HARA – O ABDÔMEN – CENTRO DE VIDA PULSANTE

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O Hara, termo usado nas tradições orientais japonesas, corresponde ao Tan Tiem dos chineses (Chuen, 2000), ao segundo chakra ou Swaddhisthana dos hindus, ou ainda, simplesmente, ao interior do abdômen, onde todos nós fomos gerados e nos desenvolvemos no princípio da vida. É considerado o centro original da vida, o centro de apoio gravitacional ou de assentamento energético do ser humano quando este está em pé. É seu centro de força, pois concentra energia de vida, tanto que, nas artes marciais o praticante aprende a extrair do Hara, sustentação e força para não se deixar derrubar pelo seu adversário. É no Hara que as forças do céu e da terra se encontram, assim, é no contato com esse centro vital situado uns 3 ou 4 dedos abaixo do umbigo, que o indivíduo se conecta com o universo e com ele permanece integrado (Boadella, 1992).

Diferente da forma como habitualmente entendemos, que o ser humano decide sua vida com a cabeça, ou no máximo, com o coração, a tradição oriental propõe um retorno ao centro de nossa essência, no Hara. Considera o Hara um dom, uma possibilidade e ao mesmo tempo uma tarefa, um espaço, no sentido de uma consciência que devemos conquistar.

A sugestão é que conquistemos esse espaço dentro de nós, bem no centro do nosso corpo, ligado a terra e ao céu, um centro que é de natureza material, mas que corresponde subjetivamente, ao nosso eixo existencial. É esse centro que nos abastece com energia vital, que cria condições para que corporifiquemos nosso Eu Superior, nosso Self, enraizando nossa individualidade e nossa espiritualidade no Hara.

Mas, como trabalhamos com o Hara?

Primeiro e, sobretudo relaxando o abdômen. Como a respiração de um bebê. Descontraindo profundamente a musculatura do abdômen, para permitir que a respiração chegue, mobilize naturalmente essa região e consiga despertar o Hara.

Depois, uma boa posição, é ficar em pé, abaixando o olhar para o chão, flexionando os joelhos, afundando os pés na terra, levando as mãos sobrepostas para o abdômen, entrando em contato pouco a pouco com a sensação de preenchimento e calor, com a carga de energia que se acumula no abdômen. A energia vital que aprendemos a conter no Hara será espontaneamente distribuída para todo o corpo, aumentando nossa vitalidade, graciosidade, tornando-nos mais vibrantes. Esse é o começo de uma árdua, mas gratificante, conquista: a do nosso verdadeiro centro existencial.

Alguns mestres dizem que o Hara é como a casa da gente. Como naqueles dias que temos que sair para fazer mil coisas fora de casa, conversar com muita gente, lidar com situações difíceis, correr de um lado para o outro. Chega um momento desse agitado dia, em que aquilo que mais necessitamos é voltar para casa, para nosso canto de recuperação, descansar, recarregar nossas energias, nos centrar. Fazemos isso no lugar que nos é mais conhecido e íntimo, em que ficamos mais à vontade e relaxados.

Metaforicamente, o Hara é a nossa casa dentro do nosso corpo, o local em que nos recolhemos para descansar e nos integrar, quantas vezes for preciso. Quando ficamos muito tempo sem voltar para casa, perdemos força, perdemos contato com nossas raízes, vamos nos fragmentando e nos enfraquecendo, nos descarregamos energeticamente. Abrimos espaço para que muitas doenças físicas e mentais se instalem.

Tal qual uma casa arejada, com as janelas abertas deixando o ar novo entrar, o abdômen também precisa ser arejado pela respiração suave e profunda. Como tudo aquilo que vive tem pulsação, desde uma ameba até um planeta, a expansão e o recolhimento, o abdômen também precisa deste movimento vital.

E o que acontece quando mantemos o hábito de “contrair a barriga”?

Perdemos nossa conexão com esse centro original, com nossa essência ou Self, não construímos carga de energia no nosso corpo, temos dificuldade de vivenciarmos o prazer, que é uma descarga dessa energia, não “engravidamos” de nós mesmos, não nos apropriamos da nossa vida. Além disso, sobrecarregamos nossa cabeça, temos sintomas como enxaqueca, cefaléia, labirintite, para não falar na contribuição deste estado sem centro, nas depressões e síndrome de pânico, pois ficamos desenraizados. Sem raízes, tencionamos os ombros, a nuca, trancamos os dentes, ficamos inseguros com nossa sexualidade e travamos a pélvis, enrijecemos o peito e o coração, muitas vezes ficamos prepotentes, secos e duros nos afetos, perdemos nossa sensibilidade e nossa expressividade autêntica.

Citando Karfiied Graf Dürckheim (1991), um catedrático de Psicologia e Filosofia da Universidade de Kiel, Alemanha, que trabalha o Hara na sua Terapia Existencial:

“O Hara liberta o homem da imagem de uma “persona”, isto é, de todas as posturas internamente não-verdadeiras pertinentes ao papel que alguém exerce no mundo ou que gostaria de representar. O Hara possibilita a Gestalt que expressa a essência de um homem com singeleza, além de concretizá-la progressivamente. Assim, o homem está livre da obrigação de querer parecer ser mais do que é. A timidez, o constrangimento e a falsa submissão desaparecem. O homem que se torna consciente de suas raízes no Hara. Posiciona-se com muita naturalidade e livre, como ele simplesmente é, nem mais nem menos, conquistando por isso sua beleza interna específica. (…)”

Depois de tantos argumentos, será que alguém ainda vai ter coragem de andar com o “peito pra fora e barriga pra dentro”?

Referência Bibliográfica:

Boadella, D. Correntes da Vida – uma introdução à biossíntese , São Paulo: Summus, 1992.

Chuen, L.K. O Caminho da Cura – o chi kung para a energia e a saúde, São Paulo: Editora Manole Ltda., 2000.

Durckheim,G.K. Hara – o centro vital do homem, São Paulo: Editora Pensamento, 1991.

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