APLICANDO YAMAS E NIYAMAS NA EXECUÇÃO DOS ASANAS

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Segundo o Yoga Clássico, o Raja Yoga, o sadhana ou o caminho do Yoga, é composto de oito classes de diferentes práticas. As primeiras são os yamas e os nyamas, a elas seguem-se o asana, pranayama, prathyahara, dharana, dhyana e samadhi.* Embora o recomendável seja que se pratique todas as classes, é importante lembrar que existe uma ordem a ser respeitada. Assim, só é possível executar um asana de forma satisfatória quando levamos em consideração a prática dos yamas e nyamas. Só é possível a prática adequada do pranayama se já assimilamos os yamas e nyamas e se dominamos em alguma medida a execução do asana, assim sucessivamente até o samadhi. Neste artigo vamos mostrar como a execução correta de um asana depende dos yamas e niyamas, mas primeiro precisamos entender o que são os yamas e niyamas.

O sábio reconhece que há leis universais, procura compreendê-las e respeitá-las, fazendo com que elas norteiem suas ações e empreendimentos. Algumas dessas leis são mais fáceis de serem percebidas como, por exemplo, a lei da gravidade. Mesmo sem nenhum estudo ou reflexão todos sabem dos efeitos de uma queda livre. Com o avanço científico e tecnológico muitas destas leis relacionadas ao universo físico, nas diversas áreas do conhecimento, como na física, química e biologia foram compreendidas.

Assim como há leis universais sistematizando e organizando o mundo denso e material, elas também existem na sistematização e organização dos mundos sutis do psiquismo, das emoções, dos comportamentos, das relações e comunicações humanas. Estas são mais difíceis de serem percebidas e compreendidas.

As leis universais são de um caráter diferente das leis criadas pelos homens. Estas podem ser alteradas ou extintas segundo as conveniências ou interesses humanos, mas as universais não. Como disse um yogue realizado: “Não se barganha com Deus”. Aquele que tem juízo jamais desrespeita uma lei universal, a não ser por desconhecimento, pois sabe que as conseqüências são da ordem do sofrimento.

A filosofia do Yoga diz que a causa primeira de todo sofrimento é a ignorância (1). Precisamos nos esforçar para compreender as leis universais dos mundos sutis assim como fazemos com relação às do mundo material denso. Swami Vivekananda, um respeitável mestre do Jnana Yoga, o Yoga do Conhecimento, diz que o sentido da existência é aprender, é livrar-se da ignorância e para cumprir esse objetivo às vezes o sofrimento é melhor professor (2). Esse se livrar da ignorância também pode ser chamado de desenvolvimento humano. Pierre Weill, psicólogo e pensador francês radicado no Brasil, fala que para o pensamento ocidental o ápice do desenvolvimento humano atingido no nível intelectual, enquanto que para o oriental o desenvolvimento vai muito além, ele é atingido no nível espiritual (3).

No Yoga encontramos a orientação do que fazer para que o desenvolvimento humano seja possível; este deve começar com a prática dos yamas e nyamas, a ética yogue no sentido amplo do termo. Yamas e niyamas são leis universais que norteiam as relações humanas e suas formas de comunicação. São universais porque são válidas em qualquer situação, lugar ou época e independe de país, cultura, raça ou credo.

A aquisição de um conhecimento verdadeiro como o do Yoga, implica em conquista de algum nível de poder e de vitória sobre a ignorância; vitória sobre o sofrimento. Menos sofrimento significa mais felicidade, uma vida mais prazerosa. Um verdadeiro conhecimento não é aquele que assimilamos apenas intelectualmente, mas aquele que introjetamos e exprimimos em nossas ações de forma espontânea, sem conflitos emocionais ou psíquicos. Assim, não basta perceber intelectualmente a coerência da aplicação dos yamas e niyamas, é necessário que haja disposição para começar a praticá-los. Quando começamos a observar a aplicação dos yamas e niyamas na diversidade da vida, surgem inúmeros conflitos que nos forçam à reflexão. Essa tensão gerada pelo esforço de aprender, compreender, agir, sentir e refletir produz o desenvolvimento de viveka ou discernimento, poder de discriminação, sabedoria. O resultado desse empenho é uma crescente conquista de maior coerência pessoal com reflexo no coletivo. Podemos e devemos aplicar os yamas e niyamas em todas as nossas relações tanto com outras pessoas quanto com o meio ambiente.

Uma relação importante é a realizada conosco mesmo. A título de exemplificação de uma relação e comunicação deste tipo faremos uma breve reflexão sobre como aplicar yamas e niyamas durante a execução dos asanas, as posturas psicofísicas do yoga. A prática dos asanas gera muitos benefícios para a saúde, mas às vezes o praticante se machuca ou não alcança os esperados benefícios. Isso não ocorreria se fossem observados os yamas e niyamas durante a execução. Então vejamos:

Yamas:

  1. Ahimsa ou não violência:

Os asanas devem ser executados com atenção e cuidado, os movimentos devem ser lentos para que os alongamentos não ultrapassem o limite da extensão dos músculos, evitando lesões e também para não comprometer as articulações. Deve-se buscar o relaxamento e o conforto durante a permanência na postura, evitando sempre os estados que geram dores. O praticante deve ter uma atitude amorosa e respeitosa para com seu organismo, seu corpo, fugindo da violência. Palavras chaves: Amor, respeito, carinho, afeto.

  1. Satya ou praticar a verdade ou não mentir:
  2. Muitas vezes o praticante ao executar um asana coloca o seu desejo acima de sua possibilidade e comete exageros, acaba se machucando. Outras vezes ele tem possibilidade de alcançar maior êxito, mas não se esforça. Nas duas situações ele não foi verdadeiro, mentiu para si mesmo. A mentira gera violência. O praticante deve se esforçar para ter consciência da sua real possibilidade e respeitá-la; deve buscar conviver produtiva e harmoniosamente com ela. Palavras chaves: Discernimento, atenção, honestidade, humildade.
  3. Asteya ou não roubar ou ficar com o que é seu:
  4. Se o praticante fica prestando atenção nos outros praticantes e entra num processo de competição, fazendo comparações, invejando as possibilidades do outro está desejando o que não é seu. Ao ter esse comportamento está desejando roubar a competência alheia, deixa de prestar atenção em si e acabará cometendo violência em seu corpo. Sua mente ficará perturbada por emoções que afetará a auto estima. Todo roubo implica em alimentar a mentira e a violência. Palavras chaves: Aceitação daquilo que se tem e é, simplicidade.
  5. Brahmacarya ou controle da impulsividade ou da incontinência:
  6. Impulsividade não combina com asana. O praticante deve trabalhar a sua impaciência; deve fazer tudo com calma, prestando atenção, deve evitar os movimentos bruscos, os gestos e atitudes violentas e irrefletidas. Palavra chave: Comedimento, contorno, continência, controle.
  7. Aparigraha ou não possessividade:Palavra chave: Desapego, fluxo.
  8. O asana deve ser praticado com desapego pelos resultados. Deve-se evitar a busca de resultados. Os resultados surgirão espontaneamente. A preocupação em querer se apropriar dos benefícios gera ansiedade e desatenção. O melhor é executar os asanas como as crianças brincam. Elas brincam por brincar, não para conseguir alguma coisa. E paradoxalmente, quanto mais se consegue deixar de querer ter mais se acaba tendo.

Niyamas:

  1. Saucha ou pureza:

Ao executar um asana devemos cultivar o mais possível a presença de um estado de pureza, de inocência; um estado sem desejos nem culpas, sem cobranças; um estado de vivência o mais possível calcado na realidade, sem interferência da mente conceitual e crítica. Palavras chaves: inocência, simplicidade, humildade

  1. Samtosa ou contentamento:
  2. Se os asanas são executados sem tensões físicas nem mentais experimentamos um estado de satisfação, de conforto, de equilíbrio; um estado em que aceitando nossas condições, aproveitamos o que temos e nos deliciamos. Quando atingimos esse ponto em que estamos contentes com o que estamos realizando devemos buscar permanecer nesse estado alegre em que cada momento carrega em si a eternidade. Palavras chaves: aceitação, bem estar, alegria
  3. Tapas ou disciplina ou esforço:
  4. O esforço a que aqui se faz referência não é aquele que leva ao sofrimento experimentado no corpo levando ao cansaço e esgotamento das energias; não é o esforço exigido dos atletas para conquistar vitórias ou resultados. O esforço é exclusivamente para conseguir a disciplina da mente e do corpo. É um esforço contra a preguiça, a indiferença, os impulsos, os desejos, a ansiedade, a intolerância, a impaciência, a culpa, a falta de humildade, a arrogância, o exibicionismo, a competição, etc. Para se executar um asana com perfeição é necessário enfrentar muitos desafios que vai exigir um grande treino da força de vontade. Palavras chaves: disciplina, humildade, perseverança, vontade, motivação.
  5. Svadhyaya ou auto estudo:
  6. Ao executarmos um asana devemos estar atentos a todos os processos físicos ou mentais que estão sendo mobilizados; buscamos com isso aumentar a consciência a respeito de nós mesmos. Tentamos identificar o nível de tensão nos músculos, o grau de flexibilidade nas articulações, se há dor, desconforto, sensações agradáveis ou não, alterações na respiração, na freqüência cardíaca e na temperatura, a produção de sudorese e de calor, etc. Prestando atenção aos nossos processos físicos e mentais vamos descobrindo e enfrentando nossas inclinações limitadoras e até destrutivas. Apontamos algumas quando falamos de Tapas. Descobrimos e experimentamos outros estados de consciência como a vivência da paz, da harmonia, do contentamento e da calma; passamos a vislumbrar outras possibilidades de uma existência mais gratificante. Palavras chaves: auto conhecimento, estudo, descoberta, apropriação de si mesmo.
  7. Isvara-Pranidhana ou entrega ao Eu Superior

Essa entrega significa transformar o asana em uma verdadeira meditação. Quando conseguimos realizar o asana sem o interesse de ganhar algo ou de lucrar, com plena atenção na execução em si, como um guerreiro enfrentando a si próprio na batalha contra as artimanhas do eu menor, com pureza de coração, com abertura para desfrutar a experiência que gera auto conhecimento, atingimos o estado de estabilidade e conforto que liberta das investidas dos pares de opostos (o bem e o mal, a alegria e a tristeza, o prazer e a dor, etc) aludidos por Patanjali, o codificador do Yoga. Em outras palavras, deixamos de esperar alguma coisa da nossa prática e nos transformamos na própria experiência. Isso traz libertação e sabedoria. Palavras chaves: Entrega, ausência de esforço, confiança, libertação, devoção.

*Yama (não violência, não mentira, não roubo, não impulsividade, não possessividade)

Niyama (pureza, contentamento, força de vontade, auto conhecimento, entrega ao Eu Superior)

Asana (posturas psicofísicas)

Pranayama (domínio sobre a respiração)

Prathyahara (domínio sobre os sentidos)

Dharana (poder de concentração)

Dhyana (poder de meditação)

Samadhi (poder de transcendência)

 

 

Bibliografia:

Taimni IK (1989). A Ciência da Ioga: Comentários sobre os Yoga Sutras de Patanjali à luz do pensamento moderno. Ed. Grupo Annie Besant, Rio de Janeiro, Brasil.

Vivekananda S (1972). Quatro Yogas de Auto Realização. Ed. Pensamento, São Paulo, Brasil.

Weill P (1999). Fronteiras da Evolução e da Morte. Ed. Vozes.

 

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