MENTE CALMA

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O mestre budista vietnamita Thich Nhat Hanh, em Paz a cada passo: como manter a mente desperta em seu dia-a-dia, conta uma história zen sobre um homem e um cavalo: “O cavalo está galopando rapidamente, e parece que o homem que cavalga se dirige a algum lugar importante. Outro homem, em pé ao lado da estrada, grita: “Aonde você está indo?” e o homem a cavalo responde: “Não sei. Pergunte ao cavalo!” Esta é a nossa história. Estamos todos sobre um cavalo, não sabemos aonde vamos e não conseguimos parar. O cavalo é a força de nossos hábitos que nos puxa, e somos impotentes diante dela. Estamos sempre correndo, e isso já se tornou um hábito. Estamos acostumados a lutar o tempo todo, até mesmo durante o sono. Estamos em guerra com nós mesmos, e é fácil declarar guerra aos outros também.”

No meu desempenho como professora de Yoga e psicóloga, tenho observado nas pessoas que buscam ajuda, meus alunos e pacientes, um fator que contribui em muito para a manutenção de sua dor, quer esta se apresente como física ou psíquica. Com todo o respeito e consideração que sinto por eles, vejo pessoas convivendo com uma mente conturbada, agitada, confusa, inconsciente, sem direcionamento ou foco. Algumas vezes, nos atendimentos iniciais, percebo que a pessoa que está diante de mim com algum tipo de sofrimento, não se dá conta de que está desapropriada de si, ansiosa, apressada, com sua mente solta. Talvez porque aquele estado mental lhe seja familiar e ela não encontra outra referência ou talvez porque ela não aprendeu a olhar mais profundamente seus próprios processos para assim abrir a possibilidade de se transformar. Então, meu trabalho tem sido com certa freqüência, mostrar novas perspectivas para o funcionamento da mente. Vamos lembrando da possibilidade que todos temos de refletir com mais calma acerca de nossos problemas, de minimizar nossos julgamentos em relação às nossas experiências, de questionar antigas crenças cristalizadas para verificar a eficiência destas no momento atual, de encontrar significados para nossos sentimentos e emoções, de podermos mudar as conversas que os múltiplos “eus” produzem dentro de nós. Buscamos resultados mais favoráveis e incrementamos nossa criatividade para que novas narrativas internas e externas passem a existir. Sabemos que, conforme arejamos a nossa mente contatando essas possibilidades, vamos transformando com muito mais responsabilidade e comprometimento o nosso universo intrapsíquico e as nossas relações interpessoais.

Observo também, o quanto deixamos de perceber a mente como propriedade nossa, como se houvesse um “chipizinho” imutável dentro de nós determinando todos os nossos pensamentos, sentimentos e maneiras de reagirmos diante da vida. Isso fica claro quando dizemos: “eu sou assim desde criança, porque minha mãe era assim…” ou “isso eu não mudo, porque nasci assim…” São falas absolutamente passivas, sem apropriação, pois quem é esse “eu”? Será que ele não é o conjunto de nossos pensamentos, crenças, hábitos, condicionamentos, cultura, sentimentos, corpo, família? E será que numa revisão de tudo isso como a que ocorre num processo de autoconhecimento como o da psicoterapia ou mesmo no Yoga, isso não tem chance de ser recriado? Eu acredito que sim, que todos nós, a partir do momento que nos colocamos como agentes em relação a nossa herança e bagagem internas, podemos escolher com que queremos ficar e o que queremos deixar ir ou ainda, substituir.

Então faz muito sentido para mim a mensagem dos mestres das filosofias orientais, tanto do Yoga, como do Budismo, que nos ensinam que é possível cultivar a mente calma, serena, tranqüila. E não precisamos ter essa mente de nascença, no nosso temperamento, podemos cultivá-la, quero enfatizar esse aspecto. Responsabilizando-nos pelo nosso funcionamento mental, ganhamos liberdade de escolher o que nos parecer melhor para nosso convívio interior: calma ou agitação, clareza ou confusão.

Chagdud Tulku Rinpoche, mestre budista, em Portões da Prática Budista, relata que “a mente é como um campo fértil — coisas de todos os tipos podem crescer nele. Quando plantamos uma semente — um ato, uma palavra ou um pensamento — num dado momento produzirá um fruto que irá amadurecer e cair por terra, perpetuando e incrementando aquela mesma espécie. Momento a momento, plantamos sementes de causalidade potentes com nosso corpo, fala e mente.

Patanjali, quem escreveu os primeiros textos sobre o Yoga por volta dos anos 200 d.C., define o Yoga como a cessação dos movimentos da mente. Demonstrou que todas as técnicas usadas no Yoga, como os pranayamas (respirações que controlam a energia vital) e asanas (posturas psicofísicas), têm como objetivo acalmar esses movimentos ou a agitação da mente, pois essas são expressões da nossa mente superficial, condicionada e repetitiva. Aprendemos que é no intervalo entre os pensamentos que a mente sábia e clara desperta, por isso praticamos a meditação, para unificar a mente superficial com a mente profunda. É na mente calma que podemos transcender os condicionamentos e hábitos conscientes e inconscientes, tornando-nos criativos e rompendo com as tendências automatizadas que tanto nos ferem.

Um outro mestre do budismo chamado Gyomay Kubose escreveu: “A serenidade é a morada da nossa vida espiritual. Da mente tranqüila, muitos pensamentos profundos e ações dinâmicas irão brotar. Com efeito, a serenidade é a morada da criatividade e a fonte da verdadeira paz e felicidade na vida.” E acrescenta: “Somente quando estamos calmos é que somos capazes de ver as coisas como elas realmente são. Somente quando nossa mente está tranqüila é que somos capazes de espelhar a verdade, assim como a calma superfície das águas espelha a beleza da Lua. Uma mente perturbada ou transtornada não consegue ver a verdade das coisas, assim como as águas revoltas não conseguem refletir a Lua. Todas as coisas criativas – a poesia, a arte, a filosofia (dos orientais) – são produtos da mente serena e harmoniosa, porque elas exigem uma penetrante percepção da vida, e esta percepção só é possível quando nossa vida é serena.”.

No seu livro A Arte de Viver o Dia-a-Dia, esse mestre interpreta um pequeno poema budista, que diz:

Yoku mireba

Nazuna hanasaku

Kakine Kana                          

 

Quando olho atentamente

As nazunas florecem

Ao longo da sebe

“Nazuna” é uma pequena flor silvestre, comum e insignificante. “Yoku mireba” (quando olho atentamente) é da maior importância. A menos que estejamos calmos e conscientes, não conseguimos olhar atenta e cuidadosamente. As florzinhas silvestres passarão despercebidas. Mas, embora ninguém lhes preste atenção, Basho olha cuidadosamente e vê as nazunas em plena floração ao sol! Como são belas! Como Basho se sente afortunado! Todo o mistério e prodígio da vida estão ali. Basho não pode deixar de conversar com elas. Como são maravilhosas e dignas, tão humildes e, ainda assim, com sua própria glória e orgulho. “Kakine Kana” (ao longo da sebe); as nazunas floresciam ao longo de uma sebe velha e comum, sem que ninguém lhes prestasse a menor atenção. “Kana” não tem nenhum significado particular, mas é uma importantíssima expressão poética. Pode-se dizer que é um ponto de exclamação falado, enfatizando o sentimento poético.

A mente calma e harmoniosa é capaz de fazer essas observações penetrantes, encontrado a vida em todos os lugares e saboreando a unidade da vida na natureza. Esta é a essência da poesia.

Um respeitado representante do Yoga Inegral, Sri Aurobindo, em um artigo entitulado Uma Mente em Paz, refere que “a liberdade progressiva e o domínio sobre a própria mente estão perfeitamente dentro das possibilidades de todo aquele que tenha a fé e a vontade de empreender esta conquista.”

Fico pensando então que para estarmos na vida com bem-estar e felicidade, já que ao que nos parece, todos desejamos isso, é prudente que tenhamos essas duas atitudes: cultivar a calma mental e nos apropriarmos de nossa possibilidade de autotransformação. Vamos construir isso?

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