ALIMENTAÇÃO, DIGESTÃO, METABOLISMO, YOGA E AYURVEDA

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“Sem alimentação adequada a medicina é inútil, e com alimentação adequada a medicina é desnecessária”. (antigo preceito ayurvédico)

 

Segundo o dicionário Aurélio, alimento é toda substância que ingerida por um ser vivo, o alimenta ou nutre; também é aquilo que faz subsistir, que estimula. (Ex: A madeira da casa alimentou o incêndio. A viagem forneceu alimento à sua criação artística). A digestão é a transformação dos alimentos em substâncias absorvíveis e assimiláveis; também pode significar cozimento. O metabolismo é o conjunto de mecanismos químicos necessários ao organismo para a formação, desenvolvimento e renovação das estruturas celulares, e para a produção de energia necessária às manifestações interiores e exteriores à vida. (Ferreira, 1999).

A qualidade do metabolismo depende da escolha dos alimentos a serem ingeridos e das condições de realização da digestão. Segundo a medicina indiana conhecida como Ayurveda a escolha correta dos alimentos e a criação de condições favoráveis para que ocorra o processo da digestão são determinantes para que haja um bom metabolismo, gerando um corpo saudável e muita energia, nos afastando das doenças. Nessas condições é gerada no organismo uma substância chamada Ojas, que confere a sensação de bem estar geral, de leveza e de energia. Se essas condições não forem satisfeitas, ou seja, se escolhermos alimentos inadequados e se não criarmos as condições para a boa digestão, será produzido no organismo uma substância tóxica chamada Ama. Ama é pegajosa e obstrui os canais por onde Ojas circula, gerando fraqueza, doenças e sofrimentos diversos (Chopra, 1998).

Quando falamos em alimentação, digestão e metabolismo somos inclinados a dar uma quase exclusiva importância aos aspectos físicos e pouca atenção à participação das emoções e dos pensamentos. Isso ocorre por causa da orientação materialista do conhecimento ocidental que considera a mente e o psiquismo como epifenômenos do cérebro. Mas, segundo o entendimento do Yoga e da Ayurveda, cujas orientações são holísticas e espiritualizadas, nós somos muito mais do que somente o corpo físico. Somos compostos por vários corpos. A mente e o psiquismo constituem outros corpos e fazem parte do mundo material, embora de uma matéria mais sutil. Frawley diz que “como uma entidade orgânica, a mente tem uma estrutura, um ciclo de nutrição, uma origem e um termo. A mente é também um tipo de corpo ou de organismo. Ela tem o seu metabolismo, seus alimentos saudáveis, seus elementos a ser eliminados e seus desequilíbrios, que podem ocorrer em virtude de seu funcionamento insatisfatório” (Frawley,1996). Considerando dessa forma, nós nos alimentamos não somente com alimentos físicos, constituídos de proteínas, carboidratos e gorduras, mas também, de emoções e de pensamentos.

Para alimentar o corpo físico de forma adequada precisamos escolher bem o que vamos comer. Para a Ayurveda a escolha dos alimentos é imprescindível para a manutenção da saúde. Diferentemente da visão ocidental, a Ayurveda faz recomendações individualizadas do que comer, quanto comer, como comer e quando comer. Para isso ela nos ensina como reconhecer a constituição ou humor (dosha) de cada um de nós, pois, cada pessoa é um ser totalmente distinto de todos os demais. Enquanto para uma pessoa um alimento é saudável, para outra esse mesmo alimento pode ser extremamente prejudicial.

A transformação dos alimentos em substâncias absorvíveis e assimiláveis pelo organismo, através do processo digestivo, não depende somente da escolha correta dos alimentos, mas também, de condições propícias para a ocorrência da digestão. A Ayurveda faz várias orientações para que se processe uma boa digestão como, por exemplo, indicando as melhores horas do dia para se fazer as refeições, o que comer nas diferentes estações do ano, recomendando fazer as refeições em um ambiente tranqüilo e harmonioso e orientando na escolha dos alimentos através do sabor. Preocupa-se tanto com as variáveis internas do organismo, como com as externas, pertencentes ao meio ambiente onde ele está inserido. “O corpo humano é parte de um continuum natural, sendo um campo dinâmico de energia” (Chopra, 1998).

Assim como devemos ser conscientes e criteriosos ao escolher os alimentos físicos para alimentar nosso corpo denso, devemos ser também ao escolher nossos alimentos emocionais e alimentos pensamentos que vão alimentar nossos outros corpos mais sutis. O grande mestre do Yoga, Paramahansa Yogananda diz em um de seus escritos que Deus nos deu a capacidade de desenvolvermos a habilidade do discernimento, da discriminação e a força de vontade; o discernirmos para discriminar entre o certo e o errado e a força de vontade para agirmos corretamente. Ficamos em estado de bem aventurança quando conseguimos viver em harmonia com as leis naturais. Quando, por causa dos condicionamentos e dos hábitos criados na mente sucumbimos aos desejos a fim de suprir um prazer imediato e em conflito com as leis naturais entramos em sofrimento e adoecemos, nos tornamos infelizes. Assim como devemos proceder com relação aos alimentos físicos necessitamos escolher com sabedoria com quais emoções e com quais pensamentos queremos nos alimentar. Certas emoções e certos pensamentos são difíceis de serem digeridos. Sem metabolização coerente das emoções e pensamentos ocorre geração de substâncias tóxicas nos corpos sutis causando dor e sofrimento, como o Ama no corpo físico. Assim como o corpo físico necessita ser puro e equilibrado para que ocorra o estado de bem estar, o mesmo ocorre com o corpo emocional e com o mental. É necessário aprender a ficar consciente do nosso mundo interno, com relação ao que ingerimos, para descobrirmos aquilo que nos faz mal e o que nos faz bem. Dissemos, anteriormente, que o ambiente externo influencia no processo da digestão física; o mesmo acontece com a digestão das emoções e dos pensamentos. É necessário aprender a ficar consciente do mundo que nos rodeia, para aprendermos a lidar com as situações que nos fazem mal e com as que nos fazem bem.

Ao ficarmos conscientes devemos agir. Ao sabermos que certos pensamentos estão poluindo nossas mentes devemos afastá-los, substituindo-os por outros mais puros. O mesmo é válido para as emoções. Ao sabermos que um determinado ambiente é nocivo e está tornando nossas mentes tóxicas e impuras e as nossas emoções perturbadas e violentas devemos fazer de tudo para nos afastarmos dele.

A alimentação, digestão e metabolismo dos corpos físico, emocional e mental relacionam-se entre si, uma influenciando a outra. Ao comermos alimentos físicos impróprios e ou não criando as condições propícias para a digestão física, comprometemos o corpo denso e isso acarreta, conseqüentemente, sofrimento emocional e mental. Quando estamos fisicamente doentes, indispostos, com fraqueza, com dores, surgem emoções como preguiça, raiva, medo ou insegurança. Por outro lado, quando estamos tomados por estados emocionais de raiva, ansiedade ou depressão, ou seja, quando a digestão emocional está comprometida, a digestão física também é afetada. Da mesma forma, se somos dominados por pensamentos patológicos não há boa digestão nem boa metabolização a nível mental e isso afeta tanto o emocional quanto o físico. Instintivamente sabemos disso, pois com freqüência dizemos coisas como: “Aquela pessoa é intragável”. “Não digeri aquela idéia”. “Seu amor me nutre”. “Ainda não metabolizei as emoções e sentimentos resultantes da nossa discussão”. Percebe-se, assim, que o ser humano é um todo, com seus vários níveis interligando-se, um afetando o outro. Reforçando essa visão holística, Chopra diz que “o corpo é um sistema único integrado no qual todas as partes estão projetadas para funcionar em harmonia” (Chopra, 1998).

Ainda segundo esse autor, “o corpo humano é uma realização suprema da natureza e o desfrutar dessa dádiva requer um certo grau de compreensão e uma percepção bem consciente das necessidades dele”. (Chopra, 1998). A percepção e a compreensão das necessidades do corpo físico, do emocional e do mental é uma tarefa complexa. Além do esforço pessoal é necessário contarmos com ajuda do conhecimento de um médico ayurvédico e de um yogue que tenha alcançado a auto-realização.

Referência Bibliografica:

Ferreira A B H (1999). Novo Aurélio Século XXI: o dicionário da língua portuguesa, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, Brasil.

Chopra D.(1998). Digestão Perfeita: a chave para uma vida equilibrada, Rocco, Rio de Janeiro, Brasil.

Frawley D (1996). Uma Visão Ayurvédica da Mente: a cura da consciência, Editora Pensamento, São Paulo, Brasil.

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