RESPIRAÇÃO: FONTE DA VIDA

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“Como o vento leva a fumaça e as impurezas da atmosfera, o pranayama retira as impurezas do corpo e da mente. Então, diz Patanjali, o Fogo Divino interior brilha em sua glória e a mente fica apta à concentração e à meditação” (Yogasutras, II: 52 e 53).

RESPIRAÇÃO E PRANAYAMA: CONCEITO DE PRANA

 

            A tradição yogue dá uma importância fundamental à respiração por entender que esta seja responsável pelo equilíbrio (ou desequilíbrio) dos vários níveis da natureza do ser: físico, prânico ou energético, mental, emocional e espiritual.

            A respiração vista pela ciência ocidental é o ato fisiológico através do qual o ar penetra nos pulmões, é assimilado pelo sangue, que, abastecido de oxigênio, circula pelas artérias e vai alimentar cada uma das células do corpo, todos os tecidos, os órgãos, as glândulas, etc. Depois, cada uma destas células livra-se dos resíduos que produzem e das toxinas, jogando-os para o sangue, que vai se purificar nos pulmões que, por sua vez, eliminam o dióxido de carbono (CO2) e outros gases na expiração.

            A maioria das pessoas tem uma respiração superficial, arrítmica, onde esse processo de alimentação e troca gasosa não se realiza completamente, acarretando desde uma má disposição física até doenças pulmonares e perturbações orgânicas generalizadas. Os pulmões não são ventilados, havendo uma grande quantidade de ar viciado (residual), a oxigenação é diminuída, reduzindo o desempenho celular, o sangue circula empobrecido gerando perdas para a saúde e todo o corpo.

            É por meio da conscientização de um perfeito ato respiratório que o ser humano pode devolver a si mesmo toda esta provisão de oxigênio a que tem direito e ter um corpo digno de ser habitado por esse ser pensante e inteligente que é.

            Dentro do ponto de vista oriental, a respiração é muito mais que um importante ato fisiológico. É por meio deste ato que captamos PRANA. É importante entendermos bem este conceito: PRANA.

            PRANA é a energia vital do Universo. É a força que anima a matéria. Quando se esgota a energia vital de um corpo ele morre. Assim, PRANA é a vida, a vitalidade, aquilo que dinamiza todo o Universo.

            A energia prânica tem caráter semelhante ao da eletricidade, sendo que a primeira é mais sutil e a última é física. Também PRANA tem duas polaridades, como a força positiva e a negativa da corrente elétrica; PRANA tem sua força solar e a lunar. Assim como a eletricidade, PRANA pode ser acumulado, transformado e conduzido. Nós temos em nosso corpo um verdadeiro circuito, com canais por onde o PRANA circula (NADIS) e centros (CHAKRAS), onde ele é armazenado e distribuído. Podemos assim, abastecer e harmonizar pela respiração consciente e voluntária o nosso corpo prânico, ponte entre o corpo físico e os níveis emocional e mental.

            O que se chama de força nervosa é uma das manifestações do PRANA. A vitalidade de uma pessoa, seu magnetismo, sua “força”, são expressões de PRANA. A quantidade de PRANA que um indivíduo contém é sua própria vida.

            Podemos captar o PRANA da atmosfera, especialmente do Sol, e através dos alimentos. O nariz é o principal órgão de captação de PRANA, embora possamos absorvê-lo pela pele e pela língua, por meio da água e dos alimentos.

            PRANAYAMA é o controle da energia vital, através da respiração. É um fator de harmonização de nosso corpo prânico e todo o sistema nervoso autônomo. É a parte do Yoga que trata do domínio das energias vitais mediante a regularização do movimento respiratório.

Quando o movimento respiratório é conseguido perfeitamente, adquiri-se o domínio do funcionamento interno do homem, desenvolvem-se novas faculdades mentais e psíquicas, encaminhando-o para sua experiência com sua natureza espiritual.

AS RESPIRAÇÕES BÁSICAS

Para aprendermos a respirar, devemos considerar todo o aparelho respiratório, desde o nariz até a musculatura diafragmática e abdominal. Para fins didáticos, vamos dividir em três partes o nosso aparelho respiratório. A região abdominal, baixa ou diafragmática, composta pelas partes inferiores dos pulmões (regiões anteriores, laterais e posteriores), o diafragma e alguns músculos abdominais; a região torácica, média ou peitoral, compreendida pelos lóbulos medianos dos pulmões, tórax, costelas e coração (anterior, lateral e posterior); a região sub-clavicular ou alta, parte superior dos pulmões e faringe.

Podemos assim diferenciar três tipos de respirações ou PRANAYAMAS:

Adham Pranayama ou Respiração Baixa, Abdominal: ao inspirar o ar penetra na parte inferior dos pulmões, a diafragma desce e o abdômen se dilata naturalmente; na expiração o abdômen se recolhe, se contrai, o diafragma sobe empurrando o ar dos pulmões para fora. Há um movimento abdominal de dilatação e contração que deve ser natural, sem esforço, sem exagero nem desconforto.

Efeitos: é uma respiração sedante, relaxante, tranqüilizante. Ela massageia o plexo solar, esse centro nervoso-emotivo situado na região da boca do estômago. Produz uma massagem eficaz nos órgãos abdominais, revigorando-os. O movimento do diafragma subindo e descendo contribui para melhorar a circulação sanguínea de todo o corpo.

Use a respiração abdominal sempre que se sentir irritado (a), agitado (a), tenso (a), ou quando quiser se preparar para uma atividade mais calma, um relaxamento, uma meditação, um momento de oração, ou antes de dormir.

Madhyan Pranayama ou Respiração Média ou Torácica: aqui o movimento respiratório é bem lateral, ao inspirar o ar empurra as costelas, que se afastam e se expandem para os lados. Na expiração elas se recolhem. Esta respiração está dissociada da abdominal.

Efeitos: Seu principal efeito é sobre o coração que é massageado e revigorado neste vai e vem da inspiração e da expiração. Ótima para o fortalecimento dos pulmões, alvéolos e brônquios. Indicada para asmáticos e cardíacos.

Adhyam Pranayama ou Respiração Alta ou Sub-Clavicular: trabalha-se com a menor parte dos pulmões, a região sub-clavicular. É uma respiração mais curta, rápida e superficial. Inspira-se sentido o ar encher a parte superior dos pulmões e logo se expira.

Efeitos: Por se tratar de uma respiração mais superficial é cansativa, não traz uma boa oxigenação, por isso não a usamos isoladamente. Ela será usada em conjunto com as outras na execução da respiração completa.

Mahat Yoga Pranayama ou Grande Respiração Yogue ou Respiração Completa: nesta respiração usamos as três partes dos pulmões num movimento único, contínuo, amplo e sempre nesta seqüência: abdominal, torácica e alta; tanto na inspiração como na expiração. Usa-se a expansão máxima dos músculos respiratórios, a maior capacidade pulmonar, coloca-se em ação todo o aparelho respiratório, desatrofiando tudo o que estava sem uso pela respiração normalmente superficial da pessoa destreinada e, sobretudo sem um esforço anormal.

Vamos à técnica: esvazie bem os pulmões, faça descer o diafragma e deixe entrar o ar nos pulmões. Quando o abdômen se dilatar, vá levando o ar para a região torácica, separando as costelas lateralmente e depois preenchendo a região superior dos pulmões, como se levantasse as clavículas. Quando sentir que preencheu por completo os pulmões de ar, expire lentamente, recolhendo primeiro o abdômen, depois a região peitoral e por fim a sub-clavicular. Certifique que os pulmões estejam realmente vazios, para recomeçar nova inspiração.

Efeitos: o intercambio gasoso nos pulmões é perfeito nesta respiração. A grande oxigenação e pranificação obtidas vitalizam o cérebro, tornando-nos mais despertos, vivos mentalmente, dispostos fisicamente e confiantes emocionalmente. Tem todos os efeitos terapêuticos e benefícios das outras respirações, pois as engloba. Todos os pranayamas mais elaborados tomam a respiração completa como base.

É uma respiração ativa, pois fornece grande quantidade de energia vital. Excelente para se usar quando se sentir cansado, debilitado física e mentalmente. Realize conscientemente algumas respirações completas pela manhã diariamente e verá sua vitalidade aumentada, terá mais disposição e vontade de viver.

Seguem aqui alguns requisitos importantes a serem observados em todas as respirações:

Durante toda a inspiração o ar deve penetrar as narinas sempre progressivamente, em um fluxo contínuo, sem esforço, sem desconforto, sem interrupções.

Não deve haver nenhum ruído no processo respiratório, a respiração deve ser essencialmente silenciosa.

Somente comece uma expiração quando sentir ter completado ao máximo a inspiração; e somente tome nova inspiração quando se certificar de haver esvaziado por completo os pulmões.

Antes de qualquer prática respiratória esvazie ao máximo os pulmões, limpando-os do ar residual.

Inspiração e expiração devem ter a mesma duração, o mesmo tempo, a mesma profundidade. Não permita que seu impulso de tomar logo mais ar transforme sua respiração num ato incompleto.

Sua mente e sua atenção devem estar concentradas no ato respiratório, observando cada movimento e o ritmo. Em nenhum momento a respiração dever ser mecânica, mas sim controlada por sua vontade consciente.

A prática diária de respirações básicas é a melhor maneira de se aprimorar esta arte. Seja persistente e prudente, faça tudo enquanto se sentir bem; sentindo qualquer desconforto, pare e descanse. Com o tempo você vai conseguir aumentar o número de respirações controladas diárias e a profundidade de cada uma.

Durante a prática, nenhuma tensão deve ser sentida nos músculos faciais, pescoço, ombros e todo o corpo.

Toda respiração, exceto alguns pranayamas especiais, é feita pelo nariz. A respiração bucal é um lastimável mau hábito de algumas pessoas e prejudicial à saúde em geral.

AS FASES DA RESPIRAÇÃO

A respiração habitual externa só compreende duas fases: inspiração e expiração. Os yogues introduzem mais duas outras fases, e a respiração compreende então quatro fases:

  1. Inspiração
  2. Retenção de pulmões cheios
  3. Expiração
  4. Pausa de pulmões vaziosTambém o PRANA é mais bem assimilado nas retenções de pulmões cheios.
  5. Por meio das retenções e das pausas realiza-se a respiração interna, estimulando-se a respiração celular. Resulta daí uma magnetização do corpo, uma revitalização por processos biológicos de combustão intracelular. A energia liberada será então utilizada em processos psicofisiológicos mais elevados.

Com as quatro fases respiratórias, torna-se possível realizar vários tipos de pranayamas que nascem das modificações das fases.

 

RITMO E EMOÇÃO

 

Por meio da respiração, o ser humano estabelece relação com o mundo exterior, mantém contato permanente com o espaço que o rodeia, num intercâmbio vital de extrema necessidade.

Existe uma estreita relação entre a personalidade profunda ou níveis mais profundos de consciência e a respiração profunda; assim como entre a respiração superficial e a personalidade consciente ou superficial.

O ritmo da respiração, bem como sua profundidade, indica o estado psicológico da pessoa. A respiração irregular, arrítmica, é o resultado de uma mistura de estímulos emocionais e mentais. A respiração rápida relaciona-se com o estado de agitação mental e emocional. Quando estamos tranqüilos, com pouco movimento de imagens mentais, notamos uma respiração lenta e regular.

Numa respiração controlada, num pranayama, podemos imprimir um determinado ritmo e proporção a cada fase respiratória. Os yogues ensinam que modificando deliberadamente o ritmo respiratório, influenciamos todas as funções fisiológicas e psicológicas do ser humano.

O ritmo influencia também a nossa resistência.

 

PENSAMENTO E PRANA

 

Os yogues descobriram que a energia vital pode ser atraída, absorvida e acumulada em determinados pontos do corpo, à nossa vontade, pois o Prana obedece ao pensamento.

O mental pode dirigir voluntariamente e conscientemente a distribuição prânica em todo o corpo, e isso pode ser usado para revitalização de áreas carentes ou debilitadas do corpo, bem como magnetizar nossos centros específicos, os chakras.

Assim, fica comprovada a importância da concentração mental, pois quanto mais concentrados estão os pensamentos em um só objeto, mais força terá a mente, no caso, para atrair e direcionar a energia vital.

Uma prática muito útil e positiva, usando o poder mental e a energia prânica consiste na respiração completa, mentalizando, ao inspirar, uma energia brilhante, clara e luminosa penetrando pelas narinas, levando para o corpo os nutrientes que ele necessita para um bom funcionamento, clareza para a sua mente e tranqüilidade para o seu coração; e na expiração eliminando todas as negatividades, impurezas, toxinas e tensões.

 

 

 

Bibliografia consultada:

Lysebeth, A. V. Pranayama – A Dinâmica da Respiração, Ed. Centro do Livro Brasileiro, Portugal

Lysebeth, A. V. Aprendendo Yoga, Ed. Centro do Livro Brasileiro, Portugal

Blay. A. Fundamento e Técnica do Hatha Yoga, Edições Loyola

Hermógenes, J. Autoperfeição com Hatha Yoga, Ed. Record

Iyengar, B. K. S. Ligth on Yoga, Schoken Books, New York

Anais do IV Congresso Internacional de Professores de Yoga, Bertioga, SP

 

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