PSICOTERAPIA: PARA QUÊ? PARA QUEM?

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Para discorrer sobre a prática da psicoterapia, é preciso, essencialmente, pensar no ser humano, um ser com a complexidade de possibilidades e necessidades da ordem do bio-psico-socio-espiritual. E, contextualizar esse ser no cenário do mundo com características da modernidade e da pós-modernidade, numa época de muitas e rápidas transformações, solicitando dele, novas aberturas, novos recursos, novos patamares de sustentação.

O indivíduo dessa época convive com excesso de informações, assiste às guerras e ao sofrimento humano, pela televisão, ao vivo, via satélite; está inserido na cultura do individualismo, em que o estético e o supérfluo superam o ético e o individual está acima do coletivo. Há também a valorização da perfeição, retirando o direito do ser humano se diferenciar, envelhecer, entristecer, aprisionando-o num ideal padronizado, rígido e artificial. As pesquisas indicam um índice de 20% da população brasileira e americana, fazendo uso de antidepressivos, já que não se encontra lugar para a dor humana. Há um aumento da violência social e urbana, há uma quebra nas tradições, como a família e a igreja cristã, que por séculos ditaram as normas e os valores a serem seguidos. A ciência se afirmou com seu positivismo, expulsando qualquer pensamento religioso ou espiritualista, como se a busca pelo sagrado não fizesse parte das necessidades humanas. O trabalho foi fragmentado em especializações, funções e pequenos papéis, enfraquecendo a identidade do trabalhador, que, juntamente com o apelo pela produção e pelo ganho financeiro, deixou de valorizar a realização pessoal e profissional. A economia passou a ser parte da vida diária do ser humano, preocupado em consumir no mercado capitalista e materialista dos eletroeletrônicos de última (e eterna) nova geração.

Resta perguntar, como nós, seres humanos deste caótico mundo em transformação, nos sentimos? Como desempenhamos nossos papéis? Como processamos tantas novidades? Como estamos vivendo? Qual é o apoio que estamos conseguindo? Onde buscamos segurança, referência? Como estão nossas relações interpessoais, nesse mundo extremamente competitivo? Como estamos no nível intrapsíquico? E ainda, o que estamos passando para as gerações que estão nascendo agora?

Neste panorama de confusão, de mudança de paradigmas, é natural que a alma humana, que reconhece sua subjetividade e singularidade, queira buscar apoio. Não aquele apoio importado, do pacote pronto, de regras e normas definidas por outrem, mas algo que lhe faça sentido, que possa ser construído no espaço único de seu interior. Pois essa é a possibilidade que se descortina aos indivíduos dessa época: a opção dele se parecer consigo mesmo, ser somente o que ele é, tornar-se autêntico, isso, se ele desafiar as correntes que ditam os comportamentos atuais.

A psicoterapia parece ter preenchido esse espaço, se propondo ser um lugar que autoriza o ser humano se descobrir como ele é. É na psicoterapia, que a alma humana, com seus afetos, suas pulsões, desejos, medos, necessidades, possibilidades, sua gama imensa de sentimentos e emoções, busca existência, continência. Numa relação interpessoal íntima, isenta o mais possível de julgamento moral, com características terapêuticas, isto é, de cura, de encontro de selfs, de transformação pelo conhecimento dos processos intrínsecos, inconscientes, velados, disfarçados e escondidos. A psicoterapia se oferece para o sujeito que quer ser agente de sua própria história, que quer construir livremente seu destino e não apenas atuá-lo como um simples personagem autômato, muitas vezes, reeditando sua história infantil.

A psicoterapia é uma relação entre duas pessoas, com interesse genuíno da parte do psicoterapeuta para com o paciente. É um laboratório dos afetos, em que muitos sentimentos podem vir à tona, ser nomeados, reconhecidos, encontrar continência, para então, ser elaborados. É um campo de reflexão de idéias, pensamentos, crenças, para que a mente possa se abrir para novos horizontes, encontrar outros sentidos, olhar de outro ângulo. É troca, é construção e demolição, é encontro de subjetividades para transformação e crescimento. É área de acolhimento, contorno, mas também limites, que assegura a identidade do ser humano e lhe confere responsabilidade, bem como liberdade.

A terapia, é um espaço para ser, para sentir, para chorar e rir, para sonhar, para se frustrar e ter raiva, para comemorar as conquistas e temer o novo, para se entristecer, pelo fato da existência humana, muitas vezes, ser dura, difícil, exigente. É um campo para deixar de ser super-homem ou supermulher, e apenas ser o que se é verdadeiramente: humano. Mas também é o reconhecimento que, conquistar algo demanda esforço, luta, e que, às vezes, o que nos falta, é arregaçar as mangas e ir buscar o objeto do nosso desejo. Então, é reconhecer a criança dentro de cada um, e ter dentro de nós, bem construído, um adulto que acompanhe e acalme as inseguranças dessa criança. É ainda, substituir conteúdos negativos do passado, construídos na vida infantil, por traumas e experiências não adequadas ao psiquismo da criança, é reparar laços e vínculos, pela introjeção de um relacionamento afetivo saudável, que se estabelece entre o terapeuta e o paciente. É ter alguém do lado, com quem contar, confiar, perguntar, se orientar. Não que o terapeuta não possua seus limites, mas seu instrumento de trabalho é, sobretudo, a sua disponibilidade para o outro.

O psicoterapeuta, por sua vez, trabalha para que seu paciente possa se descobrir, se revelar, e possa ficar cada vez mais parecido consigo mesmo, autêntico, coerente com sua verdade interna, que possa encontrar apoio em si mesmo, para realizar suas escolhas e levar sua vida com sentido, em posse de seus sentimentos vivos e sua energia vital mais vibrante. Pois, todo ser humano quer ser feliz.

Assim, perguntamos: quem precisa de terapia? Seria benéfico para os indivíduos que tivessem a oportunidade de vivenciar um processo de autoconhecimento transformador como esse?

Há muito que a psicoterapia deixou de ser um tratamento para doentes mentais. Hoje, grande parte das pessoas que chegam aos consultórios dos psicoterapeutas, convivem com angústias, conflitos e bloqueios, de certa forma, parecidos, pois, apesar de singulares na forma de serem vivenciados, são pertinentes ao contexto de vida atual e à própria existência humana. Essas pessoas buscam se fortalecer para se tornarem agentes da própria vida, resgatar alegria, espontaneidade, se apropriar sem culpa de sua sexualidade, querem fluir com a vida e deixar a corrente da vida fluir nelas, sem ter que evitar ficar triste, com raiva ou medo, pois essas são emoções que nascem com o ser humano. Querem ser de verdade, inteiras, humanas e íntegras. Será que felicidade não estaria relacionada a isto? Se a psicoterapia puder ajudar, que seja bem-vinda!

 

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