AS VÁRIAS CONCEPÇÕES DE DEUS NO HINDUISMO

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Extratos da obra de Jean Herbert “Spiritualité Hinous” traduzidos por Jean Pierre Bastiou, presidente do Centro Cultural Brasil-Índia.´

1 – Deus ultrapassa as faculdades de percepção, de compreensão e de imaginação do homem, que não poderá nunca conhecê-lo na sua verdade total e absoluta, verdade que os hindus designam pelo nome de Brahman ou pela sílaba mística AUM.

2 – Mais ou menos diretamente, Deus é ao mesmo tempo a causa eficiente e a causa material de todos os objetos e conhecimentos, embora estes possam ser considerados pelo homem que julga humanamente, como bons ou maus, criadores ou destruidores, propícios ou nefastos.

3 – Se o homem não pode encontrar Deus na sua integridade, pode ele buscá-lo e descobri-lo através de qualquer uma de suas manifestações. Assim como aquele que vê uma lâmpada elétrica pode concluir a existência de uma central elétrica e utiliza sua produção, mesmo se ele ignora sua localização e seu funcionamento. E, no que diz respeito ao desenvolvimento espiritual, esta busca basta se for intensa.

4 – A única meta do homem na sua vida sobre a terra é buscar Deus, aproximar-se Dele. Mas tem ele escolha entre um número infinito de aspectos de Deus, segundo a ordem de manifestações na qual ele se sente inclinado em buscar sua ação.

5 – Cada um dos inúmeros aspectos de Deus encontra-se simbolicamente numa “Divindade” que pode fazer o objeto de um culto, mas que, entretanto, permanece no espírito do devoto como um “Aspecto”, por mais ínfimo que seja, do Deus Único e que, em conseqüência, é essencialmente idêntico a este Deus e possuidor de todos seus atributos.

6 – O microcosmo da alma humana corresponde estreitamente na sua natureza, sua composição e sua evolução ao macrocosmo universal, e a maioria dos aspectos de Deus podem ser considerados num plano psicológico ou num plano cósmico, como forças da alma ou como forças da natureza.

7 – Pode-se classificar as várias manifestações divinas, segundo uma espécie de hierarquia ininterrupta, porém flexível, dependendo de seu grau de plenitude, desde o Deus pessoal na sua totalidade, até o organismo mais simples. Não existe, pois, abismo intransponível entre a natureza do homem tal qual nós o conhecemos, e a natureza de Deus tal qual podemos imaginá-lo, ou senti-lo, e existem entre os dois, todos os degraus intermediários.

8 – Estes vários aspectos de Deus podem apresentar entre eles ou internamente em cada um deles, contradições ou oposições aparentes tão grandes como as que existem entre as forças da natureza ou as paixões da alma humana. Não pode haver, por esta razão, nenhum dogma (no sentido cristão da palavra) que se aplique a todos eles.

 

BRAHMA

No ápice da hierarquia divina hindu, está evidentemente, o Brahman absoluto do qual nada pode ser dito, por ser além de toda dualidade e escapar a toda possibilidade de relação, incluída a da devoção ou do conhecimento. A única maneira de aproximação do Brahman absoluto é tentar alcançar esta consciência da não-dualidade que pode ser vivida, mas não descrita. Quando imaginamos o Divino como objeto de adoração ou de conhecimento, com atributos tais como a onipotência, o amor, etc., o aproximamos de nós e o rebaixamos ao alcance de nosso nível de consciência, fazemos dele um Deus pessoal, que os hindus chamam Ishvara. E, é esse Deus que é ativo e se apresenta sob todas as formas possíveis. Mas, toda atividade pode repartir-se em três categorias: criação, conservação, destruição. A cada uma delas corresponde uma das personagens da grande Trindade Hindu: Brahma, Vishnu e Shiva. Evidentemente, entretanto, para os homens acreditando em cadeia de vidas sucessivas e vendo no não renascimento dentro da vida individual a meta do esforço humano, os termos de criação e de destruição não podem ter o mesmo sentido, a mesma significação que tem para nós ocidentais. Será mais exato traduzi-lo por descida no plano da consciência (altamente indesejável) da multiplicidade, e destruição deste estado pela volta da consciência da unidade, que é a única verdadeira, ou em todo o caso, a mais verdadeira das duas. Assim Brahma, o “Criador”, o grande ancestral, aquele a quem os hindus testemunham uma profunda veneração filial, é na realidade o Deus que mergulhou o homem na vida das dualidades (conhecimento do bem e do mal, etc.), e o expulsou do “Paraíso” da verdade absoluta. Isto explica porque os hindus não lhe são particularmente gratos. Em toda a Índia, não existem mais de meia-dúzia de templos dedicados à Brahma.

 

SHIVA

Shiva pelo contrário, o destruidor da diferenciação, é aquele que devolve ao homem a consciência original da unidade, e lhe dá assim a liberação final. Por esta razão. Shiva se apresenta sob dois aspectos aparentemente incompatíveis, inseparáveis em realidade. De um lado ele é o maior benfeitor, o libertador, aquele para quem o homem se volta com a maior esperança. E do outro lado, e o terrível (Rudra) sem piedade por tudo o que freia ou atrasa nossa evolução. É também o grande asceta, modelo e guia daqueles que se dedicam exclusivamente à busca da libertação. E sendo que a morte no plano dos sentidos materiais, no plano do espaço e do tempo, é também nascimento na vida eterna. Shiva, Deus da morte, é geralmente representado pelo símbolo da geração. O grande Deus por excelência (Mahesvara) tem inúmeros templos e altares que lhe são dedicados.

 

VISHNU

Assim como entre o nascimento e a morte se situa a vida, entre Deus que nos lança na multiplicidade e aquele que nos liberta, encontra-se aquele que nos protege e nos guia através desta vida, o Deus da religião propriamente dito: Vishnu. Ele é o companheiro, o amigo, o aurige, aquele que para compartilhar de nossos sofrimentos, nossas paixões, nossas lutas, nossas tentações, “se fez homem”, desce na terra como avatar, como encarnação de Deus todas as vezes que a humanidade necessita ser redimida. Ele é o Deus a quem se implora e adora sob inúmeras formas e sob inúmeros nomes, e para quem milhões de templos são erigidos através de todo o solo indiano, desde as verdadeiras “catedrais” das cidades santas onde ele se manifestou, até o modesto altar da família hindu e o montículo de pedras, postos em sua honra a beira do caminho.

 

OS AVATARAS – Dois dos avatares de Vishnu, gozam na Índia de um fervor todo especial, É, em primeiro lugar, Rama, modelo de todas as virtudes, as mais altas, que ensina pelo seu exemplo muito mais que pelas suas palavras. E depois Krishna, que se apresenta sob o duplo aspecto de jovem pastor divino, despertando em homens e mulheres um intenso sentimento de adoração mística, triunfando sobre todos os demônios que devastam o mundo, e de inspirador sábio e poderoso da elite, dos grandes chefes, guiando-os no meio da batalha dispensando estes ensinamentos de alta espiritualidade que encerra o Bhagavad-Gita.

 

SHAKTI – Segundo a concepção hindu, o divino, sob qualquer um de seus aspectos, somente pode manifestar-se, graças a seu poder de manifestação correspondente, sua Shakti, e esta se encontra simbolizada por uma mulher, uma deusa, a esposa do Deus. Todas estas deusas, de inúmeros nomes, são simples aspectos da Shakti suprema, que é chamada de mãe divina, que serve de meio para o Deus gerar o seu Universo.

 

SHAKTIS – Entre elas, Sarasvati, Shakti de Brahma, representa “a penetrante sagacidade do conhecimento íntimo” que finda na perfeição, na criação. Kali, Shakti de Shiva, esplendida energia, vontade esmagadora, destrói implacavelmente todas as imperfeições, e exige que o homem sacrifique tudo o que lhe é mais caro, para caminhar livre, na vida espiritual ardente, em direção à libertação. Lakshmi, Shakti de Vishnu, soberana da harmonia e do ritmo sutil do universo, representa a opulência e a beleza. Lakshmi encarna geralmente ao mesmo tempo que Vishnu e como sua esposa. Assim Sita, a casta e fiel esposa de Rama, é o modelo da mulher hindu. Radha, a mais perfeita devota de Krishna, alcançou ao grau supremo do amor que confere o conhecimento de Deus.

 

UNIDADE ESSENCIAL DOS DEUSES

Quando nos surpreendemos ao verificar que os hindus, ao evocarem tal ou qual deus mais ou menos secundário, não somente visualizam muitas vezes nele, o Deus supremo, mas ainda dedicam-lhe os nomes de todos os outros deuses (Tu és Vishnu, Tu és Shiva, Tu és Agni, Tu és Indra, etc) nós esquecemos que a ciência demonstrou-nos a unidade essencial de todas as formas de energia e a possibilidade de transformá-las à vontade uma na outra, o que faz com que possamos dizer a qualquer destas formas de energia: “Tu és Luz, Tu és Calor, Tu és Som, Tu és Vibração, Tu és Eletricidade e Tu és Força”.

Se o Vishnuista, prosternado diante da estátua de seu Deus favorito, se dirige a ele dizendo “Tu és Shiva”, o shivaita que se dirige ao seu Deus, diz também “Tu és Vishnu”. Não existe entre os dois cultos, nenhuma antinomia, assim como não existe antinomia no catolicismo entre a adoração do Sagrado Coração de Jesus e a adoração de Nossa Sra. de Lourdes. Esta consciência da unidade divina através de todos os símbolos se traduz mesmo na iconografia, e não é raro encontrar imagens representando Vishnu-Shiva (Hari-Hara), ou Brahma-Vishnu-Shiva (Trimurti), ou ainda o Deus e sua Shakti (Ardhanarishvara) reunidos num só corpo.

 

PODER DA TRIMURTI

Os membros da grande Trindade sejam diretamente, seja por meio de sua Shakti, de seus avatares ou de suas emanações, exercem sobre o mundo um poder absoluto. Nada pode se opor a eles. Conscientes da unidade integral da qual são apenas aspectos inseparáveis dirigem o jogo (Lila) da vida ao seu modo, e dele são legisladores todo- poderosos. Os homens podem adorá-los e na medida em que se conformam, as regras por eles ditadas, aproximar-se deles, modelar-se sobre eles, até o ponto de imergir-se definitivamente neles. Cada uma destas atitudes levando a estados de consciência que a terminologia hindu chama de Paraísos.

 

DIVINDADES SECUNDÁRIAS

Ao redor de Shiva e de Vishnu gravitam ainda divindades secundárias que representam aspectos mais humildes, mais acessíveis ao homem, de todas as grandes forças espirituais e que, por conseguinte são objetos de ardente cultos populares. O fato de estas divindades serem representadas muitas vezes meio humanas, meio animais, indica provavelmente que seus ensinamentos se dirigem aos homens que ainda não se desvencilharam das propensões e paixões sexuais animais, da natureza humana. As mais populares são o macaco Hanumana, modelo do perfeito servo de Deus, encarnação da castidade e da virilidade, e Ganesha, o Deus com a cabeça de elefante que simboliza a fé absoluta na força espiritual e na graça divina. Os Nagas (serpentes), guardiões das verdades espirituais e dos poderes ocultos de seus possuem, põem a prova os homens que querem conquistá-las.

 

MITOLOGIA HINDÚ

Nós estamos acostumados à mitologia greco-romana, que nos foi transmitida quase exclusivamente sob a forma literária, com um harmonioso concatenamento de todos os mitos e de todos os laços que unem um Deus a outro. Por isso sentimo-nos completamente desconcertados, quando abordamos a mitologia hindu, que se conservou estreitamente ligada às realidades cósmicas ou psicológicas que ela representa, e sobre as quais se modela-continuamente. Para nós, se um Deus é o pai de um outro, é inconcebível que este Deus possa ser ao mesmo tempo seu irmão ou seu filho. Mas, as forças que estes Deuses simbolizam não têm entre elas relações tão compartimentadas, e fáceis de catalogar. A semente é filha da árvore, mas ao mesmo tempo é sua mãe. Podemos considerar as obras de um artista ou de um escritor como sua progenitora e, entretanto falamos de um homem que é filho de suas obras. O ódio é filho do medo e, entretanto ele também o gera.

 

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