MANTRAS, O PODER SONORO DA PALAVRA

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                                                   “Mantra é a canção de uma estrela…e o transportará àquela estrela.”

                                                                                                                                         Swami Sivananda Radha

 

O conhecimento e a prática dos mantras guardam suas origens nos Vedas (veda significa sabedoria ou conhecimento), que são os textos mais antigos da Índia e dão base ao Hinduísmo e ao Yoga. São considerados conhecimentos adquiridos por revelação, isto é, os rishis ou sábios, teriam recebido esses ensinamentos dos deuses, ao entrarem em estados de consciência expandidos, pela prática de longas e profundas meditações.

O principal objetivo da tradição vedica, é conduzir o homem ao estado de libertação, moksha, por meio do reconhecimento do caráter efêmero e ilusório do ego humano, com o qual o indivíduo se identifica, e do mundo material em que vive. Falando de outra maneira, o que o praticante aspira é o estado de integração, em que a alma humana se funde com a consciência cósmica, a alma do universo, atingindo assim a iluminação. O ser humano, segundo essa tradição, precisa se libertar do esquecimento ou ignorância da sua verdadeira natureza, espiritual, divina, sagrada.

Num período posterior, por volta de 4.000 ou 5.000 mil anos atrás, surge a filosofia conhecida como Yoga, apresentando métodos, técnicas e objetivos, que se confundem com a prática em si, indicando um caminho pragmático para a libertação. Esse Yoga então, se ramifica em várias escolas, para atender e respeitar as tendências intrínsecas de cada pessoa, mas mantendo como finalidade última, a auto-realização ou estado de plenificação, samadhi. Um desses ramos é o Mantra Yoga, que se propõe a guiar o adepto na obtenção de novos estados de consciência, pelo manejo da energia e vibração contidas nas palavras que produzem sons específicos. Os Vedas ensinam que o som, shabda, está na origem do universo. Este, teria se manifestado por meio das vibrações rítmicas do som primordial, o OM ou AUM, de onde derivam todos os mantras, um eco das vibrações iniciais. O OM é considerado uma sílaba sagrada, representa o universo em sua totalidade e quando esse som é entoado, o indivíduo harmoniza sua vibração pessoal com a vibração de toda a criação, com a origem da vida e do universo. Assim, esse mantra é muito praticado pelos adeptos do Yoga e está presente na maioria dos outros mantras.

A raiz da palavra mantra, “man”, em sânscrito, significa mente, pensar ou ter em mente. “Tra”, tem relação com instrumento ou ferramenta. Mantras, portanto, são ferramentas sonoras utilizadas para o direcionamento da mente e da energia mental. É por meio desses valiosos instrumentos, que podemos intervir nos estados da nossa mente e nos mecanismos e processos psíquicos, obtendo sobre eles algum controle.

Como os mantras são vibrações sonoras, interferem também no ambiente, podendo ser entoados tanto verbal, como mentalmente.

A nível mental, eles são indicados para corrigir padrões mentais negativos como, excesso de pensamentos ou agitação mental, preocupações, idéias obsessivas, inércia mental, dissolver condicionamentos derivados de crenças falsas, formuladas na vida infantil, como as de desvalia, desconfiança, insegurança, abandono e tantas outras. Ou ainda, para intensificar a autopercepção, cultivar bons pensamentos e contribuir para a elevação e expansão do nível ordinário da consciência, mesmo nas situações do dia-a-dia.

Há um mantra apropriado para cada tipo de mente e para cada situação da vida, pois os yogues associaram as necessidades individuais às características importantes das deidades. Eles personificaram as vibrações sutis dos sons, em deuses e deusas, e combinaram as letras do alfabeto sânscrito, com a finalidade de produzir as palavras que têm o poder de invocar essas deidades, pois estão em harmonia com a entidade que representa. Assim, para cada entidade, há um mantra específico. E cada deus, se apresenta com um ou vários aspectos. Por exemplo, Shiva é um deus com conotação de destruição e transmutação, qualidades necessárias para que ocorram as mudanças e a evolução, tanto no macrocosmo do universo, como no microcosmo, representado por cada indivíduo. Outro deus é Vishnu, o preservador, ele oferece o bem estar, a felicidade e, às vezes, manifesta-se como Rama ou Krishna, lutando contra as forças maléficas, que assolam o mundo exterior, ou o nosso interior. Existem muitas outras divindades. O mantra a ser entoado, pode ser selecionado a partir do objetivo e sincronicidade entre a entidade que está representada nele, a pessoa e a situação que ela está vivendo e aquilo que deseja alcançar. Mantra é a representação energética ou sonora da entidade.

Os sons, quando articulados, produzem efeito vibratório no Akasha − espaço cósmico, que guarda todos os registros vibratórios e mentais do universo − e fazem uma comunicação com planos superiores. Há então, um intercâmbio entre a mente individual e a mente cósmica, contribuindo para que formas amplificadas de consciência sejam acessadas pela mente humana. A consciência ampliada restabelece o sincronismo entre o micro e o macrocosmo, relembra que além de indivíduo é também uma parcela do todo. “Como uma perdida gota d’água que se encontra com o oceano e adquire o potencial e o poder do oceano, o ser humano se funde ao onipotente…” (Ravindra, M.).

A língua dos mantras é o sânscrito, é importante que eles sejam repetidos na sua língua-mãe. Os falantes do sânscrito, eram, em sua origem, povos que, filosoficamente, tinham compromisso com a verdade, com o aprimoramento de suas almas. Eram os povos da tradição vedica, que se espalharam desde a região do Himalaia para a Índia, Europa, norte dos EEUU, e depois para o mundo todo. Assim, o sânscrito é uma língua de sábios, de homens que tinham contato com o sagrado.

Por muito tempo, o conhecimento dos mantras, era transmitido em rituais de iniciação, de mestre para discípulo, ficando assim associados a fórmulas sagradas, adquirindo uma roupagem mística e de magia. O mantra, usado numa iniciação, funciona como uma faísca, que vai acender o fogo da transmutação, na alma humana.

Com a abertura desses ensinamentos, no período tântrico, popularizando o Yoga, os sons de poder ficaram acessíveis para todos os praticantes do Yoga. Atualmente, toma-se o cuidado de não banalizar a prática dos mantras. Eles não se prestam a satisfazer curiosidades sem propósito de autoconhecimento e transformação do indivíduo.

Também não devemos confundir mantra com oração, pois a prece tem um caráter de comunicação com o sagrado e de petição. O mantra é o pensamento que libera e protege a mente dos condicionamentos e negatividades, seu destino final é fazer a ponte entre a consciência individual e a cósmica.

Segundo Swami Sivananda Radha, em sua obra “Mantras Palavras de Poder”, os mantras têm características próprias, são elas:

Rishi ou sábio − os mantras foram recebidos por meio da consciência intuitiva, em estado de meditação profunda, pelos antigos mestres.

Raga ou melodia − é a melodia dos mantras cantados, pois eles podem ser apenas recitados, mas quando cantados têm seu poder vibratório ativado.

Devata ou deidade que rege o mantra − é o aspecto pessoal de um Deus, representado por uma das inúmeras divindades que compõem o panteão indiano. Ao evocar o nome de um Deus, nos aproximamos das qualidades pertencentes a ele, qualidades essas, que podem nos faltar ou que precisamos fortalecer em nós.

Bija ou semente do som − é o mantra em sua essência, o som concentrado.

Shakti ou poder ou energia − é a consciência que o mantra contém.

Kilaka ou pilar − é a força propulsora, a disciplina que o praticante precisa ter para praticar os mantras regularmente.

Todos esses aspectos estão presentes na prática do Mantra Yoga.

Os mantras podem ser entoados verbalmente, em voz alta ou baixa, como um sussurro. Podem ser recitados ou cantados, repetidos mentalmente ou ainda, escritos por várias vezes.

É importante que a intenção e o propósito dos sons sagrados, estejam presentes na sua prática.

Um outro aspecto da recitação de mantras, é que eles nos ajudam no controle da nossa respiração, aumentam a nossa capacidade pulmonar e, a troca gasosa se realiza de maneira plena. A respiração interfere no nosso campo emocional, que tende a se acalmar, tranqüilizando a mente e nos protegendo de pensamentos e sentimentos nocivos.

Eles podem ser entoados no início da prática do Hatha Yoga, para preparar a mente e o campo energético do praticante, ou durante as posturas psicofísicas, para ocupar o espaço mental na permanência das mesmas, ou ainda como uma introdução à meditação. Mas eles também podem ser entoados no dia-a-dia, para alterar hábitos mentais, interferir em estados emocionais indesejáveis, nos proteger em situações de perigo real ou imaginário, melhorar a vibração do ambiente, para a cura, a saúde, ou antes de dormir, para limpar a mente do tráfego dos pensamentos do dia.

Nem sempre é necessário saber o significado literal do mantra, pois a palavra em si tem o seu poder. Os bija-mantras, sons-sementes, por exemplo, não possuem tradução, são sons que contém vibração e energia. Cada chakra ou centro de energia vital possui um bija-mantra, que ao ser repetido, tende a harmonizá-lo energeticamente.

Por fim, ilustramos esta breve explicação dos mantras, oferecendo aos nossos leitores, aquele que é um dos mantras mais entoados pelos adeptos do Yoga: OM NAMAH SHIVAYA, um canto a Shiva, uma saudação ao deus da transmutação, aquele que não deixa nada ficar estagnado, coloca o micro e o macrocosmo para evoluir, movimenta a universo com sua dança sagrada.

Recordando, sente-se numa posição confortável, com a coluna verticalizada, com a linha do queixo paralela ao solo, olhos fechados, rosto descontraído, ombros soltos, se você possuir um mala (colar de 108 contas), ele deve estar nas suas mãos, se não, coloque um relógio a sua frente e pratique por 5 minutos, e comece a entoar com consciência, intenção e devoção: OM NAMAH SHIVAYA, OM NAMAH SHIVAYA, OM NAMAH SHIVAYA…

Mesmo que não tenhamos o conhecimento técnico musical ou lingüístico do sânscrito, se nossa motivação for pura, sincera e profunda, colheremos ótimos resultados.

Boa prática!

Referência Bibliográfica e Indicação de Bibliografia:

Radha, S.S. Mantras Palavras de Poder, São Paulo, Editora Madras.

Ravindra, M. O Segredo dos Mantras, São Paulo, Editado pela autora Tel./Fax: (011) 4339-2134.

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