ESFORÇO, CONSCIENTIZAÇÃO E ALEGRIA

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Quando você está praticando uma postura de ioga, consegue sentir o delicado equilíbrio entre levar essa postura até o máximo de sua extensão, e, ao passar desse ponto, você consegue perceber que o excesso de esforço cria a tensão errada no corpo?

 

Quando você se alonga excessivamente para atingir o movimento ideal, alguma vez já percebeu que pode também estar dando muito pouca atenção a outras partes de seu corpo? Isso perturba o corpo e o faz tremer. Se a raiz da árvore é fraca, ela mesma não pode ser forte. Suponha que você esteja fazendo a postura invertida de equilíbrio sobre a cabeça. O que acontece se você estende as pernas para obter uma bela postura e deixa os músculos do pescoço muito soltos? Ou se seus cotovelos não se fincam no chão, e vem o receio de você cair ou ficar oscilando de um lado para outro? Uma vez que aos músculos fortes tentam controlar a postura, os fracos cedem. Quando estiver fazendo uma postura, você tem de manter uma única extensão, do chão ao teto, sem permitir que qualquer parte se solte. Quando estiver alongando as pernas, tem de enviar um sinal de alarme para os braços. “Estou estendendo as pernas, portanto, não fiquem desatentos!”. Isso é conscientização. Como perdemos o fio da conscientização e a nossa atenção é parcial, não sabemos se estamos ou não mantendo a postura como um todo.

Você pode perder os benefícios do que está fazendo porque focaliza em excesso uma atenção parcial na tentativa de tornar a postura perfeita. O que você está focalizando? Está tentando aperfeiçoar a postura, mas de onde para onde? É aqui que as coisas se tornam difíceis. Focalizar-se num único ponto é concentração. Focalizar-se em todos os pontos, ao mesmo tempo, é meditação. A meditação é centrífuga e também centrípeta. Na concentração, você quer focalizar um determinado ponto, e os demais perdem seu poder de atração. Mas se você espalhar a concentração, da parte estendida para todas as outras partes do corpo, sem perder a concentração na parte estendida, então não perderá a ação interna nem a manifestação externa da postura, e isso lhe ensinará o que é a meditação. A concentração tem um foco, a meditação, não. Esse é o segredo.

Na concentração, é provável que você esqueça algumas partes do corpo ao focalizar sua atenção em outras. É por isso que a dor aparece em certos lugares do corpo. É porque os músculos ignorados perdem sua força e caem. Mas você não saberá que os está deixando cair, porque eles são precisamente os músculos dos quais, por alguns momentos, você não está ciente. Na ioga, existe uma coisa que todos vocês devem saber. A parte mais fraca é a origem da ação.

Em qualquer postura da ioga, exigem-se duas coisas. Senso de direção e centro de gravidade. Muitos não pensam em senso de direção e, no entanto, em cada postura, tanto ele como o centro de gravidade, os músculos têm de estar todos alinhados uns com os outros.

Se alguns músculos estiverem excessivamente estendidos, o centro de gravidade também mudará. Talvez por causa da insensibilidade você não sinta que está agindo assim. Por insensibilidade quero dizer aquela parte do corpo que está insensível, que não tem consciência, e é nessa parte que aparece dor. Você pode ter a impressão de que está realizando a postura, mas a dor virá mais tarde. Por que você não sentiu dor na hora?

Vejamos, por exemplo, a dor nas costas, no alto do ilíaco, depois de uma flexão à frente, como no paschimottãnãsana. Se você passou por esse problema, observe na próxima vez que executar a mesma postura se a perna está encostada no chão e um lado da nádega ligeiramente erguido, se o músculo sacro-ilíaco se estende na face externa, enquanto o outro lado, a face interna do músculo, também se alonga. Isso é devido ao fato de um dos músculos ser sensível e o outro, insensível. Cada qual se movimenta de acordo com sua própria memória e inteligência armazenadas.

Você está consciente de todas essas coisas? Talvez não, porque não medita nas posturas. Você as executa, mas não reflete enquanto as está praticando, focalizando sua atenção na tentativa de fazer bem a postura. Você quer fazer o ideal, mas o está fazendo só de um lado. Isso é conhecido como concentração, não meditação. Você precisa descolar a luz da conscientização desse lado para que ela possa atingir o outro também – é isso que a prática pede. Se você tem tido qualquer outro tipo de problema, precisa observar o que está acontecendo com a postura. Há alinhamento ou desalinhamento? Talvez seu fígado esteja alongando, mas seu estômago está se contraindo, ou talvez o contrário. Seu instrutor também pode observar isso e tocar na parte relevante para ajudá-lo a alongar o estômago ou o fígado, de modo que se movimentem harmonicamente, e você encontre o ajustamento e o posicionamento adequados para esses órgãos físicos.

(…) Se você, como principiante, observar o esforço envolvido na realização da postura e continuar observando-o à medida que progride, verá que esse esforço diminui a cada dia, embora o nível da realização do asana esteja melhorando. O grau de esforço físico diminui, mas a realização aumenta.

Conforme vai trabalhando, você pode sentir desconforto por causa da imprecisão de sua postura. Para que isso não ocorra, você precisa aprendê-la e assimilá-la. Tem de fazer um esforço de entendimento e de observação. “Por que estou sentindo dor neste momento? Por que não sinto dor em outro momento, ou em outro movimento? O que devo fazer com esta parte do meu corpo? E com a outra parte? Como me livrar da dor? Por que estou sentindo esta pressão? Por que este lado está dolorido? Como os músculos deste lado estão se comportando? E do outro?

Você deve continuar analisando e, por meio dessa análise, tentar chegar ao entendimento. O ioga requer análise durante a ação. Considere novamente o exemplo da dor depois de realizar o paschimottãnãsana. Após concluir a postura, você sente dor, mas os músculos já estavam enviando mensagens anteriormente, enquanto você realizava a postura. Como você não as percebeu, então? É preciso registrar que mensagens vêm das fibras, dos músculos, dos nervos e da pele do corpo, enquanto se está fazendo a postura Você pode aprender. Não é suficiente vivenciar hoje e analisar amanhã. Desse jeito, não há a menor chance.

Análise e experiência têm de andar juntas e, na prática de amanhã, você deverá novamente pensar. “Estou fazendo a postura antiga, ou há uma nova sensação? Posso ampliar um pouco mais essa nova sensação? Se não posso alongar mais, o que falta?”

Análise durante a ação é o único guia. Você avança por tentativa e erro. Quanto mais você tenta, menos erra. Então as dúvidas diminuem e, quando isso acontece, o esforço também se torna menor. Enquanto houver dúvidas, o esforço se mantém maior porque você continua oscilando, dizendo a si mesmo. “Vou tentar isso. Vou tentar aquilo. Vou fazer assim. Vou fazer de outro modo.” Mas quando você encontra o método certo, o esforço torna-se menor, porque a energia que se dissipa pelas várias áreas é controlada, não há mais perdas.

É verdade que com a análise você dissipa energia no começo. Mais tarde, não. É por isso que o esforço se torna menor. A direção toma outro rumo e, quando você segue na direção certa, tem início a sabedoria. Quando sobrevier a ação ditada pela sabedoria, você não vai mais sentir que o esforço é um sacrifício – você perceberá o esforço como alegria.

As experiências e expressões encontram o ponto de equilíbrio e harmonia na perfeição.

 

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