APRESENTANDO A COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA

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Lucia Maria de Oliveira Nabão

Psicóloga, Professora de Yoga e Facilitadora de Processos em CNV

nabaolucia@yahoo.com.br

 

A Comunicação Não-Violenta (CNV) está fundamentada nas habilidades conversacionais no sentido amplo do termo. Seu propósito é restabelecer as relações e as conexões entre os seres humanos, mesmo em condições difíceis e situações de conflito. Pode ser vista como um processo de humanização profunda.

Estruturada pelo psicólogo humanista americano Marshall Rosemberg, inspirado nas ideias de Mahatma Gandhi, Paulo Freire e Carl Rogers, entre outros, esta prática nos brinda com revolucionários ensinamentos que nos permitem reestruturar nossa maneira de perceber, compreender e nos conectar com nós mesmos e com os outros, a partir do que há de humano em todos nós. Atua em duas principais frentes, a da escuta empática e a da expressão autêntica e clara.

A CNV parte da observação de que a crescente violência que nos cerca e na qual estamos inseridos é reflexo de uma lógica de ação e relação divorciada de nossos verdadeiros valores. Através de uma série de distinções precisas, o trabalho revela como as formas culturais predominantes de nos comunicarmos, com nós mesmos e com os outros, levam-nos a entrar em choque com colegas, familiares e pessoas com opiniões ou culturas diferentes, e assim iniciar ciclos de emoções dolorosos. Eminentemente prático, o processo oferece alternativas claras aos confrontos em que ficamos presos e à lógica destrutiva da raiva, punição, vergonha e culpa.

No coração da Comunicação Não-Violenta está a dinâmica que dá fundamento à cooperação – nós seres humanos agimos para atender necessidades, princípios e valores básicos e universais. Com a consciência que esta constatação nos fornece, passamos a enxergar a mensagem por trás das palavras e ações dos outros, e de nós mesmos, independentemente de como são comunicadas. Assim, as críticas pessoais, rótulos e julgamentos dos outros, seus atos de violência física, verbal ou social, são revelados como expressões trágicas de necessidades não atendidas.  (1)

Trata de uma mudança do paradigma do guerreiro, de onde vemos nosso interlocutor como nosso inimigo, quer seja um membro querido da família ou o nosso chefe, para uma visão humanizada do outro com quem nos relacionamos. Isso se dá pelo reconhecimento daquilo que compartilhamos todo o tempo, que são as nossas necessidades humanas e universais (respeito, pertencimento, amorosidade, compreensão, segurança, etc.). O resultado é que todos ganham.

No modelo comum de nossas interações, as nossas verdadeiras necessidades ficam escondidas atrás de comportamentos, falas e atos desconectados e se perdem no desenrolar de acusações, ataques e defesas infindáveis e pouco produtivos, conhecidos de todos nós.

A CVN trabalha na expressão de 4 áreas:

Observação do evento, ao invés de julgamento crítico.

Sentimento relacionado ao fato, ao invés do pensamento ou Interpretação do fato.

Necessidade Humana Universal, no lugar da vontade individual.

E no Pedido, que é distinto de exigência.

Assim, um amigo que marca encontro com outro e este se atrasa por mais de uma hora, ao invés de falar:

– “Nossa! Você é um babaca mesmo! Nunca chega na hora! Sabe de uma coisa, cansei, não marco mais nada com você.”

Diria:

– “Nós marcamos nosso encontro para às 19 horas e são 20h30. Estou irritado e nervoso.  Sinto necessidade de confiar em nossos acordos. Você estaria disposto a conversar sobre isso?”

Para você, leitor, qual das duas formas abriria um diálogo? Certamente a segunda, não é? Pois assim pretende ser a conexão por meio da CNV, autêntica, corajosa, firme, mas também, respeitosa e humana.

 

As possíveis aplicações:

Educação: Escolas de ensino fundamental e médio, também creches e universidades, desenvolvem programas com a Comunicação Não-Violenta para fortalecer noções de cidadania, convivência, comunicação e não-violência em diversos países. A CNV é reconhecida pelo Ministério de Educação da Itália; em Israel faz parte do programa do Ministério de Educação para prevenção de violência e é aplicada em creches; na Inglaterra, Estados Unidos, Dinamarca, Alemanha e outros países é a base de um novo conceito de escola; e na Sérvia, em conjunto com a UNICEF, foi introduzida em todas as escolas de segundo grau. No Brasil, num projeto do SEE-SP, círculos de resolução de conflito em 10 escolas no bairro de Heliópolis e 10 do município de Guarulhos usam a CNV para fortalecer a cultura de paz e responsabilidade, e resolver a dicotomia punição / impunidade.

Segurança: Em penitenciárias na Suécia, nos Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido a CNV faz parte de programas para detentos e guardas, e é cada vez mais utilizada no processo da reintegração de ex-presidiários; projetos com policiais e militares demonstraram a eficácia de treinamento em não-violência, aumentando o respeito aos direitos humanos, o uso protetor de força e a melhoria no bem estar dos capacitados; Comunicação Não-Violenta faz parte integrante da formação de membros da Força Não-Violenta de Paz, grupo internacional presente em situações de conflito armado para apoiar a transformação pacifica; e no Brasil ela faz papel chave nos projetos piloto do Ministério de Justiça em Justiça Restaurativa, aplicada em escolas, Varas de Infância e Fóruns, unidades da FEBEM e abrigos.

Psicólogos e agentes comunitários usam a CNV em reconciliação e no processo de recuperação depois de trauma e dependência.

Na gestão pública de governos federais, estaduais e municipais a CNV é empregada em vários países, tanto na comunicação interna como em projetos com o público.

Grupos religiosos aprendem, ensinam e mediam disputas usando a CNV, em comunidades cristãs, muçulmanas, budistas e judaicas.

A CNV é usada na área de saúde por médicos, enfermeiros e administradores como potente recurso no processo de reumanizar o setor. (1)

No Brasil, a CNV é amplamente utilizada no mundo corporativo, dentro de empresas, desenvolvendo qualidade de interação humana e contribuindo para o diálogo entre os colaboradores, resultando em mais foco nos objetivos da organização. O modelo transacional do ganha-ganha é aqui aplicado, a equipe ganha, a empresa ganha.

A Comunicação Não-Violenta sugere como prática social a corresponsabilização para a construção do mundo em que todos queremos viver. Convida a reflexões profundas e processuais sobre os paradigmas atuais e a necessidade de invenção de novos modelos de vida intrapsíquica, social e planetária.

“A arte de fazer a vida significativa e bela, envolve a descoberta de conexões entre o que parece não ter conexões, unindo pessoas e lugares, desejos e memórias, através de detalhes cujas implicações passaram despercebidas.” –Theodore Zeldin

 

Indicação bibliográfica:

Rosemberg, Marshall – Comunicação Não-Violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais; São Paulo, Ágora, 2006.

 

 

 

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