HATHAYOGAPRADIPIPIKA

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Luz sobre o Yoga e sua filosofia –  Instaurando a mente (manas) no centro da śakti e a śakti no centro da mente, ao ter a mente observada pela mente, há de concentrar-se sobre o estado supremo: Vazio por dentro (śūnya) e vazio por fora – como um jarro no céu e cheio (pūrna) por dentro e cheio por fora – como um jarro no oceano. HYP 4.54-55

O Haṭhayogapradīpikā é uma obra que foi composta em língua sânscrita ao redor do século XV d.C. e contém ensinamentos que fazem parte de uma tradição que foi mantida por adeptos do Yoga denominados como nātha-siddha, nātha-yogin, ou simplesmente nātha ou siddha. Seu autor é chamado Svātmārāma, e, devido a fazer parte dessa tradição, ele apresenta a composição do livro como um conhecimento que lhe foi transmitido, e não como sua criação. Por essa razão, Svātmārāma faz mínima referência a si mesmo, como é muito comum em textos da literatura sânscrita, pelo fato de o conhecimento ser considerado como um bem pertencente a uma sucessão discipular e não simplesmente como produção ou sistematização individual. Portanto, na tradição indiana, a ausência de uma biografia que personalize o autor de um tratado de Yoga faz com que a filosofia e as técnicas nele contidos sejam vistos como uma fonte que liga o discípulo, através da linhagem de mestres, às origens primordiais do conhecimento. No Haṭhayogapradīpikā, Svātmārāma atribui a origem de seus ensinamentos ao Ādinātha, nome que significa “nātha primordial”, ou “Senhor primordial”. A palavra nātha quer dizer, ao pé da letra, “senhor”, “dono”, “protetor”, e é empregada para nomear muitos deuses do hinduísmo. Nesse caso específico, trata-se do deus Śiva, que é considerado o primeiro yogin, e, por conseqüência, o primeiro mestre de Yoga. O deus Śiva é, dessa forma, o mestre que está no topo de toda a sucessão discipular que passa por Svātmārāma, no século XV d.C., e vem até os dias de hoje. No que se refere ao Haṭha Yoga, apenas uma obra anterior ao Haṭhayogapradīpikā chegou aos dias de hoje, ela é chamada de Gorakṣaśataka, e é atribuída a um yogin de nome Gorakṣa. A tradução do título seria a seguinte: “As centúrias de Gorakṣa” ou “os cem versos de Gorakṣa”. Muito do que está exposto no texto de Gorakṣa pode ser encontrado no de Svātmārāma. O primeiro foi composto ao redor do século X d.C. e, como o nome diz, contém cerca de 100 versos. O Hathāyogapradīpikā, cerca de cinco séculos mais jovem, contém cerca de 400 versos. Certamente esses textos não eram os únicos a versar sobre o Haṭha Yoga. São dois exemplares que foram mantidos tanto em tradição oral como através de manuscritos. É possível que ainda haja chance de encontrar manuscritos de outros textos, bem como é muito provável o fato de que, neste momento, estejam sendo passados adiante, na viva tradição dos nātha, obras de mesmo teor e antigüidade que o Gorakṣaśataka e o Haṭhayogapradīpikā. Essas obras são, portanto, um conhecimento vivo, uma filosofia de vida e um “bem precioso”, segundo palavras do próprio Svātmārāma. Quem quer que esse yogin tenha sido, o importante não é saber quem ele foi, mas a tradição que ele representa e o quanto ele próprio reverencia o privilégio de ter podido se aproximar dos saberes que essa tradição carrega. O Haṭha Yoga pode transformar o homem em um siddha, e isso lhe confere muito respeito e admiração, mas não necessariamente a veneração que o Ocidente ensinou que os devotos devem dar a um santo, por exemplo. As relações são estabelecidas de outra forma, não é o mestre que transforma, mas é somente com a presença dele que a tranformação acontece; as palavras do mestre não são irretocáveis, mas podem ajudar o discípulo a perceber suas próprias verdades irretocáveis; e, acima de tudo, o discípulo deve ter consciência de que sua responsabilidade é a de tornar-se um dia tão admirável e tão insubstituível quanto seu mestre, dando, para essa grande meta, todo o empenho possível. Essa é a base que sustenta a tradição, que pode ser resumida da seguinte forma: não há conhecimento sem o mestre, a experiência pessoal vale acima de tudo, e essa relação, quando tem êxito, produz uma transformação. Essa ordem de coisas, além de dar grande valor ao yogin realizado – isto é, os “santos” indianos –, confere ao ser humano comum a percepção de que seu potencial é muito maior do que ele pode imaginar. Segundo a perspectiva do Yoga, as pessoas são educadas e condicionadas para acreditar que são algo muito limitado, incomparavelmente pequeno, em relação a tudo aquilo que sua verdadeira natureza pode manifestar. É nesse sentido que pode ocorrer a transformação: os níveis psíquicos e supra-psíquicos, quando são descondicionados, deixam de se identificar com um projeto de ser humano apequenado e raso, para fazer a identificação com a grandiosidade de seu ser. Ou seja: se bem sucedido, o Yoga faz a pessoa deixar de acreditar que seus limites são menores do que na realidade são. Segundo esse modo de pensar, o Yoga é definido, em sânscrito, da seguinte forma:

samyogo yoga ity ukto jīvātmaparamātmanoḥ |

“Afirma-se que Yoga é conjunção: entre o jīvātman e o paramātman.”

Ātman é o princípio que pode ser entendido como alma, espírito, si-mesmo, self, ser essencial, eu-profundo, etc. O ātman é um só. Mas, quando é concebido do ponto de vista das limitações que se adquirem na vida, fala-se em jīvātman. E, quando é concebido, para além desses limites, fala-se em paramātman. Portanto, traduzindo a frase por completo, assim se diz: “Afirma-se que Yoga é conjunção: entre a essência individual e a essência absoluta.” A partir dessa máxima, fica muito evidente o significado do nome próprio Svātmārāma, que é constituído por três vocábulos: sva-ātman-rāma. Traduzindo: “deleite com a própria essência”, ou “aquele que se alegra com o próprio eu”. Isto é: o Haṭhayogapradīpikā tem no nome dado ao seu autor a sugestão de alguém que alcançou a conjunção prevista pelo Yoga. No contexto do Haṭha Yoga, o ato de deleitar-se com seu próprio ser é uma experiência grandiosa, em que os limites individuais são diluídos em nome da identificação com a realidade que é chamada de absoluta (paramātman). Não é à toa que o Haṭha Yoga é, na Índia, ao mesmo tempo, prestigiado e desprestigiado. Na tradição dos nātha, as práticas de Yoga, e seu aparato filosófico, chegaram a lhes imprimir a imagem de anti-sociais. A primeira razão é que sua visão do potencial ilimitado do ser humano fazia necessariamente descrer de valores sociais e religiosos do bramanismo, muito dependente da organização social, que divide a sociedade funcional e hierarquicamente. A segunda razão, conseqüência da primeira, é o fato de que o desprezo, por parte dos nātha, em relação a valores sociais que inferiorizavam alguns grupos da população, era muito atraente para aqueles que se sentiam depreciados pela cultura dominante. Por essa razão, até hoje, muitos grupos dominantes desprestigiam, enquanto que certos grupos dominados sentem-se atraídos. Quanto ao nome Hathāyogapradīpikā, a expressão yogapradīpā aparece em um comentário feito sobre o Yogasūtra de Pataṣjali e quer dizer “luz do Yoga”, no sentido de que a luz gerada pelo Yoga permite o adepto superar certos obstáculos surgidos em seu caminho. Os obstáculos referidos são uma série de poderes supra-normais que levariam o yogin a permanecer em estados de consciência que, apesar de elevados, são muito inferiores aos que poderá atingir se carregar consigo a luz do Yoga. A palavra pradīpikā é um diminutivo que significa lamparina e cria, no título, os sentidos “lanterna do Haṭha Yoga” ou “lanterna sobre (que esclarece) o Haṭha Yoga”.

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