VERDADE E CONTENTAMENTO

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Das normas éticas, escolhi duas que particularmente me agradam muito e procuro sempre seguir, na vida ou na prática do Yoga. Vou relatar dois fatos vividos por mim e que penso,

expressam o meu entendimento das duas normas.

 

SATYA

Na primeira aula de Yoga de que participei, há cerca de 15 anos, acostumada com a prática da ginástica ocidental, em que se olha a malha nova e colorida da vizinha, o frenético ritmo aeróbico do colega à sua frente, o perfume estonteante da colega da extrema direita, o tênis último tipo do instrutor, e a barulheira ensurdecedora que amortece a consciência do bloco humano; fui agradavelmente surpreendida pelos chinelinhos na beira da escada, a música suave, o delicioso cheiro do incenso, as camisetas simples e os moletons confortáveis de todo o grupo e a simpatia da resposta que me deram quando perguntei se havia lugares marcados.

De qualquer maneira, ainda tímida e sem saber o que me esperava, logo levei um susto, pois uma das primeiras posturas foi o pássaro. Eu ali, tentando me equilibrar nos cotovelos, de cabeça para baixo, e de olhos bem abertos, como estava acostumada, fui dar uma olhada geral nos outros praticantes, para ver se eles também estavam sofrendo como eu. Dei de cara com a Luzia, absolutamente concentrada e foi assim que ela permaneceu por longo tempo, absolutamente estável naquele asana maluco que me deixava humilhada por não conseguir a mesma performance. Afinal, depois de tanta malhação, eu tinha músculos para me sustentarem ou não?

Aos poucos é que fui compreendendo não ser uma questão de músculos. O que me manteria estável, mesmo que por apenas alguns segundos, seriam meus olhos de “espiar para dentro” de mim mesma, respeitando meus limites e aceitando a minha verdade, com humildade, atenção e discernimento. Hoje, isto para mim é bastante claro, e mesmo depois de todos esses anos de prática, há alguns asanas em que não consigo longa permanência. Primeiro, verifico a razão e tento melhorar, mas na impossibilidade, desfaço a postura, com tranqüilidade, e sei que de uma próxima vez, conseguirei. Assim procuro realizar na vida diária também, buscando ser verdadeira e autêntica, usando de naturalidade e simplicidade quando preciso expressar um pensamento ou sentimento. E procurando mudar alguma posição, se percebo que já não me serve ou que estava enganada a respeito da mesma. Isto para mim é SATYA e essa maravilhosa sensação foi o Yoga quem me trouxe.

SAMTOSHA

Faço parte de um grupo de voluntários contadores de histórias para crianças hospitalizadas.

Todas as sextas-feiras, quando chego, a enfermeira Ana já anunciou para todos os pequenos pacientes que a contadora “filha de rico” vai chegar. Não acho que rio à toa como diz fazer os filhos de ricos, mas realmente dou boas gargalhadas e é por isso que ela me deu esse apelido.

Mas na semana passada quando cheguei, ela me surpreendeu com um discurso diferente, talvez porque o diretor do hospital estivesse presente na hora e ela devesse parecer mais formal.

Ana disse: “Nunca vi tanto contentamento numa só pessoa!”

Achei linda aquela palavra, pouco usada na linguagem oral e fiquei pensando nela: CONTENTAMENTO. Que palavra bonita!

Por isso escolhi para falar de SAMTOSHA. É exatamente esse o sentimento que tenho ao me encontrar com as crianças no hospital, que de sérias e assustadas passam a sorrir ou mesmo a gargalhar com as histórias do Porco Narigudo, do Senhor Casacão e de tantas outras.

Naquele momento entendo o que é bem-estar e plenitude.

Essas mesmas sensações me invadem quando consigo realizar confortavelmente um asana que imaginava inalcançável para mim, ao ver Lúcia mostrar a seqüência. E no momento seguinte estou eu ali, toda “retorcida” e absolutamente confiante, serena e plena de contentamento e realização.

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