HATHA YOGA I

Artigos

A Índia, diferente do ocidente, sempre buscou descobrir e liberar as potencialidades energéticas, racionais, morais e espirituais adormecidas no homem e trazê-las ao foco da consciência com o objetivo principal da unificação, ligando todos os seres humanos em pensamentos, ações e aspirações.

Numa cultura em que práticas espirituais ou sadhanas sempre precedem a filosofia, fica difícil saber ao certo quando esta começou. Supõe-se que foi em 6000 ou 6500 a.C. Sabe-se que, em sua origem, os ensinamentos eram transmitidos por meio de revelações e de vivências pelos primeiros rishis (sábios) da pré–história. O funcionamento ou tecnologia e a filosofia surgiram com a necessidade da transmissão deste conhecimento. É importante compreender que primeiro surge o Yoga e depois sua filosofia.

De lá para cá, inúmeras técnicas foram criadas, provadas e experimentadas por várias gerações de rishis, entretanto, a essência do Yoga continua sempre a mesma: imutável e atemporal.

Existe uma linha que se remonta a partir de qualquer praticante conectado com a tradição, acendendo de discípulo à mestre e recuando no tempo diretamente ao primeiro Yogui, esclarece Pedro Kupfer, professor de Yoga de Florianópolis.

Os primeiros relatos escritos são encontrados nos textos Védicos e Tântricos, duas tradições indianas, uma mais erudita e outra mais popular, das quais derivam inúmeras escolas de pensamento. Vedas e Agma Santra são considerados duas formas de conhecimento, a partir dos srutis (revelações) e foram criados aproximadamente no mesmo período.

Dos Vedas originou-se os seis darsanas (pontos de vista) que compõem o Sanatana Dharma ou Hinduísmo, do qual o Yoga é um darsana. E Sadhana Sastra é a arte da auto-realização, uma filosofia de vida, com base no Tantra.

Nos fundamentos do Yoga encontra-se a mistura de algumas destas diferentes correntes de pensamento, Tantra, Samkya, Vedanta e outras.

O Hatha Yoga deriva da corrente dualística do Tantra – integração de forças opostas (sakti/shiva) para o despertar da potencialidade humana. Considera o corpo como um veículo para a transcendência.

Segundo o professor Agorananda, o Tantra trabalha um conceito alquímico de revitalização do corpo, ”um corpo diamante”. Neste conceito, o corpo (skarira ou kaya), do qual também faz parte a mente (manas), é um instrumento perfeito para que o ser individual possa vivenciar a sua totalidade do mundo manifesto, pois o “corpomente” é um micro reflexo do macrocosmos.

Nos sec. VI e VII a.C. uma nova corrente filosófica ganhou força na Índia, o Budismo, em que o culto do corpo é minimizado e se enfatiza as práticas meditativas e a moralidade no caminho espiritual.

O Yogui Matsyendranath (rei dos peixes), nos séculos V e IIV d. C., é o responsável pelo ressurgimento da arte da purificação do corpo antes da meditação. Seu principal discípulo, Gorakhnath, escreveu o primeiro tratado de Hatha Yoga,hoje desaparecido, dando origem ao culto Natha Yoga (Natha significa maestro), e diz respeito a uma técnica “Yoguitantrica” composta de seis partes (ou angas).

O texto clássico Hatha Yoga Pradipika, um dos principais do Hatha Yoga, escrito por Svatmarama é um manual detalhado destas práticas, em que ele integra as disciplinas fisiológicas do Hatha Yoga com as práticas contemplativas do Raja Yoga.

Outras importantes escrituras sobre esta linha são: Gherandha Samhita, Yoga Yajnavalkya e Shiva Samhita.

Blay (data) , um espanhol estudioso do Yoga, define o Hatha Yoga como uma técnica de integração ou unificação natural do homem mediante:

A progressiva purificação do corpo;

O desenvolvimento de suas potencialidades;

A perfeição do seu funcionamento; e

A crescente integração da mente com ele.

Kupfer (data),define o Hatha Yoga como “Yoga da Força”, que tem como objetivo o despertar da energia potencial através do aperfeiçoamento e da purificação do corpo físico e da manipulação da força vital e das técnicas contemplativas.

Krcish, professor de Yoga de Santa Catarina, usa a definição de união (Yoga) das polaridades (ha e tha) “um processo de iluminação interna, que ocorre quando fisicamente a respiração é dominada, fazendo com que as respectivas correntes energéticas que expandem nossa mente ao externo e denso fiquem inoperante, dando abertura à luz que vem do interior da alma”.

Para Swami Satyananda, Hatha Yoga é um canalizador para o despertar de Ha – força pránica e corpo físico com Tha – chitta ou força mental, a mente.

Estas são formas distintas para descrever um mesmo processo em busca da integração.

Técnicas

O Hatha Yoga é composto de varias técnicas, dependendo da escritura pesquisada. No Hatha Yoga Pradipika, texto escrito por Swami Svatmarana, encontramos:

Asanas – “Estabelecer-se no estado origianl”.

O termo Asana pode ser definido, segundo Patanjali, baseando-se em sthira e sukha, estabilidade e conforto. Possui características psicofísicas, pois é praticado com o corpo e produz efeitos sobre a mente.Origina-se da raiz sânscrita “as”, que significa sentar-se indicando assim sua natureza estática.

Pranayamas –“Quietude do elemento vital” (Siddha Siddhanta Paddhati). Prana e ayama referem-se ao controle do prana.

Pranayama tem como elemento principal a pausa da respiração, Kumbhaka, que pode ser voluntaria (sahita) ou involuntária (kevala), e devem ser praticadas para chegar ao nível de kevala kumbhaka (pausa respiratória involuntária)Svatmarana diz que cada uma das fases deve ser realizadas adequadamente. A inspiração de ver ser lenta, suave completa, e a expiração tem de ser mais lenta, continua e completa e sempre através do nariz. Deve- se manter o ritmo 1-4-2 para inspiração, pausa e expiração.

Satkarmas – Conhecido também por Kriyas, tem no seu sentido mais profundo restaura e pureza natural para realizar o princípio divino no homem. São técnicas de purificação interna que recondicionam e fortalecem o organismo.Nas escrituras encontramos seis classe de processos de purificação(dhauti, basti, tataka, nauli e kapalabhati).No Hatha Yoga Pradipika, Svatmarana define a importância das práticas de satkriyas para execução de pranayamas, principalmente nos indivíduos que apresentem distúrbios nos doshas (biótipos).

Mudras – Os diferentes mudras estimulam e ativam os três pontos que se encontram na base da coluna vertebral, na região média ou cardíaca e na cabeça. Pode ter o significado de postura do corpo ou posição determinada de mãos e dedos, aquilo que dá sensação de felicidade ou ainda mulher associada com as práticas tântricas.

Tem o propósito, segundo Gheranda Samhita, conseguir sthirata ou equilíbrio, e no Hatha Pradipika e o despertar da kundalini.

Bandhas – São um subgrupo de mudras, fecham as correntes prânicas numa região ou as canalizam. São praticados como parte essencial do pranayma, aplicando-se na retenção interna ou abhayantara kumbhaka, ainda que alguns possam ser realizados independentemente.

No plano fisiológico, procura-se controlar conscientemente certos músculos semivoluntários, como os esfíncteres anais, o diafragma torácico, a garganta e os globos oculares.Nestes músculos há integração do sistema nervoso central como autônomo.

Dharanas – Deriva da raiz “dhr”, que significa manter comprimido, fechado. Tem como objetivo manter uma relação consciente com objeto de concentração. Gorakshanath descreve a concentração ou dharana, sobre os elementos constitutivos do universo e semelhante aos Yogasutras de Patanjali descreve os siddhis, poderes concedidos ao praticante.

Dhyana – meditação pode ajudar o indivíduo e superar muitos problemas e o mais importante, refletir-se beneficamente na sociedade.

No Gherandha Samhita encontramos três tipos de dhyana:

Sthula dhyana (grosseira) – por meio de concentração de imagens concretas.

Jyoti dhyana– metitação na àrea da kundalini em muladhara e na áreas entre as sombrancelhas, ajna chakra.

Suksma Dhyana – por meio de shambhavi mudra , concentração em Brama ou deusa Kundalini.

Samadhi – União e Jivtman comParamatman, indivíduo e universo, É também considerado sinônimo para Raja Yoga.o Gherandha Samhita destaca a importância de um guru e a devoção a ele para obter samidhi.

Em Geranda Samhita, encontramos também além dos citados anteriormente, Pratyhara – Abstração dos sentidos. Os sentidos adquirem maios eficácia quando a mente se liberados desejos relacionados às demandas corporais.

Mestres

No âmbito do Hatha Yoga assistimos a um importante intercambio entre praticantes ocidentais que buscaram o conhecimento com mestres indianos, tais como, Swami Sivananda (Yoga da síntese com foco no servir e na devoção), Swami Krishnamacharya;(Yoga curativo, baseado aos biótipos ou doshas) T. K. V. Desikachar (uma visão do Yoga com foco no individual), B. K.S. Iyengar (Asthanga Yoga – o olhar nos alinhamentos dos asanas) e outros. Por outro lado, alguns mestres do oriente visitaram o ocidente ensinando suas práticas, como Patabi Jois, com o Vinyasa Yoga, uma prática de encadeamento de posturas associada às respirações.

É fundamental observar a dinâmica de atualização do Yoga desde os primórdios desta tradição até hoje, desenvolvendo novas tecnologias a partir da necessidade de cada época, pois reconhece que a consciência humana está em constante evolução.

1Desikachar, Iyengar,Patabi Jois, Krishinamacharya,Sivananda

Mitologia

“Aconteceu naquela época que o Senhor Shiva estava transmitindo à sua esposa umas certas doutrinas secretas que até então não revelara a ninguém. Ela criará, no fundo do oceano, um recinto especial para que ninguém mais pudesse ouvir, por acaso, as palavras do Deus. Muitos peixes, porém, foram atraídos para a luminosa estrutura submarina, e entre eles o levita que engolira Mina. Sucedeu então que o pescador pôde ouvir, incógnito, as instruções secretas de Shiva. A certa altura, a Deusa caiu no sono. Quando Shiva perguntou: “Estás ouvindo:?Um sonoro “sim!”fez-se ouvir de dentro da barriga do peixe. Usando o terceiro olho, Shiva penetrou com o olhar o estomago do monstro marinho e lá encontrou Mina. Alegrou-se imenso com a descoberta, dizendo: “Agora vejo quem é o meu verdadeiro discípulo;” Voltando-se para a esposa sonolenta, declarou: “Vou passar a iniciação a ele, e não a ti”.

Mina, agradecido recebeu a iniciação e passou os doze anos seguintes sem sair da barriga do peixe .Dedicando-se exclusivamente às práticas esotéricas que lhe tinham sido transmitidas pelo próprio grande Deus. Ao cabo desse período, outro pescador pegou o peixe e abriu-lhe a barriga, de onde saiu Mina já como um mestre plenamente realizado.

O maior discípulo de Mina ou Matsyendra foi Goraksha. Segundo a lenda, certa vez um camponesa implorou a Shiva que lhe desse um filho. Emocionado com as preces fervorosas da mulher, o grande Deus deu-lhe para comer uma cinza mágica, que lhe garantiria gravidez. Ela, porém, em sua ignorância, lançou fora essa dádiva sem preço, atirando-a num monte de esterco. Doze anos depois, Matsyendra ouviu por acaso uma conversa entre Shiva  e sua divina esposa Parvatì. Desejoso de que a camponesa tivesse por fim o filho, Matsyendra foi visitá-la. Encabulada ela confessou o que fizera com a dádiva misericordiosa de Shiva. O siddha, sem se perturbar, ordenou que ela revirasse de novo o monte de esterco e eis que, ao fazê-lo, ela encontrou lá dentro um menino de doze anos, a quem deu o nome de Goraksha (“Protetor das Vacas”).

Matsyendra tomou Goraksha como discípulo e, pouco tempo depois, a fama deste já era maior que a do Mestre.

Goraksha, que viveu entre a metade do séc. X d.C e a primeira do séc. XI d. C, é lembrado como o maior de todos os taumaturgos.

Bibliografia:

Souto, Alicia.A essência do Hatha Yoga: Hatha Yoga Pradipika, Gherenda Samhita, Goraska Shataka. São Paulo, Phorte,2009.

Souto, Alicia. El Yoga de La Purificación: Traducción y comentario del Gheranda Samhita.Fecha de ed. Buenos Aires,Instituto de Yoga de Lonavla,2002.

Kupfer, Pedro. Hatha Yoga Pradipika: Luz sobre o Hatha Yoga.1 ed.Florianopolis,Dharma,2002.

Blay, Antonio. Fundamentos e Técnicas do Hatha Yoga. 9 ed. São Paulo,Loyola, 1966

Niranjanananda, Swami.Yoga e Tantra. Revista Satyananda Yoga Vidya, numero 3,fevereiro, 2007, p.60-62.

Saraswati, Aghoranandha.O Yoga , o Tantra e o corpo. Revista Satyananda Yoga Vidya, numero 3,fevereiro, 2007, p.53- 59.

Kraisch, Rafael José . Apenas um anga? . Caderno de Yoga.15 ed.Florianopolis.inverno.2007, p.9-16

Freire, Maria Helena de Bastos. Yoga com Filosofia e Cultura. Informativo IYTA – jun/set 2003, p.4-8

Kupfer, Pedro. A História do Yoga. Disponível em< HTTP//:WWW.YOGA.PRO.BR>

Acessado em: dez, 2009.

 

 

[wpdm_file id=94]