ASANA SADHANA, UM LABORATÓRIO DE VIDA

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A prática das posturas de Yoga, chamada asana sadhana, pode ter objetivos diferentes, dependendo da história de vida e do momento presente de cada um.

Conforme a atitude e a postura interiores diante da prática, você poderá extrair mais ou menos benefícios. Neste texto, sugiro uma analogia entre a prática de asanas. E um experimento cientifico feito em laboratório. Dessa forma, exponho um ponto de vista em relação à prática de posturas físicas e como estas pode nos preparar e nos levar para mais perto do estado de yoga.

Asana é uma das técnicas utilizadas no Yoga para preparar o indivíduo para as práticas avançadas, como pranayama, concentração, meditação, etc. Asanas são posturas físicas que devem ser executadas não somente com o corpo, mas com a presença da consciência que observa tudo o que acontece nos planos físico, energético, mental e emocional. Sem esta consciência, o praticante estará apenas andando em círculos, Por momentos, poderá até achar que chegou em algum lugar na senda do Yoga. Porém, praticar asanas sem a atitude correta irá resultar, no melhor dos casos, num corpo saudável e numa boa postura. Infelizmente, esse é o objetivo final dentro do Yoga para muitas pessoas, principalmente iniciantes.

Esse objetivo – corpo saudável e boa postura – difere enormemente da meta que os sábios da antiguidade vislumbraram e experimentaram. Para a tradição, a meta deste sistema é um estado de total clareza mental, no qual há a plena compreensão do universo e de suas leis. Através da prática de asnas, podemos obter muito mais do que apenas beleza e saúde corporal; podemos obter um estado de tranqüilidade mental que conduz à felicidade. Neste texto, iremos indicar uma direção possível para que isso aconteça. Esta é apenas uma sugestão que pode lhe ajudar a extrair mais benefícios de sua prática física.

Os asanas têm como objetivos, entre outros, equilibrar e acalmar a mente e o corpo. Uma das maneiras pelas quais isto acontece é através da liberação das “couraças” padrões de energia represados no corpo ao longo das várias experiências de vida, notadamente traumas e condicionamentos.

Esta energia permanece reprimida no corpo, determinando nossa postura, linguagem corporal e a maneira como andamos e agimos.

Trabalhando o corpo, tornando-o fortalecido e livre de tensões, é possível mantermos uma postura de meditação e internalizarmos a mente. Ao pararmos os movimentos da mente, é possível chegar à meta do Yoga, o samadhi. Neste estado de compreensão total, podemos ter respostas para os grandes questionamentos que possamos ter, como “Quem sou eu? Qual é o meu propósito de vida? Para onde vou quando morrer?”.

A prática de asana, pura e simples, não nos garante chegarmos neste estado, embora possamos dar pequenos passos nesta direção. Para tanto, devemos aprender a nos observarmos, e o momento em que estamos praticando asanas é ideal para exercermos tal observação. É preciso igualmente que estejamos atentos para não confundirmos os meios com o objetivo supremo do Yoga.

Asana não é apenas movimentar o corpo, alongá-lo, fortalecê-lo e colocá-lo em posturas exóticas. Esta técnica se diferencia de outras formas de exercitar-se por requerer um alto nível de consciência corporal, bem como dos processos mentais e da respiração. A respiração acalma a mente e é a âncora que nos mantém conectados ao momento presente.

A prática não é o momento adequado para remoermos o passado, nem tampouco para termos novas idéias de projetos futuros, apesar de este ser um momento que proporciona muita criatividade. Trata-se de um momento de se estar consigo mesmo, percebendo-se e, quem sabe, ter-se alguns insights sobre como se reage diante das dificuldades e das coisas fáceis da vida. Para isso, é preciso estar atento e observarmos os pensamentos, pois estes produzem reações no corpo físico e emocional.

Sabemos que todo pensamento produz um sentimento, e todo sentimento, uma reação no corpo. Essas reações são geralmente muito sutis, quase imperceptíveis, mas, se conseguirmos percebê-las, com certeza poderemos nos libertar de muitos de nossos condicionamentos, relaxar e, assim, curar conflitos interiores e dores crônicas. É entrando em contato com nossa própria natureza, sentindo um estado de paz interior que chegaremos mais perto do estado de yoga.

Uma das maneiras para estarmos atentos e extrairmos mais benefícios da prática de asanas é praticarmos como se estivéssemos fazendo um “experimento científico”. Neste experimento, você é, ao mesmo tempo, o rato de laboratório e o cientista que conduz a pesquisa.

No papel de rato, você submete às várias posturas, ao movimento e à respiração e reage frente a isso de forma particular, tendo sentimentos, aversões, emoções e sensações que irão lhe dizer muito sobre você mesmo.

No papel de cientista, você observa o que acontece, sem nada julgar. O bom cientista apenas coleta dados, sem modificá-los. Estes dados contribuirão para o resultado da pesquisa. Trata-se aqui de uma coleta de suas reações, diálogos internos e julgamentos em relação às dificuldades, prazer, medo, alegria, preguiça, ansiedade, frustração, exaltação, entre tantos outros sentimentos que surgem ao se colocar o corpo nas peculiares posturas yogues.

Na pesquisa de laboratório, o cientista é o que o Yoga chama de consciência testemunha, saksi em sânscrito, “aqueles que observa sem julgar”. Como um bom cientista, você não deve julgar as reações que surgirem durante a prática, mantendo-se na postura do observador. O observador só observa, faz suas anotações para poder se lembrar e relacionar o material coletado. Relacionando o material coletado, obtém o resultado da pesquisa, ou seja, nossos padrões de comportamento.

Você não precisa fazer sua prática com um papel do lado para anotar, mas esteja atento quando algo importante acontecer. Uma boa idéia é ter um diário de prática, onde possamos registrar nossas experiências mais significativas. Nossa natureza é esquecermos; se anotarmos poderemos perceber como nossos padrões se repetem. É importante observarmo-nos também durante o relaxamento. Procure não viajar para muito longe em pensamento: esteja atento, pois muitas sensações e sentimentos importantes para seu autoconhecimento afloram neste momento, assim como durante a meditação também podem “cair algumas fichas”. Caso você não esteja suficientemente atento, não irá se beneficiar tanto com a prática. Nossos condicionamentos nos condenam a viver o presente como se fosse passado. É por isso que queremos nos livrar deles, para podermos utilizar todo o nosso potencial e viver o presente, experimentando cada situação como única.

Para conseguirmos mudar algo em nós mesmos, o passo mais importante é reconhecermos o que precisa ser mudado, fazermos um diagnóstico, estarmos consciente da pedra em nosso sapato que perturba nosso caminhar, nossa paz ou nossas escolhas. Através da prática consciente de asanas, é possível fazermos este diagnóstico. Para alguns de nós, o maior passo que podemos dar consiste em tomamos consciência de nossos próprios condicionamentos. Se levarmos esta prática para além da sala, talvez possamos mudar algo em nossas vidas.

Voltando à nossa analogia, num experimento científico, o cientista escolhe um procedimento, eliminando o efeito da maior quantidade possível de variáveis para descobrir o que deseja. Este mesmo procedimento é repetido muitas vezes para se confirmar o resultado da pesquisa.

Em nosso experimento yogue, este procedimento da pesquisa deve ter, pelo menos, três parâmetros:

1 – prática constante, feita num único local e sempre no mesmo horário;

2 – uso do mesmo mantra inicial, pranayama e técnica de meditação final;

3 – aplicação da mesma seqüência de asanas, com a mesma permanência nas posturas.

Como este é um ritual de auto-observação, você deve escolher seu procedimento e montar sua prática de acordo com ele. Ao praticar desta forma, é possível observar como os acontecimentos do dia-a-dia se refletem em sua prática e como ela lhe dá um feedback desses acontecimentos.

Você começa a perceber, por exemplo, que, quando você tem uma discussão com alguém, sua mente fica agitada e, durante a prática sua mente produz diálogos internos do tipo “eu vou dizer isso e ele vai dizer aquilo, e eu vou responder isso”. Caso tenha comido pizza na noite anterior, poderá sentir mais dificuldades ao respirar. Se tiver muitos compromissos depois da prática, talvez seja difícil manter-se no momento presente. Estes são apenas alguns exemplos do que podem ocorrer quando fazemos todos os dias a mesma prática. Conseguimos perceber que a prática é sempre a mesma, mas estamos, todos os dias, diferentes.

Durante a prática de asanas, passamos por vários momentos que mexem não somente com nosso corpo, mas com nossa mente e sentimentos. Passamos por posturas fáceis e difíceis. Vivenciamos posturas das quais gostamos, outras perante as quais somos indiferentes e outras pelas quais sentimos aversão. Algumas podem produzir prazer, outras, desconforto. Algumas nos dão força, outras, medo. Todas trabalham partes diferentes do corpo. Observem quais são suas reações quando você gosta ou quando não gosta de uma postura. Perceba sua reação quando é fácil ou difícil, quando é confortável ou desconfortável. Observe se você consegue se manter no papel de testemunha ou deixa-se envolver totalmente por seus sentimentos.

Observe também o que acontece quando você estiver fazendo aulas de Yoga em grupo. Observe suas reações, julgamentos e diálogos internos. Cada pessoa reage de uma forma diferente diante de um professor rígido ou de um professor compassivo. Perceba como você reage. Fica-se entusiasmado, ou se sente derrotado quando o professor lhe faz uma correção. Perceba também se você acha que recebeu mais ou menos atenção do professor. Quando estiver praticando em grupo, observe se você se compara com os demais. Se você se distrai com a presença de alguém que tenha uma prática melhor ou pior do que a sua.

Observe seu diálogo interno; perceba como você reage diante de asanas fáceis, perceba que tipo de pensamento surge. Pode ser algo como “isso é muito fácil, não preciso e não vou fazer” ou “que bom que esse é fácil, adoro esse asana”. Diante de posturas difíceis, observe se você reage dessas formas. “isso é muito difícil, não quero fazer” ou “isso não pode ser bom, pois é muito desconfortável; não vou fazer” ou ainda “é difícil mas eu vou conseguir” ou “muito difícil; para que fazer isso? Será que fazendo isso vou chegar em algum lugar?” Esses são apenas alguns exemplos. Certamente, suas reações irão lhe mostrar algo sobre você mesmo.

Observando-se, você poderá ficar impressionado ao ver que suas reações e julgamentos estão totalmente ligados à sua história de vida e ao verificar que você percebe, ouve e vê o mundo da forma como você é. Você poderá também tirar conclusões sobre sua atitude em grupos; como você reage em grupos de amigos ou no trabalho? Lembre-se que suas reações não são certas nem erradas, elas apenas lhe mostram quem você é e como lida com as situações da vida.

O importante é perceber que o mesmo tipo de reação que você tem durante a prática é o tipo de reação que você tem no dia-a-dia e é, muito provavelmente, o mesmo tipo de reação que você tem tido ao longo de sua vida inteira. São estas reações e condicionamentos que dirigem suas escolhas perante as várias situações da vida.

Ao conseguirmos perceber isso, podemos mudar nossa visão das coisas. Praticar Yoga é ver as coisas como elas são e não como nosso ego ou nossa mente é. Damos um colorido todo especial e individual aos acontecimentos da vida, e esse colorido tem a ver com nossos condicionamentos. Ao entrarmos em contato com eles, temos a possibilidade de retirarmos as lentes coloridas diante de nossos olhos e vermos as coisas como elas realmente são. Se conseguirmos descobrir nossas reações, talvez a prática de asanas possa nos trazer algo a mais do que bem-estar. Ela pode nos dar autoconhecimento, liberação dos condicionamentos e desenvolvimento de nosso potencial.

Por fim, insisto que, através desse nosso experimento yogue, podemos perceber como reagimos em função dos nossos condicionamentos e como estes se cristalizam ou se transformam através do próprio viver e do interagir com o mundo. Já que a forma como reagimos durante a prática de asanas não é diferente da forma como reagimos no dia-a-dia, observe, então, o que acontece com seus pensamentos e suas reações durante a prática. Ao tomar consciência de suas reações, você se torna livre. Livre para fazer escolhas, agir frente à vida, ao invés de reagir e repetir os mesmos erros. Seja você o cientista e o rato, pesquise sua história de vida e subtraia da prática suas próprias conclusões. Não perca tempo se contorcendo apenas, aproveite melhor a oportunidade de se conhecer. Torne-se livre! E boas práticas!

Camila Reitz é professora de Yoga e empresária. Utiliza seu tempo para viver o Yoga. É diretora do Yogashala em Florianópolis, ministra curso de formação para professores e é criadora da marca Devi active Yogawear. Saiba mais sobre seu trabalho: www.yogashala.com.br e www.devi.com.br

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