NÃO EXISTE PERFEIÇÃO, E SIM APRENDIZADO

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Rosto sereno, olhar amoroso, voz macia e calma, atos de compaixão, atitude respeitosa perante as pessoas e a natureza, e uma atitude zen formam a concepção criada da vida “anormal” daqueles que escolheram um caminho espiritual. O yoga se enquadraria na descrição de caminho espiritual ou não tem nada disso?

Primeiro vamos rever a etimologia da palavra “espiritual” oferecida por Houaiss, do latim spiritualis, ‘próprio à respiração, relativo ao espírito humano’; nas diversas línguas, a perda do sentido literal de espiritismo e de espiritista dá margem para que esses significados sejam transferidos para espiritualismo e espiritualista, derivados do radical do adjetivo + os sufixos -ismo e -ista; desse radical deriva-se também o verbo espiritualizar.

Já que é algo relativo ao espírito humano, então, o yoga faz parte disso, pois enquanto trabalhamos o composto corpo-mente, estamos diretamente influenciando o nosso espírito, afinal, faz parte de nós. A escolha é nossa de entender esse conceito ou preferir ignorá-lo.

Um sádhana pressupõe uma rotina de prática diária, sendo esta, flexível, dependendo do seu momento atual. Este sádhana representa o caminho espiritual, ou seja, tudo o que tem por objetivo uma vida em busca de elevação, transcendência e sublimidade. O yoga nos oferece isso, não? Transcendência das nossas projeções, condicionamentos e ego. Um estado sublime. Um estado de integração. Presença.

Sendo assim, não entendo a prerrogativa de postular que o yoga não tem nada de espiritual. Não podemos nos dissociar do fato de que somos corpo-mente-espírito, algo que é intrínseco do ser humano. Ou podemos? Poderemos ser apenas corpo? Ou apenas mente? Podemos sim alcançar por meio da prática uma junção de todos esses e um estado elevado que transcende a tudo isso, moksha, a libertação. Mas enquanto seres-encarnados devemos aceitar o fato de que é com essa existência que devemos viver.

Como ainda não alcançamos a iluminação, somos passíveis de erros, falhas e imperfeições. Acho graça quando as pessoas se indignam quando você se sente irritado, estressado ou não está tão saudável, com uma gripe, ou dor de cabeça. Sempre tem um que vira e solta a pérola: “Ué, você não é todo zen? Como pode estar estressado, nervoso ou gripado? Logo você que pratica yoga e tudo mais.” Aja paciência senhor, quando ouço algo desse tipo.

A tendência dos alunos e amigos ao nosso redor é de nos ver como vêem uma pintura de Van Gogh ou Portinari, perfeito, infalível e impassível de erros. Esquece-se que não nos iluminamos ainda, estamos no caminho e muitas vezes vamos tropeçar, e, como vivemos em sociedade e talvez, numa cidade metropolitana, estaremos suscetíveis as influências do exterior e nem sempre conseguiremos estar impunes a tudo isso, e reagir de acordo com a imagem que se tem de nós. Às vezes erramos, e ainda bem que erramos. Só assim poderemos crescer e evoluir nesse caminho e com esses erros, ensinar aqueles que se espelham em nós.

Além do mais, ser professor e praticante de yoga, não é ser bobo ou agir de passividade. Mas sim, agir corretamente diante de uma impunidade, ou de uma mão suplicante de fome, e assim por diante. Ser yogui não é ser alienado, e achar que podem te fazer de gato e sapato, pois você está mais evoluído que a outra pessoa. Ou ignorar o fato do que acontece no mundo, como o que vem acontecendo com o Tibet e no seu bairro e escolher não fazer nada a respeito. Pelo contrário, devemos assumir as responsabilidades pelo nosso dharma e tentar agir da melhor maneira possível, não passível.

Servimos de exemplos para muitos, mas como os nossos mestres, somos passíveis de erros e não estamos aqui para agradar ninguém, mas sim para aprender. Se ainda assim nos acharem malucos por cantarmos mantras e não ferir os animais enquanto nos alimentamos, tudo bem, pois, como diz o queridíssimo professor Hermógenes, “Deus me livre de ser normal!” E se ser anormal é saber que vamos errar e ainda assim, estaremos inteiros na ação e presente no momento do erro, um tanto melhor. Pois com certeza estaremos levando um ensinamento genuíno para aqueles que ajudamos e inspiramos ao sádhana.

Isso é que forma um verdadeiro yogui. Aquele que tem os yamas e niyamas arraigado em suas veias, que caminha sem medo de tropeçar, sem medo de encarar os próprios medos, erros e falhas. Caminhando sobre a mãe terra com respeito e amor, e atento aos ensinamentos dos mestres. Com um coração sincero, os olhos abertos e os ouvidos atentos para a compreensão da Verdade maior, em direção ao Ser. Contribuindo para a evolução de toda a humanidade.

Om shanti Om prema.

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