O YOGA PRELIMINAR

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O presente artigo é um pequeno estudo de certas práticas do Yoga, mais precisamente de três práticas fundamentais e preliminares: Tapas – austeridade, disciplina, esforço e simplicidade; Svadyaya – o estudo de si mesmo, a busca do autoconhecimento e o estudo dos textos sagrados; Isvara Pranidhana – a entrega ao Isvara, que é o Deus interno, o Purusha , a mônada ou a alma espiritual e eterna do homem (Taimni, 1989), (Mheta, 1995).

Ao começarmos com o Yoga , devemos concomitantemente incluir essas práticas, pois elas são pré-requisitos. Sem elas não é possível avançar nas demais. Tapas, Svadyaya e Isvara Pranidhana devem ser, desde o início, práticas constantes.

Daremos agora, uma breve explicação de cada uma dessas práticas.

É compreensível que sem algum esforço e disciplina nada se consegue; com as práticas de Yoga não é diferente. Tapas é a necessidade do esforço que a disciplina demanda. Assim, a disciplina é algo a ser treinado. Não pode ser uma imposição moral, mas, um treino respeitoso para consigo mesmo, sem radicalismos. Daí a prescrição da simplicidade. Deve-se começar pelo mais simples, pelo mais fácil, respeitando os próprios limites e capacidades, avançando sem pressa. Cada pequena conquista é um grande estímulo. Começar por coisas complexas é sinal de derrota e desestímulo. A freqüência das práticas de Yoga é fundamental. A meta é conseguir uma disciplina que possibilite uma prática diária. Essa conquista da capacidade de ser disciplinado e simples, aos poucos, vai se tornando uma virtude que trará grandes conquistas em vários planos da existência. A prática de Tapas desenvolve outras habilidades, como a paciência, a tolerância, a perseverança e um domínio sobre a vontade.

Segundo Taimni (1989), químico indiano, escritor e estudioso de Yoga , a remoção das impurezas é o principal propósito da prática de Tapas . “Somente quando o corpo estiver completamente purificado é que pode funcionar perfeitamente como instrumento da consciência.” Nesse sentido, a prática diária de asanas e pranayamas é um excelente Tapas .

Rohit Mehta (1995), filósofo indiano, dá mais ênfase à simplicidade, chamando a atenção para uma vida simples e sem ostentação como sendo a principal característica da prática de Tapas.

Junto com o treino da disciplina e da simplicidade – Tapas , começa o treino do auto-estudo ou Svadyaya . Segundo Henriques (2001), mestre em filosofia e professor da PUC-RS, Svadyaya possui vários sentidos, todos válidos. Pode significar “estudar seu próprio texto”, “estudar por si próprio”, “introversão”, “ida para dentro de si mesmo”, “estudar a si próprio”. Para esse autor, o principal objeto a ser pesquisado é a realidade pessoal e por isso “Svadyaya implica em um estudo mais meditativo que mnemônico”. Assim, Svadyaya diz respeito tanto ao estudo dos textos sagrados do Yoga , como ao estudo meditativo sobre si mesmo. Svadyaya é o treino constante de voltar a atenção para si, procurando se conhecer em todos os aspectos. Prestar atenção ao corpo, em suas reações e sensações, suas necessidades, tensões, dores e prazeres.

A Dra. Vinod Verna (2003), médica indiana e pesquisadora de Ayurveda escreve: “A Ayurveda nos ensina a estar conosco durante todo o tempo, a nos sentir envolvidos em todas as ações físicas e mentais”. Segundo ela, esse “estar conosco” significa estar presente mentalmente em todas as atividades que empreendemos, estar consciente do processo da alimentação, da digestão, da absorção dos alimentos consumidos, o ato da excreção, da higiene, como nos sentimos nas diferentes estações do ano, nos diferentes climas, em relação aos nossos diferentes relacionamentos, aos diferentes ambientes, o que nos faz adoecer, o que nos deixa felizes, etc. Ressaltando o papel da consciência somática, a Dra. Verna aponta que ao realizarmos as ações corporais com envolvimento mental, as partes do corpo se relacionam em uma dimensão mais profunda, conduzindo a uma comunicação entre o soma e a mente, desenvolvendo uma auto-observação maior.

O estudioso Ken Wilber (2003), que procura fazer uma síntese entre as tradições espirituais do oriente e a psicologia ocidental, afirma que “para cada problema ou nó mental, existe um nó corpóreo correspondente, e vice-versa, visto que, com efeito, o corpo e a mente não são dois”. … “que o que na mente é uma guerra de atitudes, no corpo é uma guerra de músculos”. … “a pessoa que reprime seu interesse e sua excitação terá de reprimir, ao mesmo tempo, sua respiração corpórea: terá de travar o peito, enrijar o diafragma e o estômago e apertar os maxilares. Alguém que reprime a própria raiva precisa travar todos os músculos opostos àqueles que gostaria de vibrar contra o mundo: contrair e reforçar os ombros, apertar o peito e travar a musculatura do braço. Quem deseja reprimir o choro ou os gritos, retesa violentamente os olhos, os músculos dos olhos, do pescoço e da garganta, bem como restringe a respiração e bloqueia as sensações dos intestinos. A fim de refrear todos os impulsos sexuais, precisamos enrijar os músculos da pelve, travar os músculos inferiores das costas e evitar cuidadosamente qualquer percepção da secção média do corpo.” Para esse autor, esses nós mentais e corporais, fontes de sofrimento, são frutos do estreitamento da consciência, da fragmentação do Ser. Isso ocorre porque há a identificação da consciência com uma parte do Ser em detrimento da totalidade O processo de cura se daria pela reintegração da parte rejeitada. Para isso é necessário que o conteúdo rejeitado que está no nível do inconsciente venha à tona, seja reconhecido e aceito. Para ele, uma terapia existencial como o Hatha Yoga é necessária a fim de propiciar a ampliação da vivência da consciência organísmica.

O objetivo do Yoga é tornar a pessoa super consciente. O estado ordinário do ser humano é, em sua maior parte, determinado pelo inconsciente, principalmente ao que se refere à sua real natureza. No sutra II-44 do Yoga Sutra , lê-se: “Do auto-estudo – Svadyaya – provem a união com a divindade desejada.” (Henriques, 2001). Vê-se que o resultado último de Svadyaya é chegar a conhecer e vivenciar a realidade divina. Assim é perfeitamente compreensível o motivo pelo qual a prática de Svadyaya implica no estudo dos textos sagrados do Yoga e no estudo de si próprio. Nos textos sagrados, os mestres e sábios da Índia, nos legaram o conhecimento da real natureza humana. São, portanto, um guia, um mapa para percorrermos o território do nosso mundo interno.

Em Isvara Pranidhana – a entrega ao Senhor, está implícito o treinamento de Vairagya – desapego e, Aparigraha – não possessividade. Trata-se de uma prática que tentará levar a cabo a questão da reintegração do ego e da superação das limitações desse nível de consciência. Wilber (1999), refere que a consciência ao enredar-se no mundo da manifestação se identifica com o corpo. Essa, ao perceber a inevitabilidade da morte física, cria um ser mental – o ego, imagem ideal de si mesmo. Mas, o ego também sofre ameaça à sua integridade, acaba cindido em sombra – parte ameaçadora que é mandada para o inconsciente, e, persona – parte aceitável que permanece ao nível consciente. Assim, o psiquismo humano é constituído de uma grande parte de nossas percepções corporais e de estruturas de nosso ego, negadas ou reprimidas. A evolução da consciência humana pressupõe fazer o caminho de volta, integrando todas as partes negadas, até a aceitação da realidade de sua existência eterna como Atmam , abandonando a ilusão a que está submetida quando busca afirmar sua existência nos eventos efêmeros da manifestação. Para esse autor, “no nível do ego, tudo o que restou da percepção organísmica – percepção não-dual denominada subjetividade abstrata; consciência cósmica – se apresenta como percepção do corpo grandemente empobrecida. Nesse nível, o homem não sabe que a percepção do corpo é apenas a ponta esfarrapada de uma jóia submersa, mas de enorme valor, do conhecimento do alvorecer” (Wilber, 1999). A humanidade vive, atualmente, esse estágio de afirmar-se enquanto ser egóico e cindido em sombra e persona.

Quando realizamos uma determinada ação somos afetados pelos resultados. Se estes são classificados negativamente nos sentimos culpados, se são classificados positivamente nos sentimos orgulhosos. Tanto para o bem como para o mal acreditamos que somos os grandes artífices. Esse sentimento de onipotência é a expressão máxima da ilusão gerada pelo narcisismo egóico. A prática de Isvara Pranidhana , o treino da entrega, é um enfrentamento dessa limitação imposta pela consciência egóica. Nessa entrega, procura-se executar a ação que se acredita correta, boa e justa. O que importa é a ação, executada da melhor maneira possível. A ação e seus frutos são entregues a I svara e não ao ego. Os elogios ou as críticas também são entregues. A tentativa é de se aproximar de um desfrute imediato e puro, sem a mácula de vásanas – tendências latentes devido às samskáras ou impressões subconscientes – e, sem deixar resíduos kármicos – novos samskáras que gerarão novos vásanas . É evidente que os avanços conseguidos com essa prática resultam em uma ampliação da liberdade, sendo um remédio eficaz contra as neuroses.

A tríplice e constante prática, de Tapas, Svadhyaya e Isvara Pranidhana , por aquele que escolheu a orientação do Yoga , levará a uma potencialização das demais práticas, os Yamas – controle de impulsos destrutivos , Nyamas – incentivos a prática de certas virtudes, Asanas – posturas psicofísicas, Pranayamas – práticas com a respiração, Pratyahara – domínio sobre os sentidos, Dharana, Dyana e Samadhi – práticas meditativas.

Referências Bibliográficas:

Taimni IK (1989). A Ciência da Ioga: Comentários sobre os Yoga Sutras de Patanjali à luz do pensamento moderno. Ed. Grupo Annie Besant, Rio de Janeiro, Brasil.

Metha R (1995). Yoga a arte da Integração: Comentário sobre os Yoga – Sutras de Patanjali. Ed. Teosófica, Brasília, Brasil.

Henriques AR (2001). Yoga e Consciência: a filosofia psicológica dos Yoga Sutras de Patanjali. Ed. Rígel, Porto Alegre, Brasil.

Verna V (2003). Ayurveda : a medicina indiana que promove a saúde integral. Ed. Nova Era, Rio de Janeiro, Brasil.

Wilber K (1999). O Projeto Atman: uma visão transpessoal do desenvolvimento humano. Ed. Cultrix, São Paulo, Brasil.

Wilber K (2003). O Espectro da Consciência. Ed. Cultrix, São Paulo, Brasil.

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