OS OBJETIVOS DA VIDA SEGUNDO O HINDUÍSMO

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O Hinduísmo, a mais antiga religião do mundo e uma das que agrega maior número de adeptos, tem como característica a preocupação de orientar seus seguidores em muitos aspectos de suas vidas. Desde o período védico da Índia há mais de 7.000 anos, os indianos se importam com a saúde de seus corpos, com a qualidade de suas mentes concentradas e calmas e com a integração das suas almas individuais com a alma universal ou cósmica.

O Hinduísmo deriva dos Vedas – os mais antigos tratados sagrados da humanidade. Estes foram atualizados com os textos dos Upanishads há 4.000 anos e deram origem a uma autêntica tecnologia espiritual conhecida por Yoga, integrando corpo e mente.

O Hinduísmo não diferencia filosofia de religião como fazemos no ocidente. A própria língua sânscrita não tem uma palavra para definir filosofia, nem religião. O que mais se aproxima da tradução de filosofia é investigação filosófica ou disciplina de conhecimento da verdade e de religião é lei ou norma. “A religião hindu é chamada sanathana dharma (lei eterna), que corresponde à noção ocidental de philosophia perennis” (Feuerstein, 2001).

Em relação às metas da vida, o hindu (*) é orientado a observar quatro temas considerados aspirações legítimas de todo ser humano, nos quatro períodos de sua vida. Assim, fala-se em quatro objetivos humanos ou Purusharthas.

No primeiro período da vida, que vai desde o nascimento até a idade adulta, com 20 ou 25 anos, ele busca introjetar o Dharma. Dharma é um conceito ligado à Lei Universal e à Ordem Cósmica. É uma fase da vida em que o indivíduo deve aprender a ser ético, incorporar a moral a favor do bem comum e aceitar as leis sociais. Além disso, ele é estimulado a descobrir seus talentos internos e sua vocação ou dom. O mestre yogue Iyengar (2001) explica essa orientação quando afirma que “sem o Dharma ou respeito pelas obrigações sociais e morais, é impossível a evolução espiritual”.

É importante que se busque a vocação no início da vida, pois é a partir dessa revelação que o hindu vai direcionar sua vida pessoal e profissional. É igualmente interessante pensar que ao ser orientado a encontrar sua vocação, o adepto do Hinduísmo, terá que mergulhar no seu mundo interno, procurar se conhecer, refletir acerca de si próprio e conectar seus desejos profundos, suas possibilidades, disponibilidades e mesmo suas limitações. Talvez seja essa maneira de educar e orientar os jovens, que torne o povo hindu mais introspectivo, centrado e assertivo que os ocidentais.

Em posse da aceitação das leis éticas e de seus talentos internos, o indivíduo é orientado, no seu segundo período de vida, a buscar a prosperidade e a desenvolver autonomia para sua subsistência. Este é o segundo objetivo da vida do hindu denominado Artha. “Não é uma questão de adquirir fortuna, mas de ganhar o suficiente para manter o corpo em boa saúde e livre de preocupações” (Iyengar, 2001).

Essa fase vai até os 40 ou 50 anos e o hindu tem como meta ficar independente de sua família de origem e constituir sua própria família, se assim o desejar. Esse período também vai contribuir para seu desenvolvimento espiritual, na medida em que ele vivenciará muitas e desafiadoras experiências. “Essa fase propicia a experiência do amor e da felicidade humana, e prepara o espírito, por meio do sentimento de fraternidade que se desenvolve a partir da amizade e da compaixão, para o contato com o amor divino” (Iyengar, 2001).

Vale aqui atentar para o fato de que a prosperidade no Hinduísmo não é vergonha, mas sim mérito e virtude, pois conduz o ser humano ao bem-estar material, base de um possível bem-estar psico-espiritual.

No terceiro período da vida hindu, em que o indivíduo está entre seus 45 e 60 ou 65 anos, a aspiração é pelo prazer e felicidade, Kama. Esse é o desejo pelo gozo dos prazeres existenciais, sinônimo de saúde física, mente tranqüila e reconhecimento do corpo como templo do espírito, que a partir deste período deverá ser buscado para uma experiência de auto-realização ou transcendência.

É uma fase da vida em que há uma renúncia verdadeira e sincera dos prazeres externos ou mundanos. Novamente, a vivência do hindu volta-se mais para o interno e essencial.

Essa fase tem seu apogeu em Moksha, o quarto período, em que o indivíduo se encontra no final de sua existência, preparando-se para a morte. A aspiração legítima e comum aos hindus é alcançar um estado livre da escravidão de tudo que se apresenta como efêmero ou transitório.

Finalmente o indivíduo compreende que o poder, o conhecimento racional, a riqueza, a beleza ou o dinheiro não conduzem à liberdade. Ao se desapegar desses bens mundanos e temporais, o hindu adere ainda mais à realização da fusão de sua alma individual com a alma divina e cósmica.

Assim sua jornada na vida termina, cumprindo as aspirações básicas e inerentes a um ser humano espiritualizado.

(*) Hindu é o adepto do Hinduísmo de qualquer parte do planeta. Indiano é o povo originário da Índia, que pode ser católico, mulçumano, jainista, etc.

 

 

 

 

Referências Bibliográficas:

B.K.S. Iyengar, A Árvore do Yoga, Globo, São Paulo, 2001.

Georg Feuerstein, A Tradição do Yoga, Pensamento, São Paulo, 2001.

 

 

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