RELAXAMENTO

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Relaxamento é o resultado do comando da mente consciente para a descontração da musculatura. Tem efeito no físico e no psicológico, levando a pessoa a restabelecer seu estado de homeostase, ou seja, o equilíbrio interno do organismo. No estado de relaxamento o descanso é profundo, podendo superar muitas horas de um sono, quando este não é de boa qualidade. O estado de relaxamento é um estágio intermediário entro o sono e a vigília.

Na área médica e na psicologia o relaxamento foi largamente estudado e utilizado como tratamento auxiliar de diversas patologias e transtornos mentais.

O estudo de Dr. Edmund Jacobson, por volta de 1910, com a ajuda do eletroencefalograma e do eletromiograma possibilitou avaliar a relação direta entre impulso do cérebro e tônus muscular. Ele criou um famoso método chamado de “Relaxamento Progressivo”, que ensina o relaxamento gradativo e de cada parte do corpo. Como ele e na mesma época, Schultz, um médico neurologista alemão, organizou um método chamado “Treinamento Autógeno” inspirado nas tradições orientais e técnicas de sensibilização.

Os psicólogos da abordagem cognitivo-comportamental utilizam o relaxamento como recurso de tratamento com seus pacientes, obtendo grande ajuda.

Também os estudiosos da Psicossomática, estudando a relação entre corpo e mente em muitas doenças, vem indicando o relaxamento como forma de amenizar os sintomas dessas desordens, já que o relaxamento tanto atua no soma (corpo) como na mente.

O relaxamento tem sua origem nos rituais de povos primitivos, que por meio desta técnica entravam em estado alterado de consciência para se curar ou para obter experiências místicas e assim buscar a cura de um membro da tribo, como faziam os pajés e xamãs.

No Yoga o relaxamento, como todas as demais práticas, tem como objetivo principal, ser um fator de controle e de calma da mente. Essa milenar filosofia entende que é na calma da mente que a cura e as mais importantes transformações a serviço da evolução do ser humano podem acontecer. Patanjali, o codificador do Yoga, enumera os oito passos para se obter o estado de auto-realização ou samadhi, o objetivo desta filosofia prática. Coloca aquilo que é experimentado no relaxamento como prathiahara o abstração dos sentidos em quinto lugar, após listar as condutas éticas (yamas e nyamas), os asanas (posturas psicofísicas) e os pranayamas (controle e expansão da energia vital por meio da respiração).

Literalmente, esse yogue refere que em prathiahara “os sentidos se voltam para dentro, em direção à sua natureza autêntica.” (Patanjali, II, 54). Esse recolhimento obtido no relaxamento é fundamental para preparar o praticante do Yoga para os passos seguintes: a concentração e a meditação e o estado de consciência cósmica ou samadhi.

Antonio Blay (1977), psicólogo espanhol estudioso do Yoga, refere que “toda tensão emocional traduz-se numa contração muscular”. Relata que “toda representação psíquica conservada dentro da mente, expressa-se em forma orgânica numa contração muscular permanente , com a correspondente alteração das diversas funções fisiológicas: respiração, digestão, eliminação, coordenação motora,etc. Os conflitos psíquicos se expressam, assim, através do corpo, da mesma forma pela qual se expressam com freqüência através da mente, perturbando seu funcionamento normal”. Conclui esse pensamento dizendo que “mediante o relaxamento muscular consciente conseguem-se desfazer todas estas contrações, mesmo as inconscientes, de modo lento, porém seguro”. Quando essas tensões do corpo vão se desfazendo, desaparecem também as tensões de ordem emocional e a pessoa passa a conviver com um estado de tranqüilidade mental.

Hermógenes, um dos introdutores do Yoga no Brasil, refere: “Chama-se relaxamento o estado diametralmente oposto à tensão; ou seja, a ausência de todas as contrações. Estando os músculos relaxados, os nervos que os comandam não transmitem mensagem alguma. Inativos, como fios elétricos desligados, não recebem nem deixam passar corrente, permitindo o repouso dos centros. Assim é que não pode haver reflexo nervoso numa parte do corpo onde o relaxamento se fez, da mesma forma que é impossível ouvir o rádio que esteja desligado”.

O relaxamento, portanto, apresenta inúmeros benefícios, tais como: economia da energia gasta nas tensões do corpo, que ao ser liberada promove uma melhora no funcionamento do organismo; tendência a manter um bom tônus muscular; as ondas cerebrais entram em alpha propiciando o restabelecimento do cérebro e suas funções; melhora do equilíbrio metabólico; alivio do estresse que pode agravar as dores crônicas; estabilização da pressão arterial, combate ao estresse diário, diminuição dos níveis de ansiedade, cultivo da vida interior, reeducação e reprogramação da mente, entre outros.

Filosoficamente, os yogues ensinam que o relaxamento é a ausência de qualquer forma de resistência. Sabe-se que em todas as formas de julgamento existe resistência. Orientam seus discípulos a deixarem os fatos serem fatos, sem qualquer julgamento, sem qualquer forma de resistência, para então obterem o relaxamento. Apregoam o cultivo da equanimidade, a capacidade de se manter a mesma distância daquilo que se considera bom ou confortável e daquilo que a mente classifica como ruim ou desconfortável. Para eles, as experiências da vida podem ser interpretadas como fontes de aprendizado e crescimento do ser.

Em algumas escolas de Yoga o relaxamento é denominado yoganidra, o estado de sono consciente. Outras trabalham com a respiração abdominal ou o prolongamento da fase da expiração para induzir o relaxamento. Muitas utilizam imagens mentais, música suave, cores e luzes. Em todas, a busca é pelo relaxamento integral, englobando os aspectos físico, emocional e mental, pois como já foi dito, ele prepara o indivíduo para as praticas espirituais do Yoga.

Para que haja uma boa resposta de relaxamento, alguns cuidados devem ser observados: roupa folgada, posição confortável como a shavasana ou postura do cadáver dorsal, lateral ou frontal, local tranqüilo e sem muitos estímulos de luzes e sons, uma atitude passiva e a permissão interna para o relaxamento, que pode ser uma fonte de prazer.

Vale lembrar que tudo no Yoga é um processo e que a prática é o melhor aliado. Assim, mesmo aqueles que sentem dificuldade em relaxar, com o tempo e a prática dos outros elementos do Yoga, como os asanas e os pranayamas, conquistarão a vivência do relaxamento. Há um provérbio yogue que diz que “não se abre uma flor com os dedos”.

Concluindo, num mundo de tantos estímulos externos e mentes conturbadas, o relaxamento pode ser um refrescante e delicioso oásis a favor da saúde do ser humano.

 

 

Referências Bibliográficas:

BlLAY, A.1997. Fundamento e Técnica do Hatha-Yoga, São Paulo: Ed. Loyola.

HERMÓGENES, J. Autoperfeição com o Hatha Yoga, Rio de Janeiro: Ed. Record.

 

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