AS POSTURAS INVERSAS

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Há um grupo de posturas psicofísicas ou asanas no Hatha Yoga, que merece uma atenção extra. São as posições invertidas, aquelas em que o praticante fica “de cabeça para baixo”, de várias formas.

Lembrando que o Hatha Yoga é um método de integração e harmonização das energias solares e lunares, ativas e receptivas, vamos pensar nos efeitos energéticos destas posturas no ser humano, que corresponde microscopicamente ao universo (Hermógenes, 13 a. edição). O sol situa-se na região do estômago, enquanto que a lua está na cabeça. Na compreensão do funcionamento do corpo energético de cada indivíduo, que os iogues tinham de forma clara, a lua secreta um fluído sutil, chamado pelos mestres de amrita, conceito que corresponde ao néctar dos deuses, da cultura grega. Esse alimento vital e sutil circula pelos nadis, os canais de energia, pelo corpo sutil todo, revitalizando-o e abastecendo os chakras, centros energéticos, que correspondem aos nossos estados de consciência. Se na maior parte do tempo fica com a cabeça posicionada acima da região do estômago, o fluído vital amrita, é tragado pelo nosso sol, por conta da ação da força da gravidade. Mas nas posições inversas, o fluído renovador da vida é absorvido pelos chakras superiores, expandindo estados de consciência mais elevados e alterando o processo degenerativo do tempo sobre o nosso corpo e mente. Por esta razão é que entendemos as posturas inversas como regenerativas e de rejuvenescimento, efeito este facilmente percebido nos praticantes assíduos do Yoga (Blay, 1986).

Em algumas inversas, como a Postura da Foice ou do Arado, o praticante eleva as pernas, a partir da posição deitada (decúbito dorsal), e os benefícios citados acima são alcançados. Porém, nas posições em que o praticante fica diretamente sobre a cabeça, como na Postura do Pássaro, do Delfim ou o Pouso sobre a Cabeça, esses efeitos são ainda maiores.

Swami Kuvalayananda (1976), fundador de um centro de Yoga científico na Índia, que pesquisou profundamente os benefícios terapêuticos e culturais dos asanas , aponta para diversos efeitos benéficos, como um maior suprimento de sangue no cérebro, mantendo a saúde de todo o sistema nervoso e também dos órgãos dos sentidos, diretamente ligados ao cérebro. As glândulas endócrinas situadas acima do coração, como tireóides, pineal e pituitária, são grandemente beneficiadas pelo aumento do suprimento sanguíneo na região em que se localizam. O aparelho digestivo é igualmente beneficiado, pois na posição invertida, especialmente nas posturas sobre a cabeça, há um escoamento melhor do sangue venoso dos órgãos, facilitando a melhor absorção do sangue novo das artérias, o que os torna mais saudáveis. A função da excreção é conseqüentemente melhorada. Como o nosso bem-estar e saúde dependem do bom funcionamento do nosso aparelho digestivo, endócrino e nervoso, as posturas inversas são de grande valor. Os iogues também garantem que a prática regular desses asanas , aumenta nosso vigor físico e mental.

Iengar (1979), outro respeitado e reconhecido mestre do Hatha Yoga , descreve inúmeros efeitos do Pouso sobre a Cabeça, Sirshasana , considerada a rainha de todas as posturas. Diz ele, “O cérebro é a sede da inteligência, do conhecimento, da sabedoria e do poder. É a sede de Brahman, a alma. Um país não pode prosperar sem um rei … para guiá-lo; assim, o corpo humano não pode vicejar sem um cérebro saudável.” Complementa relatando que pessoas que sofriam de insônia, falta de memória e pouca vitalidade, recuperaram-se com a prática correta e regular desta postura, e que também os pulmões tornam-se mais resistentes, livrando-nos dos resfriados, tosse, amigdalite e halitose. E ainda, que desenvolve no corpo e na mente, disciplina, equilíbrio e autoconfiança.

Por fim, importa lembrar que os asanas – as posturas – compõem o terceiro estágio dos oito passos do Yoga Clássico de Patanjali. Os primeiros estágios são Yama e Niyama, codificando a ética, as condutas e os cuidados com que todo o Yoga deve ser embasado para ser desenvolvido. Assim, o fundamental na prática de um asana é respeitar o próprio corpo, sua condição física e possibilidade, bem como sua limitação. Isso é muito pessoal. No Yoga, uma postura é definida como uma forma de colocar o corpo imóvel e sem esforço numa posição por muito tempo, com a mente integrada com a ação desenvolvida pelo corpo ou com a própria respiração.

Respeitando essas observações e motivados pelos inúmeros benefícios das posturas invertidas, podemos ter uma excelente prática.

 

 

 

Referência Bibliográfica:

 

Blay, A. Fundamentos e Técnicas do Hatha Yoga, São Paulo, Edições Loyola, 1986.

Hermógenes, J. Autoperfeição com o Hatha Yoga. Rio de Janeiro, Ed. Record, 13a. edição.

Iengar, B.K.S. Light on Yoga. New York , Schocken Books, 1979.

Kuvalayananda, S. Asanas. São Paulo, Ed. Cultrix, 1976.

 

 

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