NOBREZA DO HATHA YOGA

Artigos

 

“Seria no entanto um erro subestimar o valor e o significado do nosso corpo físico…

Para aquele que sabe, para o iniciado, o corpo é a cena sagrada onde decorre uma peça d uma indescritível profundidade. E é por essa razão que o conhecimento, ou o que é mais e melhor, a experiência consciente desse corpo é de uma importância primordial para o yogue e para todos aqueles que desejam seguir o caminho da meditação.

O obstáculo que o físico representa para o espiritual não é um argumento para rejeitar o físico. Porque o que representa a nossa maior dificuldade também é a nossa maior oportunidade. Tornar o nosso corpo perfeito deveria ser o último triunfo.

Não pode portanto ser um Yoga Integral quem ignora o corpo ou faz do seu anulamento ou rejeito a indispensável condição de uma perfeita espiritualidade “”.

Sri Aurobindo

 

Considerado na perspectiva geral da evolução da humanidade através dos milênios, o acontecimento capital do século 20 não será com certeza nem o aperfeiçoamento dos computadores, nem a automatização, nem mesmo a descoberta do átomo, porque esses desenvolvimentos, por mais revolucionários que sejam, só modificam o meio no qual o homem evolui, e não o ser na sua essência.

Este acontecimento capital poderia bem ser a redescoberta do yoga e a sua difusão explosiva à escala planetária.

Para o yoga mesmo, esta difusão súbita e em massa constitui a curva mais decisiva desde os tempos atrás, as fronteiras da pré-história, onde os grandes Sábios e rishis da Índia antiga levaram-na à perfeição.

A única oportunidade que o nosso século oferece ao yoga representa para ele a prova mais difícil. Ele corre o risco de ser desnaturado, desfigurado para sempre.

Paradoxo, é o hatha yoga, o yoga do corpo, aquele que vence atualmente no ocidente, que é o que está mais exposto.

Efetivamente, o hatha yoga está ameaçado sobre duas frentes, tanto pelo materialismo como pelo espiritualismo.

O “materialista” só vê no hatha uma super ginástica, um meio extraordinariamente eficaz de ficar – ou de tornar a ser – jovem, esbelto, em perfeita saúde e de viver muito tempo. Esse hatha yoga, já limitado a ponto de ser considerado uma simples técnica de saúde, considerou-se aos seus olhos o yoga total.

Isolando o hatha yoga de seu contexto, deixando na penumbra as outras formas de yoga, impede-o de ter o seu sentido profundo. Assegurando o seu sucesso, ele está a traí-lo, e para o hatha yoga esse pedestal poderia transformar-se em pelourinho.

Do lado “espiritualista” a ameaça é mais subtil! É certo que já passou o tempo em que se estimava que um corpo massacrado, mortificado, emagrecido, constitua ideal provável para a abertura da espiritualidade, mas considerando o hatha yoga como sendo uma simples ginástica, sem dúvida útil para manter o instrumento corporal em perfeito estado, sem ir mais longe, conseguimos considerar o hatha yoga como uma forma menor, acessória, e até anedótica do yoga.

Ora, subestimar o hatha yoga é subestimar o corpo. No futuro, o desenvolvimento de outras formas de yoga no Ocidente como o Raja Yoga e o Jnana Yoga, poderia fazer-se com o prejuízo do Hatha Yoga, o que seria um grave erro que já aconteceu uma vez na história do yoga, na sua própria pátria, quer dizer na Índia. Até o grande Vivekananda subestimou o hatha yoga quando ele escreveu. “O hatha yoga é somente um animal são”.

Longe de mim a idéia de minimizar as outras formas do yoga em proveito de um só hatha yoga! Pratiquei aliás durante muito tempo o Raja Yoga antes mesmo de descobrir o Hatha Yoga e foi precisamente isso que me convenceu que os outros yogas só adquirem todos os valores se são baseados sobre o bom conhecimento do yoga do corpo. O Hatha Yoga tem que retomar o lugar de honra que ocupava na hierarquia yogica no tempo dos Rishis, continuar a ser o ramo principal no qual se agarram as outras formas de yoga. O yoga tira a sua própria nobreza do Corpo. Não, o Corpo não é o animal em nós! O Corpo é muito mais que do que imagina o nosso intelecto e o fim do hatha yoga não é somente reconhecer a sua importância, mas de o transfigurar, de o divinizar.

O corpo é infinitamente mais do que uma maravilhosa mecânica biológica. É a MEDIDA ESSENCIAL do ser humano.

Esse corpo é o ponto de encontro, o cruzamento de todos os planos da existência do ser humano. Esse corpo é o lugar privilegiado do Cosmos onde a energia criadora do Ser entra em contato com a matéria, a molda e a controla.

E esta criação prossegue a cada momento da nossa existência! Um corpo humano, é matéria transformada, posta com vida, penetrada de absoluto. Moldando o nosso corpo graças ao Hatha Yoga, quer dizer impregnando-o de consciência, dominando-o, fazendo a experiência total da sua vida, o Homem cumpre um aspecto crucial do seu destino. É neste estado de espírito que o Hatha Yoga tem que ser praticado.

Assim concebida, uma sessão de asanas, em vez de ser só uma sessão de super ginástica, torna-se o momento sagrado em que o Hatha Yoga comunica com o seu corpo; é o momento em que o intelecto, em vez de por o corpo às suas ordens, põe-se ao seu serviço e se integra nele.

Através do nosso corpo nós participamos na vida desde a sua primeira manifestação sobre a terra. Essa vida que palpita em nós transmitiu-se SEM INTERRUPÇÃO no decorrer de milhões de anos, através de toda a evolução sem que falte uma só malha a esta corrente sem fim.

A vida que anima o nosso corpo é o que há de mais eterno em nós sobre o plano terrestre. Através da linha infinita dos nossos antepassados, sobrevivemos a todas as provas, saímos vencedores de todas as lutas e toda esta experiência impregnou-se em cada ser humano.

O Nosso Corpo é inteligente, mesmo nas suas mais humildes funções orgânicas, que nós temos tendência de considerar como sujos. Ao contrário da nossa inteligência ordinária, verbal, discursiva, a do corpo é infalível, a sua ciência é inerente, ela é – de longe – superior ao nosso intelecto do qual nós somos no entanto tão orgulhosos. Vejamos o exemplo da digestão. No intestino, este tubo de mais ou menos 8 metros de comprimento, a inteligência do corpo realiza operações de bioquímica e de biofísica muito complexas, e isto a uma temperatura de aproximadamente 40 graus, à pressão atmosférica normal. Para realizar o que o nosso tubo digestivo cumpre, era preciso dispor de enormes laboratórios equipados de aparelhos ultra-aperfeiçoados, trabalhar com a alta temperatura e pressões muito elevadas. Para medir a que ponto o nosso intelecto é limitado neste domínio, pensemos que nenhum sábio do mundo está em medida de descrever exatamente os processos físico-químicos que se produzem durante a digestão e enquanto que o intelecto rasteja no labirinto das fórmulas químicas, no mesmo momento o próprio intestino as realiza vigorosamente, sem erro, brincando.

Em última análise, o nosso intelecto não é só uma função do corpo. É um instrumento como outro qualquer, e mesmo o mental só toma sentido quando integrado no Corpo. Isto não significa que o espírito seja um epifenômeno do Corpo como o pretende uma certa biologia contemporânea. As raízes do nosso ser penetram nas camadas subtis do nosso psíquico, as quais se perdem nas profundidades do inconsciente, onde o espectador vigia, observa e age ficando fora da ação. Quando o Hatha Yoga comunga com o seu corpo, é evidente que ele não comunga com os átomos materiais de oxigênio, de carbono, de hidrogênio, de azoto, etc… que compõem o corpo material. Ele comunga com esta inteligência superior que possui, na qual ele é uma manifestação, e reconhece esta inteligência superior como sendo a dele. Porque não é outra pessoa qualquer que digere os meus alimentos, sou EU. Para o Yogue, quem diz inteligência diz também consciência e psíquico. O nosso corpo está impregnado de psíquico até a célula mais pequena. É por isso que o yogue pratica mesmo as mais humildes disciplinas com o mais profundo respeito para com o seu corpo. Quando ele pratica um asana, deixa a sua consciência penetrar em todas as fibras do seu organismo, abre o campo às forças subtis que o percorrem, INTEGRA-SE NO SEU CORPO.

Porque o yoga é INTEGRAÇÃO.

Cada célula constitui primeiro nela próprio um tubo integrado, depois integra-se no órgão de que ela faz parte e este integra-se por sua vez no organismo humano. O intelecto e o mental devem também integrar-se no corpo, integrar-se no que os rodeia e finalmente integrar-se no Cosmos. Esta integração cósmica vai do átomo à estrela passando pela célula. É aí que está a essência mesmo do Hatha Yoga e do Yoga em si. (…)

 

 

 [wpdm_file id=144]