LIDANDO COM AS EMOÇÕES

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Como psicóloga, trabalho com emoções, conflitos e sofrimento psicológico – é a busca de todo o dia e de todos nós – encontrar um lugar tranqüilo dentro de nós, onde não nos sintamos jogados de um lado para outro por emoções que surgem, às vezes, sabe-se lá de onde.

Estudamos teorias, ensinamentos e algumas orientações acabam até nos deixando envergonhados e até culpados por nossos impulsos emocionais. Às vezes, engolimos tudo e procuramos não deixar transparecer a movimentação emocional na qual estamos mergulhados. Outras vezes, ainda, ficamos tão assustados e tão impotentes em sentir as emoções, que de uma maneira ou de outra nos alienamos de nós mesmos, conseguindo nos distanciar de tal forma de qualquer sinal emocional, que acabamos por acreditar que não sentimos nada.

De qualquer forma, por trás de todo este esforço, esconde-se alguém muito assustado. O medo está sempre presente, embora nem sempre o identificamos, nos distanciamos deste sentimento também. Aos poucos construímos nossa história, nosso mundo, nossas verdades e nossa auto-imagem, quando alguém ou alguma experiência ameaça esta construção, mesmo que ela nem seja tão satisfatória assim, somos tomados por emoções que não aceitamos facilmente. Emoções difíceis como raiva, inveja, orgulho, mágoa, tristeza, ambição e mais medo, emergem como reações vulcânicas, a imagem do vulcão expressa bem como somos tomados. Aí vem mais um conflito: O que fazemos com todos os nossos valores, aprendizados e propósitos? Como controlar estas emoções?

Sabiamente, as grandes tradições espirituais nos apontam para a mesma direção: perdão, compaixão, aceitação, amor incondicional. Mas na hora da explosão (vulcânica!!) raramente conseguimos nos lembrar de alguma prática compassiva. Aí vem a questão: Como perdoar o outro, quando eu mesmo não aceito os meus momentos mais pesados, quando eu mesmo não aceito deslizar em emoções difíceis que também expressam minha humanidade em sua totalidade?

Vamos aprendendo que a aceitação de nossos processos é a base de toda a transformação. Quando percebemos a dificuldade em realizar nossos propósitos, podemos sentir e aceitar a dificuldade que o outro também passa. Reconhecemos seus esforços e suas dificuldades, porque já as reconhecemos dentro de nós mesmos. Só assim é possível sentir amor incondicional, perdão, compaixão. Sabemos o que é sentir-se tomado por um devaneio impulsivo emocional, e por isso podemos nos sentir ligado ao outro – em sua humanidade. É interessante que quanto mais nos aceitamos, mais as emoções compassivas emergem e com mais estabilidade.

Pela meditação desenvolvemos esta clareza de percepção, olhamos todas as experiências e conseguimos ir apurando uma mente límpida e um coração puro, sem julgamento. É esta clareza sem julgamento do que “deveria ser” ou “não ser” que vai sendo levado para os outros momentos do dia-dia. Não há um salto mágico, de repente sou equilibrada e tranqüila. É na verdade, um trabalho diário, com esforço, coragem, atenção e persistência. Toda a experiência, desde a mais pequenina contrariedade pela manhã até o maior revés, é material de trabalho.

Desta maneira, toda dificuldade, traz em si a oportunidade de nós nos “re-conhecermos” um pouco mais, trazendo a inteireza de nossa humanidade, nos ligando aos outros e a todas as experiências, com seus aspectos de luz e sombra. É um exercício diário, lento, profundo, curador e libertador. Afinal, está tudo certo, não há nada imperfeito nem inacabado. Somos o que somos.

 

Namastê.

 

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