CARTA AOS PRATICANTES DE YOGA

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Acredito que o motivo que levou você procurar pelas aulas de yoga foi a busca de uma melhor qualidade de vida. Provavelmente naquele momento você tinha queixas. Algumas mostravam sintomas no corpo físico como dores nas costas, enxaquecas, dores pré-menstruais ou problemas digestivos. Em outras, os sintomas se evidenciavam no psiquismo como ansiedade, pânico, angustia ou depressão. Outras queixas, ainda, eram de sintomas que apareciam tanto no físico como no psíquico como na síndrome do estresse, na fadiga ou cansaço crônico. Você veio experimentar para ver se o yoga poderia amenizar estes sofrimentos. Pode ter ocorrido, também, que você não tivesse problemas maiores de saúde; buscou essa prática apenas como um meio para seu desenvolvimento pessoal, como forma de autoconhecimento, ou até mesmo, tentando encontrar um caminho espiritual.

Muitos alunos chegam, ficam algum tempo e se vão. Outros permanecem por longo tempo. Outros ainda, ficam pela vida toda. Se as pessoas ficam por um longo tempo é porque experimentam algum benefício. Além da ajuda para o alívio e talvez até a cura das queixas, há um outro motivo para justificar a permanência do aluno: as aulas de yoga são prazerosas, calmantes, relaxantes; é gostoso participar de uma aula de yoga.

O enfoque maior em uma aula de hatha yoga acaba sendo nos asanas, ou posturas psicofísicas, depois nos pranayamas, ou práticas respiratórias e por fim nos relaxamentos e nas meditações. Essas são as práticas mais evidentes; mas há outras não tão evidentes. Em uma boa aula de yoga praticam-se também os yamas e niyamas. Estes são menos visíveis enquanto forma, mas expressam-se em conteúdo. Os yamas e niyamas são práticas comportamentais e buscam interferir na maneira como nos relacionamos e nos comunicamos com nós mesmos, com as outras pessoas e com todas as outras coisas que nos cercam. São cinco prescrições para yamas e outras cinco para niyamas, totalizando 10 práticas comportamentais. Durante a execução dos asanas, por exemplo, o aluno é orientado a não cometer violência contra si mesmo, evitando machucar-se, respeitando seus limites; esta é uma prática de ahimsa ou a não violência, uma das indicações de yama. Neste caso, o aluno está aprendendo a relacionar-se adequadamente com seu corpo. É possível e aconselhável trabalhar com as 10 práticas comportamentais na execução de asanas. Há também a possibilidade de se trabalhar o relacionamento professor-aluno e aluno-aluno. Os asanas e os pranayamas só poderão ser praticados em determinadas ocasiões como nas salas de aula e em algum momento em casa, mas os yamas e niyamas podem e devem ser praticados em todos os momentos do dia, pois sempre estamos nos relacionando. No mundo da manifestação nada nem ninguém podem existir por si, sendo necessário o relacionamento e a comunicação como fundamento para a existência de todas as coisas. Cada um de nós existe como um continuum que vai se inteirando com toda a manifestação. Por isso o yoga coloca a necessidade da pessoa aperfeiçoar seus relacionamentos e comunicações como sendo a primeira de todas as tarefas para conseguir a evolução espiritual.

Em nossos relacionamentos devemos buscar o aperfeiçoamento das práticas comportamentais de yamas e niyamas. Estas práticas são:

  • ahimsa – evitar infringir sofrimento ao próximo e a nós mesmo,
  • satya – ser verdadeiro; evitar ser falso e mentiroso para consigo e para com outro,
  • asteya – não causar dano ou perda de qualquer espécie, seja material, moral ou psíquica; evitar o roubo,
  • brahmacarya – controlar a impulsividade e a incontinência; buscar a ponderação, o comedimento, o equilíbrio; pensar antes de agir,
  • aparigraha – evitar a possessividade, enxergar o outro como uma alma e não como um objeto,
  • sauca – tornar o relacionamento puro, evitando as contaminações, tomando cuidado com o sarcasmo, as ironias, as maledicências as fofocas,
  • samtosa – buscar criar um ambiente de contentamento, de alegria, de satisfação e de realização,
  • tapas esforçar-se usando a força de vontade e a perseverança para construir um bom relacionamento,
  • svadhyaya – praticar constantemente o auto-estudo a fim de conhecer-se melhor buscando aperfeiçoar-se; ao invés de ficar vendo os defeitos dos outros tentar enxergar os seus próprios e corrigi-los,
  • isvara pranidhana – através da meditação procurar relacionar-se com o Eu Superior, com a fonte de toda criação. É a prática da entrega ao Eu Superior. A pessoa comum vive entregue ao ego. Essa relação faz nascer em nós o verdadeiro sentimento amoroso. Só então conseguiremos amar o próximo incondicionalmente.

Estas são as indicações do yoga para o modo de relacionar-se. Repare que as cinco primeiras são restrições; são de comportamentos que devemos refrear e manter sob controle; são yamas (yama significa controle). As cinco últimas são de comportamentos que devemos estimular e desenvolver; são niyamas (niyama significa não controle ou estímulo). Yamas e niyamas são consideradas práticas essenciais, as primeiras, a base, os alicerces, sem as quais não é possível avançar no caminho do yoga. Mesmo os asanas não serão executados com maestria sem a observação destes preceitos. Viver é relacionar-se, seja com o outro, com os objetos, com o ambiente ou consigo mesmo. Relacionar-se é a prática mais externa da qual ninguém poderá fugir. Nós somos os modos como nos relacionamos. Para o yoga, ir aperfeiçoando nossos modos de relacionamento levará a pessoa a enfrentar seu ego, ou ahankara, e isso é condição sine qua non para que a alma individual, ou jivatmam venha se unir a Atmam, a alma cósmica. Yoga significa literalmente união. E a união fundamental pretendida pelo yoga é a de jivatmam com Atmam.

É preciso exercitar e aperfeiçoar a prática dos yamas e niyamas assim como fazemos com os asanas e pranayamas e meditações. Com o conjunto das práticas do yoga (yama, niyama, asana, pranayama, pratyahara, dharana, dhyana e samadhi) pretende-se atingir o estado de kaivalya, ou de iluminação. Este estado de consciência livra o praticante da escuridão da ignorância transcendental capacitando-o a relacionamentos adequados.

Enquanto não se consegue a iluminação é necessário ter atenção, ficar consciente das deficiências e se empenhar nas práticas. Todo esforço do yogue é para tornar-se cada vez mais uma pessoa melhor, mais desenvolvida espiritualmente. Quando alcançar a iluminação com a técnica de samadhi estará apto para relacionar-se e comunicar-se com o mais puro amor. Praticará os yamas e niyamas sem qualquer esforço, pelo contrário, será sua forma natural de relacionamento. A pessoa iluminada consegue comunicar-se com o coração. Seu sentimento para com o outro é de pleno amor.

A pessoa que alcançou esse sublime objetivo experimenta a pura alegria da inocência e da bem aventurança. Vive em êxtase. Vê-se que o yoga é afirmativo, positivo e que nos preenche de confiança. Devemos nos esforçar para praticar o yoga completo. As conquistas que nos esperam valem a pena.

Desejo a você, muita paz e muita força de vontade para que consiga realizar suas práticas, a cada dia alcançando mais discernimento (viveka), tornando-se uma pessoa mais sábia!

 

Namaste!

 

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