MEDITAÇÃO EM MOVIMENTO

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Tudo que eu claramente me lembro de minha primeira aula de Yoga é do teto. Entre asanas, nós éramos instruídos a deitar sobre nossos colchonetes e repousar. Eu não me lembro muito mais sobre o que fiz, mas posso me lembrar que este pequeno contato fazia-me querer mais. Na manhã seguinte, em casa, pratiquei todas as posturas; os asanas tornaram-se a parte central de minha vida. O que me induzia às suas práticas era o intuitivo sentimento de que esses movimentos não eram apenas alongamentos: eles pareciam ter alguma conexão com minha alma. Atualmente, depois de anos de estudos, acredito que cada asana representa um aspecto de meu ser e também oferece uma poderosa “porta do caminho” em direção ao meu interior para um profundo alerta (awareness). Este despertar intenso ocorre porque quando pratico uma postura, estou focando em meus sentimentos e pensamentos, que também são atingidos, além do movimento corporal completo. Posso perceber rigidez em minhas pernas ou uma resistência emocional para certos movimentos. Isto, com diários e longos períodos para direcionar, ajuda a criar o hábito de colocar a atenção, que deve permanecer em meu pensamento durante o resto do dia. Assim como coloco a atenção naquilo que alcanço, aprendo a ver meu ser e minhas reações mais claramente. Começo a entender que minhas reações são hábitos que posso abandonar. Este processo é a base da prática espiritual. A prática de asanas para cultivar o despertar é provavelmente tão antiga quanto a civilização indiana. Arqueólogos descobriram, em escavações no vale do rio Indu, figuras que datam de cinco mil anos atrás, sentadas com pernas cruzadas, numa posição que os yogues usam para meditação. Apesar desta evidência pré-histórica das antigas raízes do Yoga, nós atualmente temos pouca informação concreta sobre o desenvolvimento dos yogasanas. As tradições têm dito que cada asana foi criado quando um rishi (sábio da Índia, literalmente, aquele que vê) espontaneamente falava nessas posturas durante um profundo estado de meditação. Surpreendentemente, o mais reverenciado texto da antiga Índia – Yogasutras de Patanjali, do segundo século AC – quase nada discute sobre esse assunto. Patanjali não dá instruções específicas sobre as práticas dos asanas, e apenas toca nisto em quatro dos cento e quarenta e cinco aforismos (capítulo II, 29 e 46-48). Apesar de diversos outros textos indianos pré- modernos – Shiva Samhita, Gheranda Samhita, e Hatha Yoga Pradípika – promoverem um pouco mais de descrição das posturas específicas, tradicionalmente muitos professores têm seguido o líder Patanjali e ensinado que o valor significativo dos asanas é preparar o corpo para longas horas de meditação, através do fortalecimento das costas e das pernas.

Na cultura ocidental do século XX, a prática dos asanas está se tornando cada vez mais conhecida e aceita, como terapêutica no tratamento de deficiências físicas e nas populares atividades para regimes alimentares. Hoje em dia, podemos encontrar yogasanas não apenas em revistas populares sobre saúde, mas, também em revistas de moda, onde a mídia rapidamente informa quem é o artista que está praticando Yoga.

Mas além dessa corrente “Moda & Forma”, sinto que a prática dos asanas tem muitos presentes maravilhosos a oferecer ao ocidente. Mais interessante para mim do que qualquer prática de técnicas específicas, são duas idéias básicas sobre asanas: primeiro, que eu acredito ser a prática dos asanas uma prática espiritual, e segundo, acredito que pode-se trazer esta vivência espiritual para nossa vida diária no mundo moderno, distante de ashrams e retiros de meditação da Índia antiga.

Nós, no ocidente, somos atraídos primeiramente pelo chamado da cura, da flexibilidade e do alinhamento, mas nós mantemos a prática dos yogasanas porque são uma poderosa expressão do sagrado não verbalizado. Seres humanos têm sempre procurado a conexão com o transcendental. Nós devemos ser severos para procurar a origem através de nós mesmos, e este desejo de conectar-se com o sagrado desconhecido pode ser alimentado por nós. Para praticar os asanas verdadeira e inteiramente você tem de estar presente no momento. Você deve observar suas sensações, suas reações, seu senso de facilidade ou dificuldade, tanto para estirar-se como para dobrar-se. Esta consistência e força de vontade de conhecer e saber consiste no aqui e agora, a base da meditação. Parte do que faz o presente momento tão especial é que nós raramente fazemos isto. Muitas vezes nossas mentes estão flutuando através do futuro ao atrasada no passado. Tendemos a viver nossos pensamentos fora da realidade e não nela mesma. O problema com este modo de viver é que isso nos faz perder o presente, e o presente é tudo o que realmente temos. Nossa freqüente insatisfação com a vida começa por nunca realmente tocarmos o que realmente acontece. A prática dos asanas pode nos ajudar a reconectarmo-nos com o sagrado exigindo que coloquemos a atenção ao milagre que somos e para a maravilha da criação na qual vivemos.

No capítulo II, aforismo 46, dos Yogasutras, Patanjali claramente define controle e conforto como sendo as duas chaves características da prática dos asanas. É irônico que muitas pessoas pensem nos asanas como “os movimentos do Yoga”, quando na verdade os asanas exigem que o praticante aprenda a manter-se parado. Isto, permanecer e manter-se parado é uma poderosa prática. Quando você aprende a manter-se numa postura, o controle do corpo volta-se para si o que você claramente vê: o constante movimento da mente. Através do seu treinamento, de ficar parado, a prática dos asanas pode ser uma porta para um profundo estado de meditação. Yogasanas, especialmente Shavasana (postura do cadáver), pode prover o praticante de Yoga com o mais importante presente: A DESIDENTIFICAÇÃO. Nos Yogasutras de Patanjali, ele ensina que identificar erradamente seu pensamento como seu SER é a raiz de toda miséria. Ele encoraja os professores a perceberem que toda a prática do Yoga busca dissolver esta falsa identificação.

Na tranqüilidade de Shavasana, você pode começar a separar o seu ser de seus pensamentos. Quanto mais profundamente você entra no relaxamento, mais você começa a entrar no estado no qual os pensamentos são experimentados como fenômenos da superfície. Você pode começar a experimentar um pequeno espaço entre pensamentos e o que é percebido como SI MESMO. Um professor uma vez disse: “O problema com nossos pensamentos é que acreditamos neles…”. O problema em acreditar neles é que nossas ações vão no caminho deles, e isto causa sofrimento para nós e para os outros. Quando você experimenta um pequeno espaço entre seu pensamento e a consciência que é a vivência, os valores morais e os pensamentos começam a perder seu poder sobre você. Com a DESIDENTIFICAÇÃO vem a escolha: você pode escolher agir a partir do pensamento, ou relaxar sem agir. E finalmente, este tipo de escolha é sinônimo de verdadeira liberdade. Durante o silêncio, Patanjali determinou que para a posição ser um asana, devemos habitar nela com SUKHA, uma palavra usualmente traduzida como simples, fácil ou confortável, o que para muitos de nós deve parecer uma demanda impossível. Quando nos movemos nos asanas, estamos muitas vezes despertos para as dificuldades, rigidez, fraqueza, resistência mental ou todos os três. Isto é, raramente temos a sensação de movimento fácil. Então, o que poderia ter levado Patanjali insistir que asanas devem ser marcados pela facilidade?

Eu tenho que pensar que “confortável”, neste contexto, refere-se não à dificuldade ao fazer uma postura, mas, mais que isso, refere-se à minha interpretação daquela dificuldade. Em outras palavras, as posturas podem continuar a me desafiar, talvez nunca mudem, mas posso tornar-me aberto e suave para a interpretação dessa dificuldade. Posso fazer essa escolha, ou manter-me na situação atual e permitir à dificuldade existir, sem reação de luta, ou sem tentar mudar isso.

Assim como escolher “comodidade” em sua prática não significa evitar posturas difíceis, a sabedoria da prática prolongada de Yoga não é sobre arranjar sua vida de modo que você não tenha mais dificuldades ou desafios. Ao contrário, isto é, usando a disciplina você pode conseguir na prática do asana, manter-se tranqüilo e confortável no meio da dificuldade. Quando você aprende a manter este conforto, todas as coisas que você diz e faz tornam-se um ASANA – UMA POSIÇÃO QUE PERMITE A SEU CORPO, SUA MENTE E SUA ALMA, CANTAR EM HARMONIA COM O UNIVERSO.

Judith Lasater

Professora de Yoga e autora do livro “Relax and Renew”

Tradução de Sílvia Garcia Pinto

(artigo publicado no boletim informativo da I.Y.T.A. – Associação Internacional de Professores de Yoga do Brasil)

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