PRANAYAMA

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Esta foi uma palestra proferida pelo indiano Shrikrishna Bhirshan Tengshe

no II Fórum de Saúde Social, evento que aconteceu na FAU/ USP da cidade de São Paulo em outubro de 2005, transcrita das anotações pessoais de Lucia Maria de Oliveira Nabão.

 

            Quando se fala em Yoga sempre nos remetemos aos escritos sagrados dos Vedas. Os Vedas foram escritos há milhares de anos – 2000 anos a.C., os mantras que consistiam os Vedas eram sagrados. Os Vedas eram a sala do tesouro dos ensinamentos preciosos da Índia. Eles foram se desenvolvendo com o tempo. No Rig Veda há uma seqüência de mantras muito bonita. Fala de um grande sábio que está tendo uma experiência da presença divina que é muito ativa e dinâmica, essa presença divina é chamada de Prana ou Vata (aquilo que promove algum movimento).

O Rig Veda é dividido em 10 livros. Esse poema é o 10o livro, poema 186. Esse poema começa fazendo uma reverência à Vata com um grande criador: “Através da respiração você nos trás a cura, trás conforto ao nosso coração e através da respiração, você nos trás vida longa. Oh Vata! Você é nosso pai, amigo, irmão. Ajude-nos a aproveitar a vida em toda sua extensão. Através da respiração nos dê a esperança da imortalidade”.

            A primeira coisa que temos que lembrar quando se fala em Pranayama é do alento que vem de fora para dentro. Não é só manipular as narinas ou fazer apnéia. Quando eu inspiro, todo o universo esta respirando em mim. No processo inicial dos Pranayamas temos que aprender a manipular a respiração. Como por exemplo: se alguém se afogou temos que saber fazer uma respiração artificial – respiração boca-a-boca, em que uma pessoa sopra o ar para dentro da outra pessoa e essa recebe o ar que vem da primeira pessoa. Da mesma forma, quando eu estou respirando todo o universo está respirando em mim.

            Então Pranayama não tem só a ver com retenção interna, mas com a troca de energia com o universo. Normalmente, criamos a ilusão de que podemos nos isolar do mundo de fora. Mas na verdade, o que está fora e o que está dentro estão se relacionando. Pranayama promove um contato íntimo com o que está fora e dentro, devemos nos lembrar sempre disso. Precisamos estar conectados com o Todo. O Pranayama é uma ponte do externo com o interno. Além disso, é uma forma de percepção do que esta dentro. Dentro de mim acontecem muitas coisas ao mesmo tempo, meus músculos se mexem, minha mão se mexe, meu sistema digestivo está funcionando, assim como meu coração, meus rins, meus pulmões, todos estão operando dentro do meu corpo. E outras sensações estão acontecendo no meu cérebro. Tenho consciência, por exemplo, de todos vocês que estão aqui (na platéia). E estou feliz! Mas poderia estar com medo. Então, na mente há esse monte de coisas com as quais nós reagimos. Seja a atividade muscular, a fisiológica, a mental, todas elas são promovidas por Pranayama. É como o arco-íris que tem muitas cores, do vermelho ao violeta, mas se você quiser traçar uma linha divisória entre as cores é difícil.

            Pranayama é uma atividade vital que acontece em mim e que me permite viver. Dentre todas, a respiração é a principal, pois ela liga o corpo à mente. Ela é influenciada pelo que acontece no corpo e no cérebro.

            Assim que eu começo a correr, minha respiração muda. O que acontece com meu corpo afeta minha respiração imediatamente, não só pelo aumento da atividade, mas pela diminuição também.

            Para respirar preciso da movimentação livre do abdômen e do tórax. Imagine se fico 10 horas na frente do computador e que a posição corporal me impeça de respirar bem!

            A mente também afeta a respiração. Eu estou feliz olhando para vocês, mas não posso ficar feliz ou gargalhar sem respirar.

            Se eu fico bravo, eu inspiro profundamente. Quando chego em casa e posso relaxar, então faço uma inspiração e expiração profundas.

            Tudo o que acontece com o corpo afeta a respiração e tudo que acontece com a mente também afeta a respiração.

            E se você está cansado, a respiração também se afeta.

            Mas a via da respiração é de mão dupla. Desde tempos atrás se começou a perceber que a manipulação da respiração influencia o corpo e a mente. Torne-se amigo da respiração, compreenda como a respiração acontece e você vai perceber como as forcas vitais acontecem dentro de você. E vai poder controlá-las. Assim, em Kapalabati (respiração do cérebro brilhante) você pode tornar a respiração rápida. Em Ujjay (respiração ruidosa) ou Bramari (respiração da abelha) a respiração se acalma.

            No Hatha Yoga Pradipika (texto clássico de Hatha Yoga) tem-se que “Aquele que é capaz de regular a respiração, é capaz de regular a mente”. É por isso que devemos fazer Pranayama.

            Então o objetivo do Pranayama é desenvolver um estado interno de mais silêncio mental.

            Há três tipos de práticas possíveis com Pranayama:

A primeira focaliza a atenção na atividade respiratória enquanto ela acontece naturalmente, sem influenciá-la.

Na segunda, o praticante interfere na respiração e a acompanha mentalmente. Influencia no ritmo. São três fases da respiração: a inspiração, a expiração e os pontos de mudança do movimento, isto é, a retenção de pulmões cheios e a pausa de pulmões vazios. Pode-se influenciar nessas fases, aumentando a inspiração, aumentando a expiração, aumentando a retenção de pulmões cheios ou aumentando a pausa sem ar. Há uma variedade enorme de coisas que possam influenciar a respiração. Como uma dança, danço com dois pés e duas mãos, mas crio uma quantidade enorme de variações. O Pranayama é um padrão diferente de dança que se faz com a respiração.

Na terceira modalidade, o Pranayama se torna silencioso – “o silencio da respiração.”.

Observando a tradição há duas correntes de pranayama que se unem num ponto. Algumas vezes a ênfase é no fluxo natural, outras vezes é na interferência.

            Lembrando de uma Upanishad (texto do período pós-védico), há uma referência particular que vai enumerando as sensações do corpo e dizendo qual é a mais importante. Diz: “No caminho espiritual há uma única prática mais importante: Prana e Apana, a inspiração e a expiração. Flua com a inspiração e a expire com o seguinte desejo: Permita que o mal não me atinja”.

Dentro de mim há modificações acontecendo o tempo todo e a maior parte do tempo não estou consciente disso, mas há algo dentro de mim que não muda, é imutável. Quando trabalho com a respiração posso ir cada vez mais próximo dessa essência, dessa presença eterna. Isso não tem a ver com longevidade. É um conceito que transcende o conceito de tempo. Fluindo com a respiração, vamos poder acessar essa presença divina dentro de nós.

            Por volta de 500 anos a.C. era o tempo do grande Buda, época importante na Índia. Quem já praticou meditação budista observa que se segue a consciência da inspiração e expiração. Mantém a mente consciente constantemente desse processo.

Depois, 200 anos a.C., foi a época do grande Patanjali que conseguiu em 195 frases curtas, descrever todo o Yoga. No 2o capítulo há cinco sutras sobre Pranayama e em outros dois pontos Patanjali também fala de Pranayama: “Desenvolver um estado tranqüilo da mente – expirar e manter o alento fora (I, 34)”. Ele não enfatiza inspiração, retenção de pulmões cheios e expiração.

            No 3o capítulo ele volta a falar de Pranayama, quando fala em SAMANA. Patanjali defende as diferentes formas de forçar a mente: concentração, meditação e samadhi ou auto-realização. Fala para focalizar a atenção nas vias aéreas: traquéia e brônquios para desenvolver a concentração mental. Ele diz: “Acompanha a respiração que sua mente se estabilizará”.

Em Shancaracharya, na época do Vendanta, no século XVIII, temos uma tradição cuja ênfase também era em prestar atenção na respiração. Adiciona-se um outro aspecto, a recitação do mantra SO – HAM (eu sou). Esse mantra era praticado junto com o Pranayama, mentalizando SO na inspiração e HAM na expiração.

Você pode experienciar esta prática:

Sinta o toque do ar na ponta do nariz, ou na traquéia, observe sua própria respiração. Ela esta fluindo de fora para dentro e depois flui de dentro para fora. Rodeando seu corpo há um grande oceano de energia. Vá para dentro de si e sinta que você existe. Sinta seu corpo tocando o chão. Você pode sentir o peso do seu corpo com seus glúteos no chão, sentir calor ou frio nas mãos, no seu pescoço e rosto.

            Esse alento que vem do fora para dentro lhe mantém consciente de seu corpo e de onde está. É maravilhoso sentir isso!

            Você pode sentir a perspiração nas suas narinas, na sua garganta, nos seus brônquios.

            Acompanhe: Estou consciente do ar entrando e saindo de dentro de mim. Pergunto-me: “O que sou eu?” “O que é que existe dentro de mim que está vivenciando essa experiência? O que dentro de mim vivencia o fluxo de ar?”.

            O que quer que seja que você sente isso não pode ser descrito, é isso que eu sou, eu sou isso, isso é minha essência mais verdadeira. SO-HAM.

            Em cada respiração, vivencie essa unidade que está aí, fique assim por alguns minutos.

            Depois, gentilmente, sinta seu corpo, o meio ambiente, sua respiração. E gentilmente abra os olhos.

            O simples fato de estarmos atento à respiração nos leva ao contato com o interior, pois muitas vezes estamos conectando o essencial em nós.

            Nos sutras 52 e 53 do capítulo II de Patanjali, encontramos que praticando Pranayama o escuro que cobre a luz interna diminui, a luz começa a aparecer. No nosso cotidiano há tantas coberturas da nossa luz interna!

            Quando posso conectar a essência interna pelo Pranayama, toco algo importante. O primeiro passo para isso é dharana (concentração), mente concentrada e no estado de quietude.

            O objetivo do Pranayama não são as técnicas, não é o treino respiratório. Pranayama tem um efeito terapêutico muito importante, aumenta as histaminas, aumenta a resistência, a capacidade respiratória, fortalece o sistema imunológico, a saúde vai melhorando, mas isso não é tudo. Pranayama é um instrumento por meio do qual nós podemos nos experimentar internamente. Esse é o principal objetivo do Pranayama. Então devemos observar: “Será que isso que estou praticando torna minha mente mais calma e ao mesmo tempo desperta, consciente, pronta para agir quando necessário, mas que não desperdiça energia reagindo desnecessariamente e emocionalmente a tudo a minha volta?”.

E o último efeito deveria ser o de estar integrado a tudo, conectado ao universo para desenvolver internamente a boa-vontade e a harmonia.

Que cada um de nós possamos nos tornar um centro de harmonia, um mensageiro do espírito divino!

            Pranayama é como esse mensageiro que trás o amor de Deus através de nós.

            Essencialmente, Pranayama é o processo de inspiração do universo e de expiração para o universo.

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