GANDHI E A PRÁTICA DO YOGA

Artigos

 

PALESTRA PROFERIDA PELO DR. M. L. GHAROTTE

DIRETOR DO INSTITUTO KAIVALYADHAMA – LONAVLA – ÍNDIA

I FORUM DE SAÚDE SOCIAL – A Contribuição do Yoga e do Pensamento de Gandhi

Outubro de 2003 – FAU – USP – São Paulo – SP

 

 

Saudações a todos os que estão interessados na própria saúde e na saúde da sociedade.

Vou falar sobre os fundamentos da saúde enumerados por Mahatma Gandhi. Gandhi escreveu alguns artigos sobre saúde em 1906 que foram publicados em forma de um livreto em 1948 e traduzido em diversos idiomas europeus e indianos.

            Sua abordagem em relação à saúde era um pouco diferente da abordagem da comunidade médica da Índia. Sua compreensão de saúde tinha base numa filosofia que diz que o corpo é formado por cinco elementos: terra, água, fogo, ar e éter ou espaço. Todas as atividades humanas são governadas pela mente e por dez sentidos: as mãos, os pés, os genitais e os cinco órgãos dos sentidos. A mente é o décimo primeiro órgão dos sentidos. Em estado de saúde todos os órgãos atuam em harmonia, isso é felicidade. Mesmo que apenas uma dessas partes essenciais fique fora de sintonia, vai atrapalhar o todo do corpo. Assim, percebemos como os problemas com a digestão ou a constipação intestinal dão origem a muitas doenças.

            A utilização que fazemos do corpo humano é igualmente importante. Usar ou abusar? Abusamos do corpo quando o usamos com propósitos egoístas ou quando desejamos o mal ao próximo. O uso correto do corpo é quando nos colocamos em auto disciplina, ou o colocamos a favor do próximo.

            Quando nossas atividades são para realizar essa conexão, a nosso favor ou a favor do outro, o corpo se torna um templo para o espírito que o habita. Esta é a mensagem que Gandhi nos ensina.

            Porém, muitas vezes nosso corpo está muito poluído e se quisermos praticar e evoluir nas nossas práticas, precisamos nos purificar. Para isso temos o Yoga oferecendo-nos excelentes técnicas e métodos.

            O dever do homem é servir a Deus e a sua criação.

            O homem deveria agir como um guardião de seu corpo. Para cumprir essa função da melhor forma possível, ele deve cuidar do primeiro elemento que compõe seu corpo, que é a terra, através da ingestão de alimentos físicos. Mahatma Gandhi era um defensor da dieta vegetariana, que deveria incluir leite e ovos. Estudou algumas teorias que sustentam que o homem tem estrutura física de vegetariano, a exemplo de seus dentes e intestinos.

            O segundo elemento importante do corpo é o ar. Temos necessidade de uma ventilação adequada, de nos colocarmos em posturas adequadas – asanas – para favorecer a respiração adequada. Para que a respiração adequada seja possível é bom que se faça a limpeza das vias respiratórias com água – jala neti.

            Assim como a terra e o ar, a água é outro elemento muito importante. Dentro de vinte e quatro horas devemos beber dois litros e meio de água ou outro líquido. A água deve ser pura, ter uma boa procedência.

            Para Gandhi o paladar é aprendido e há tudo no mundo para satisfazer as necessidades das pessoas. Mas não há no mundo o suficiente para suprir a ganância das pessoas. Assim, ele dava importância à prática da contenção – brahmacharya – um estilo de vida que conduz à realização da vida espiritual. Esse tipo de vida simples é impossível sem a prática das auto restrições. Comumente brahmacharya é entendido como o controle das funções sexuais. Mas deixar de praticar sexo não significa praticar Brahmacharya.

            Precisamos controlar os pensamentos que geram os desejos. Brahamacharya é fazer uso consciente dos pensamentos e desejos mais primitivos. Na opinião de Gandhi a prática do japa – a repetição de um mantra – ajuda a controlar os pensamentos e os desejos. Assim também a caminhada acelerada, os asanas, pranayamas e a meditação.

            Gandhi sentiu-se atraído pelo Yogaterapia de Swami Kuvalayanandha quando em 1927 adoeceu , passou a consultar-se com ele e a recomendar para os amigos. Na época em que esteve adoentado pediu ao Swami que o visitasse para orientá-lo com as técnicas do Yoga. Kuvalayanandha tinha grande experiência e conhecimento do Yoga e sabia especificamente o que indicar em cada doença. Foi assim que Gandhi quis aprender com ele sobre Yogaterapia.

            A partir das cartas trocadas por ambos, temos hoje uma idéia clara do tanto que Gandhi se interessou pelo Yoga.

            Ele defendia as auto restrições e não as auto indulgências. As suas idéias de não violência – Ahimsa – e verdade – Satya – foram originadas no corpo ético do Yoga.

            O Yoga insiste em que tenhamos o hábito de controlar o corpo, as emoções e a mente. A insistência de Gandhi em realizar o japa, repetir o nome divino através do mantra, é conhecido no Yoga por Isvarapranidhana – outro conceito ético Yogue. Gandhi também dizia que devemos ter necessidades mínimas, cultivar a atitude do desapego, não possuir mais do que o necessário ou em excesso, pois isso é uma aberração mental. Esta é outra lei ética do Yoga.

            Gandhi também conseguiu trazer o Yoga para a política, e foi muito amado pelo povo da Índia. Há um ditado indiano que diz: “Aquele que é amado pelas pessoas também é amado por Deus”. Quando perdemos Gandhi foi como se ficássemos com um vazio. Sua presença seria valiosa hoje, uma vez que há tanta violência no mundo. Podemos nos lembrar e nos inspirar na grandiosa e sábia alma de Gandhi.