OS DIFERENTES CAMINHOS DO YOGA

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São seis os sistemas filosóficos ortodoxos da Índia, dos quais Samkhya e Yoga são considerados dois aspectos distintos e próximos do pensamento hindu. Samkhya trata dos princípios teóricos sobre os quais o Yoga define sua prática. Todo o método do Yoga encontra sentido quando se compreende o ponto de partida do Samkhya – a constatação da insatisfatoriedade da condição humana, tal como ela é comumente vivida, a miséria existencial do ser humano.

O Samkhya aponta para dois princípios que formam o universo, a natureza manifesta e material, Prakriti, e o contraponto imanifestado, espiritual, que anima Prakriti, que é Purusha, a consciência pura.

Diferentemente dos adeptos do Samkhya, que entendem que um conhecimento intelectual da verdade vai libertar o homem do sofrimento, ou melhor, da ignorância de sua natureza essencial, o Yoga busca um elemento de força para eliminar na prática, os condicionamentos conscientes e inconscientes que aprisionam a mente humana. É preciso conhecer esses condicionamentos e controlar os estados mentais. Para isso, é necessária a prática do domínio da mente, acendendo o fogo transmutador do esforço, do desapego, da disciplina e da persistência, contidos nos preceitos éticos do Yoga.

“O fogo do Yoga queima rápida e completamente essa prisão, que constitui o mal. Dele provém o conhecimento claro, imediatamente realizador do nirvana.” (Içvara-Gita, XI,2)

Samkhya e Yoga se complementam como afirma o Senhor Krishna, no Bagavad-Gita: “O estado obtido pelos samkhyas também é alcançado pelos yogues. Aquele que vê o Samkhya e o Yoga como uma só coisa, vê realmente.” (V, 5)

Ao longo dos séculos, o Yoga foi praticado enquanto uma disciplina introspectiva, de meditação e de rituais diversos, como apresentado nos Vedas – tratados sagrados da Índia, de mais de cinco mil anos. Dois mil anos depois, vieram os Upanishads interpretando e esclarecendo os Vedas, e apresentando ensinamentos que deram origem a uma verdadeira tecnologia da consciência. A meditação, então, tornou-se a principal prática para se obter a iluminação. Posteriormente, esses ensinamentos deram origem a muitas outras práticas e métodos, que os mestres que os criaram, começaram a classificá-los como diferentes escolas do Yoga. Essa multiplicidade do Yoga não deixou de ter como objetivo único, a libertação.

Dessas diversas linhas, seis ocuparam lugar de destaque na tradição indiana: o Raja Yoga, o Hatha Yoga, o Jnana Yoga, o Karma Yoga, o Bhakti Yoga e o Mantra Yoga. Intimamente lidados ao Hatha Yoga, estão o Kundalini Yoga, o Laya Yoga e o Tantra Yoga.

Adaptando-se às transformações socioculturais, outros Yogas surgiram e continuam surgindo, como o Yoga Integral de Sri Aurobindo e correntes modernas do Hatha Yoga, dos mestres Iyengar e Patabi Jois.

George Feuerstein (1998) explica:

“Se compararmos o Yoga a uma roda de muitos raios, os raios representam as diversas escolas ou movimentos do Yoga; o aro simboliza as exigências morais comuns a todos os tipos de Yoga; e o cubo figura a experiência do êxtase pelo qual o praticante do Yoga transcende não só a sua própria consciência limitada, como também a existência cósmica como um todo. Todas as formas autênticas de Yoga são caminhos que levam a um único centro, a Realidade transcendente, que pode ser definida de modos diferentes pelas diversas escolas.”

Historicamente, o Yoga Clássico de Patanjali, também identificado por Raja Yoga, é o mais influente da tradição do Yoga. Esse era o Yoga dos sannyasins, ou renunciantes – aqueles que se retiravam da vida em sociedade e dedicavam toda a sua vida às práticas do Yoga. Ensina como concentrar a mente, dominar seus movimentos, e encontrar, na profunda serenidade da consciência, a verdadeira natureza espiritual do ser humano, transcendendo para o que é divino, pleno e essencial. Hoje, esse Yoga é praticado por todos os yogues, como base e fundamentação das outras escolas.

Para o homem do mundo, engajado na sociedade, há o Karma Yoga, Yoga da ação desinteressada. O segredo ensinado por essa escola, é a atitude de reverência diante do dever e frente a qualquer forma de trabalho ou ação. O adepto desse sistema aprende a oferecer os frutos de suas ações a Deus. Procura se desapegar dos resultados de suas ações, trabalha oferecendo de si o melhor que pode, assim se purificando, se transformando, até alcançar a libertação.

“A essência integral deste ensinamento é que deveis trabalhar como senhor, não como escravo. Trabalhar incessantemente, mas não fazer trabalho de escravo. Trabalhai através da liberdade! Trabalhai através do amor.” (l972, Vivekananda)

Para o ser humano que apresenta em sua natureza um forte aspecto emocional, existe o caminho da devoção – o Bhakti Yoga. A força deste Yoga é o poder transcendente do amor. Aqui, a Realidade transcendente é concebida como um Ser Supremo, uma Divindade Personificada, com a qual o adepto busca a comunhão, num relacionamento de entrega e devoção. O Bhakti Yoga é, portanto o caminho da dedicação amorosa ao Divino, do apego ao Senhor. Essa forma de apego a uma entidade sagrada, ao invés de aprisionar o ego humano liberta-o para uma experiência maior, pois o unifica com o Divino.

Citando novamente Swami Vivekananda (1972):

No Bhakti Yoga o segredo é saber que as várias paixões, sentimentos e emoções do coração humano, não são errados em si mesmos; apenas devem ser cuidadosamente controlados e receber uma condição superior de existência. A direção mais elevada é a que nos leva a Deus; toda outra direção é inferior.”

O Jnana Yoga é um caminho que se fundamenta sobre o discernimento e a discriminação. Essas habilidades ajudarão os adeptos abolirem a ignorância espiritual de tomar por permanente aquilo que é efêmero, o ilusório pelo real, o que é humano pelo que é divino e o sofrimento por felicidade. Essa ignorância leva o ser humano a confusão mental, um terreno fértil de todos os males.

Para ingressar nesta escola, os requisitos que o indivíduo naturalmente deve possuir são: acuidade intelectual, poder de análise, raciocínio e desejo de conhecimento, tanto autoconhecimento, como o conhecimento das escrituras e princípios espirituais. O conhecimento é a força libertadora que conduz o praticante à sabedoria, pois é ele que releva a verdadeira natureza de tudo.

“O jnane diz: a mente não existe, nem o corpo. Sua meditação, portanto, é negativa. Ele nega tudo, e o que fica é o Eu. O jnane deseja arrancar o universo do Eu pela mera força da análise. O jnane procura arrancar-se ao seu aprisionamento da matéria pela força da convicção intelectual. Este é o caminho negativo – o neti, neti – isto não, isto não.” (l972, Vivekananda)

Esses Yogas – Jnana, Bhakti e Karma – tendo como base o Raja, são interligados. Isso é belissimamente ilustrado no Bagavad-Gita, pelo personagem Arjuna, um príncipe que vai para a ação, a luta para defender seu reino do ataque das forças maléficas, de forma reverente, com ética e buscando a sabedoria, assentado na fé e no amor que o liga ao deus Krishna, e que o conduz até a vitória.

O Mantra Yoga é um tipo de Yoga que lança mão dos sons sagrados e de sua repetição, para concentrar a mente e transcender estados comuns de consciência. O mantra principal é o Om, que simboliza a vibração do Absoluto, o início de toda a criação.

O Kundalini Yoga trabalha com o despertar da força espiritual adormecida no centro energético inferior de cada ser humano, a kundalini, representada por uma serpente enrolada dormindo, na base da coluna vertebral. No estado de êxtase, esta serpente acorda e ilumina todos os centros de energia até o alto da cabeça. Todo o Hatha Yoga visa esse despertar.

O Laya Yoga utiliza meditações e visualizações com o objetivo de dissolver tudo que não é de fato real e verdadeiro na consciência do ser humano.

O Tantra é um Yoga que surge mais tarde, no primeiro milênio da era Cristã, com uma nova proposta de espiritualidade e fazendo culto ao aspecto feminino da divindade. Suas práticas são essencialmente de transmutação das energias, que correspondem aos diversos níveis de consciência, no praticante. Aproveita todo o conhecimento, advindo do Yoga, do corpo sutil, os canais de energia e os centros vitais, para manipulá-los com as técnicas do Hatha e Mantra Yoga, a favor da iluminação. Faz um retorno aos rituais, ao desenvolvimento dos poderes do yogue e da transmutação da poderosa energia sexual em energia espiritual. Torna a prática yogue acessível para muitas pessoas, por isso é considerado um Yoga mais democrático.

As diversas linhas do Hatha Yoga, bem como suas derivações autênticas, isto é, aquelas formuladas por verdadeiros mestres e que seguem os princípios dessa filosofia milenar, têm como objetivo a mesma transcendência do ego humano para o Eu Divino dos outros Yogas, mas com uma tecnologia psicoespiritual diferenciada. Ela toma o corpo físico e o energético como base, torna-os vigorosos, fortes, espiritualiza-os, preparando o ser humano para vivenciar a ampliação de seu estado de consciência, ou seja, suportar em seu sistema, a iluminação. Isto é conseguido através de posturas psicofísicas, exercícios respiratórios que controlam as correntes energéticas, purificações orgânicas profundas, gestos corporais que alteram estados mentais, abstração, concentração e meditação.

“Através das posturas eliminam-se as doenças; através do controle da respiração, expiam-se as transgressões; através do recolhimento dos sentidos, o yogue se liberta de todas as modificações mentais.” (Goraksha Paddahat, 2.11).

Se, como foi visto acima, Samkhya e Yoga se complementam como teoria e prática, o Hatha e o Raja Yoga também se apóiam, como base ético-filosófica e prática, método e objetivo. Esses sistemas integrados impedem que o Hatha Yoga se transforme num simples e pobre culto ao corpo físico e, portanto uma prática de inflação do ego humano.

“O sucesso do Yoga depende de esforço, determinação destemida, audácia, conhecimento discriminativo, perseverança, fé (nos ensinamentos do mestre) e afastamento de toda companhia supérflua.” (Hatha Yoga Pradipika, 1.16).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Feuerstein, G. A Tradição do Yoga – História, Literatura, Filosofia e Prática. São Paulo, 2001, Editora Pensamento-Cultrix Ltda.

Michael, T. O Yoga. Rio de Janeiro, 1976, Zahar Editores.

Vivekananda, S. Quatro Yogas de Auto-Realização. São Paulo, 1972, Editora Pensamento.

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