união foi Kamsa. Kamsa cresceu para destronar seu pai e prender sua irmã Devaki (filha de Ugrasena) e seu marido Vasudeva. Devaki mais tarde se tornou a mãe de Krishna.

Então um dia Kamsa estava levando sua irmã recém casada e seu marido Vasudeva para sua nova casa, quando uma voz vinda dos céus os interceptou. A voz disse para Kamsa que a oitava criança de Devaki iria matá-lo. Conseqüentemente, ele aprisionou o casal e começou a matar suas crianças, ano após ano. Sete crianças foram perdidas mas a oitava – o Deus – escapou das mãos do carniceiro e viveu para cumprir sua missão contra Kamsa mais tarde. Krishna nasceu à meia-noite do oitavo dia do equinócio do Bhadrapada (Agosto/Setembro) e foi trazido para Vrindavan por Vasudeva (pai de Krishna) na mesma noite, para salvá-lo de Kamsa.

Seu pai trabalhou para possibilitar ao bebê Krishna escapar para uma vila próxima e trocá-lo com outra criança. Ele foi criado pela família de pastores de vacas de Yashoda e Nanda Raja. Krishna cresceu como um garoto pastor de vacas.

No segundo, já como jovem, Krishna conquistou todas as garotas da vila com sua boa aparência, charme e atenção. Apesar de Radha ser sua favorita, ele flertou com as outras gopis também. Ocasionalmente ele se divide em vários, assim ele pode dar atenção a várias garotas de uma só vez. Estas estórias, que são boas lendas no nível superficial, também são interpretadas no nível de espírito.

Brajbhoomi, onde Krishna nasceu, compreende as cidades gêmeas de Mathura e Vrindavan. Esta não é apenas uma terra sagrada onde Krishna nasceu e demonstrou seu leela cósmico, mas um lugar cheio de reminiscências divinas. Foi aqui que ele encontrou pela última vez Radha, sua companheira inseparável. Vrindavan, há 15km de Mathura, foi o local favorito do casal divino.

No terceiro, como adulto, Krishna passou seu reinado no nordeste da Índia pela morte do rei Kamsa, evento este que é visto como a restauração do dharma. Na história do Mahabharata, ele então ajuda Arjuna, servindo como seu condutor de carroça e seus irmãos (os irmãos Pandava) em uma guerra para restaurar seu direito de reinar.

Em uma noite antes da batalha maior, Krishna e Arjuna tiveram uma longa discussão a respeito da natureza do dharma e do cosmos, que é preservado no Mahabharata como o Bhagavad Gita. No final da discussão, Krishna se revelou para Arjuna como Vishnu. As explicações de Krishna são contadas nos templos Vishnu e no festival anual de Ras Lila.

Final da aula:

Numa noite, o devoto e fiel rabino Eisik dormiu e sonhou; o sonho ordenou que ele fizesse uma longa viagem até Praga, capital da Boêmia, para lá descobrir um tesouro escondido, enterrado sob a ponte principal que levava ao castelo do rei. O rabino, surpreso, adiou a partida. Mas o sonho repetiu-se por mais duas vezes. Depois do terceiro aviso, reuniu coragem e iniciou a jornada. Chegando à cidade que era seu destino, o rabino Eisik viu que sentinelas guardavam a ponte dia e noite; não se atreveu, portanto, a fazer nenhuma escavação. Limitava-se a voltar a cada manhã e a perambular até o anoitecer, ficava a olhar a ponte, observando as sentinelas e examinando, sem tentar coisa alguma,a alvenaria e o solo. Por fim, o capitão dos guardas, surpreso com a insistência do ancião, aproximou-se e perguntou-lhe com gentileza se perdera alguma coisa ou se esperava alguém. O rabino Eisik contou-lhe seu sonho, com simplicidade confiante, e o oficial recuou um passo, rindo:

  • És, na verdade, um pobre homem! – disse-lhe o capitão.
  • Gastaste os sapatos nessa caminhada só por causa de um sonho? Quem, sendo sensato, acreditaria em sonhos? Olha, se eu acreditasse neles, estaria fazendo o contrário do que faço neste preciso momento. Teria feito uma peregrinação tão tola como a tua, com a diferença de que tomaria a direção oposta, mas chegando, sem dúvida, a um resultado igual. Deixa-me conta-te o meu sonho.

Era um capitão simpático, apesar de seu bigode feroz, e o rabino sentiu afeição por ele. – Eu sonhei com uma voz – disse o oficial cristão da guarda boêmia – que me falou de Cracóvia, ordenando-me que fosse até lá e procurasse um grande tesouro na casa de um rabino judeu chamado Eisik, filho de Jekel. Eu encontraria o tesouro enterrado num canto sujo atrás do fogão. Eisik, filho de Jekel! – riu-se o capitão outra vez, com os olhos brilhantes. – Imagina só, ir até Cracóvia e pôr abaixo as paredes de todas as casas do gueto. Ode o nome de metade dos homens é Eisik e da outra metade Jekel! Eisik, filho de Jekel, além de tudo! – E ele ria sem parar da inacreditável pilheira.

O modesto rabino ouviu-o com ansiedade; fez uma grande mesura e, agradecendo ao amigo estrangeiro, apressou-se a voltar ao lar distante, onde escavou o canto esquecido da casa e descobriu o tesouro que pôs fim à sua miséria. Construiu, com uma parte do dinheiro, uma casa de oração que leva seu nome até hoje.

Ora, o verdadeiro tesouro que põe fim à nossa miséria e às provações nunca está muito distante; não deve ser procurado em nenhuma região longínqua; está enterrado no mais profundo recesso de nossa própria casa, ou seja, de nosso ser. Está atrás do fogão, do centro daquela estruta que proporciona vida e calor à existência, no âmago dos âmagos – só é preciso desenterrá-lo! Persiste, porém, o estranho fato de que apenas depois de uma piedosa jornada a uma região distante, a um país estrangeiro, uma terra estranha, o significado da voz interior que guiará nossa busca nos possa ser revelado. Enquanto se dá esse fato singular, ocorre outro, paralelamente: quem nos revela o significado de nossa enigmática mensagem interior deve ser um estrangeiro, de outro credo e outra raça.

Fontes de consulta:

Azevedo, M.N., O Olho do Furacão, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1973.

Feuerstein, G., A Tradição do Yoga – História, Literatura, Filosofia e Prática, Pensamento, São Paulo, 2001.

Van Lysebeth, A., Tantra – O Culto da Feminilidade, Summus Ed., São Paulo.

Zimmer, H., Mitos e Símbolos na Arte e Civilização da índia, Ed. Palas Athena, São Paulo, 1989.

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