YAMA E NIYAMA – PRÁTICAS PARA APERFEIÇOAR A PERSONALIDADE

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Yoga é tanto o conceito e o objetivo como os meios para atingi-lo. Yoga é conceituado como união, então, pressupõe-se que há necessidade de unir algo que está separado, dividido, fragmentado, porque isso gera sofrimento ao ser humano e a tudo que se relaciona com ele. O objetivo do Yoga, segundo Patanjali, é conseguir o estado de “Citta Vrtti Nirodhah” ou inibição das modificações da mente. Portanto, é a mente agitada que fragmenta o Ser e a inibição de suas modificações gera o estado de união, de inteireza, de plenitude, de bem aventurança (ananda). O Yoga desenvolve uma série de práticas que são os meios para atingir esse objetivo. Patanjali enumera oito tipos de práticas chamados de passos, por meio dos quais o praticante busca atingir esse estado de domínio sobre sua mente (TAIMNI, 1989), (METHA, 1995).

Yama e Niyama são os dois passos iniciais do Astanga Yoga de Patanjali – yoga dos oito passos. Esses dois conjuntos de práticas iniciais são uma espécie de fundação, de alicerce, sem os quais não se avançará, nas outras práticas, em direção ao objetivo do Yoga. Os demais passos são: Asanas – posturas psicofísicas; Prânâyâma – controle, através da regulação da respiração, da energia vital conhecida por prana; Pratyahara – abstração dos sentidos; Dharana – concentração; Dhyana – contemplação; Samadhi – êxtase.

YAMA – Primeiro Passo do Yoga

Os votos de autodomínio são: abstenção de violência, de falsidade, de roubo, de incontinência e de avidez (Sutra II – 30 do Astanga Yoga de Pantajali).

Ahimsa ou abstenção de violência é o respeito a todas as criaturas vivas; é não matar, não infligir aos demais, voluntariamente, sofrimento ou dor, pela palavra, pensamento ou ação; é caracterizado por um alto grau de inofensividade, que não deve ser confundindo com covardia ou acomodação, mas sim pela busca de um estado amoroso; é a compreensão de que toda e qualquer violência causa agitação mental.

Satya é abster-se de mentir; é ser verdadeiro; é não exagerar, não diminuir, não dissimular; se esforçar para não enganar a si próprio nem tentar vender uma falsa imagem de si. A inveracidade é fonte de constante perturbação para a mente. Ao começar a praticar Satya, as formas mais sutis de inveracidade começam a se revelar. Satya é absolutamente necessária ao desenvolvimento de buddhi ou intuição, sabedoria. Segundo Gandhi, a natureza da realidade do universo e da nossa vida é AMOR e VERDADE que acabam por tudo conquistar. Dai a prescrição de AHIMSA e SATYA, pois, a sustentação da mentira se dá à custa de muita agitação mental.

Asteya é abster-se de roubar não apenas bens materiais, mas ficar atento para as formas sutis de apropriação indébitas como, por exemplo, não roubar o tempo das pessoas, os créditos e privilégios que por direito não nos pertence. O roubo pressupõe violência e mentira, e também gera muita turbulência na mente.

Brahmacarya ou abstenção de incontinência é praticar o comedimento e o controle sobre todo impulso ao desregramento como, por exemplo, o da gula ou do sexo. É um controle sobre os desejos, pois os desejos descontrolados provocam enorme agitação mental. Há que se tomar cuidado com a prescrição de brahmacarya, pois a repressão também gera muita agitação mental.

Aparigraha ou abstenção de possessividade é o controle e a tentativa de domínio sobre a tendência humana de querer possuir tudo quanto seja possível. Ela causa danos ao meio ambiente e à sociedade e seu efeito sobre o indivíduo é arrasador. Sofre-se com o desejo de possuir o que não se tem; ao possuir, sofre-se com o apego e o medo de perder, e tudo isso causa grande agitação mental.

NIYAMA – Segundo Passo do Yoga

Pureza, contentamento, austeridade, auto estudo e entrega a Deus constituem as observâncias (Sutra II – 32 do Astanga Yoga de Patanjali).

Sáuca é o empenho pela purificação e por manter-se puro. Para o corpo físico a purificação se dá pela prescrição de alimentos e bebidas adequados, por hábitos de higiene e pelas práticas dos kriyas (técnicas de purificação do corpo físico). Os pensamentos e as emoções também devem ser purificados. Todas as práticas de Yoga contribuem para a purificação, mas sáuca envolve a intenção de ser puro. É necessário ter cuidado com o que alimentamos nossos pensamentos e emoções. Sem dúvida, essa prática acalma a mente.

Samtosa é o empenho para se manter em um estado de contentamento, o exercício deliberado de sair do estado de constante agitação mental para um estado de equilíbrio e paz, usando a vontade e a meditação entre outros meios; é o desenvolvimento de uma capacidade de ficar sereno e calmo em momentos difíceis. Samtosa é trabalhar-se para conseguir aproveitar o disponível e desapegar-se dos desejos impossíveis. Esse preceito fala de uma condição positiva da mente, que nada tem em comum com a acomodação, preguiça, ou falta de iniciativa. Samtosa é a busca de um estado de felicidade que não está baseado na euforia, mas na paz e por isso duradouro. É também o desenvolvimento de uma visão mais sábia e equânime do desenrolar da existência. Uma mente impregnada pelo contentamento é necessariamente calma.

Tapas é o propósito de viver em simplicidade, o exercício da força de vontade a fim de construir um caráter forte e puro, desenvolvendo autodisciplina na realização das práticas e exercícios propostos no sadhana ou caminho do Yoga. Propor objetivos, começar e terminar, vencer as dificuldades sem desanimar, vai libertando o praticante e capacitando-o a vivenciar estados mais elevados de consciência. A simplicidade e a vitória sobre a indolência, constroem uma mente mais calma.

Svadhyaya diz respeito ao estudo que leva à compreensão do ser humano. Muito do que há de comum em todo ser humano já foi estudado e encontra-se nas escrituras sagradas, nos livros de filosofias, de psicologia, etc. Aqueles que se identificam com o Yoga devem estudar principalmente os textos sagrados do Yoga. Devem familiarizar-se com sua literatura. Ali estão colocados os grandes temas da condição humana. Com esse estudo inicia-se a reflexão e a meditação na tentativa de conhecer a si próprio. Mas esses estudos são apenas uma parte. Chega o tempo em que o praticante vai voltar-se para seu interior e buscar suas respostas sozinho, através do silêncio, da quietude, da concentração e da meditação. Nesse ponto é necessário tapas, a disciplina austera e firme. Entende-se que quanto maior for o conhecimento sobre si mesmo mais se conhecerá a natureza da mente, criando as condições para acalmá-la.

Ísvara Pranidhana ou entrega a Deus, também traduzido como aspiração, é fazer o que tiver que ser feito, da melhor maneira possível, com atenção e amor, sem esperar recompensa (Karma Yoga), praticando o desapego; é, também, realizar práticas devocionais (Bhakti Yoga). Aprende-se com o Yoga, que cada um de nós, faz parte de uma realidade maior, que em última instância, é a nossa essência. A ignorância dessa realidade (avidya), faz com que nos identifiquemos com nosso ego, nossa mente e nosso corpo. A prática de isvara pranidhana facilita a quebra dessa ilusão (maya) e propicia a realização de samadhi, a vivência do absoluto, da realidade última, da consciência cósmica, de Deus, ou de tantos outros nomes que se dão para esta experiência de transcendência. Com esse preceito ético, nos tornamos cada vez menos egoístas e a mente se torna mais calma e ampla.

CONCLUSÃO

Yamas são os controles sobre os instintos e tendências que, se ficarem soltos e desregrados, trazem toda ordem de conseqüências e sofrimentos. Niyamas são as observâncias, aquilo que devemos cultivar e desenvolver. Sem a prática desses primeiros passos, o desenvolvimento do praticante, será limitado e perturbado.

O principal objetivo desse código ético é eliminar as perturbações emocionais e tornar o pensamento coerente. Não se trata de regras morais, religiosas ou uma simples imposição, mas, uma busca voluntária e cheia de tolerância para consigo mesmo. O praticante de Yoga desenvolve a capacidade de ficar consciente e de meditar sobre os Yamas (controles) e Niyamas (observâncias) em cada momento de sua vida quando exigido, sendo tolerante consigo caso não consiga ser suficientemente firme ou quando fica confuso. O que se pretende é ir se aperfeiçoando. Por meio de dharana, a concentração, torna-se cada vez mais consciente; por meio de dhyana, a concentração profunda ou meditação, busca-se o desenvolvimento de viveka ou discernimento; por meio de abhyasa, o esforço da permanência na prática, aperfeiçoa-se a ação. Com o tempo, percebe-se que todo o momento da existência reclama pela prática de Yamas e Niyamas. Isso acontece na medida em que o praticante deseje obter uma mente mais pura, mais calma e sob controle.

Os oito passos do Yoga de Patanjali estão relacionados entre si, de modo que, se quisermos praticar verdadeiramente o Yoga, precisamos prestar atenção ao conjunto das práticas.

Todas as práticas devem ser consideradas do ponto de vista que se prestam a um treinamento. A prática de Yama e Niyama é tão difícil que somente um ser que já se iluminou consegue praticá-las com inteira consciência. Mas nós, praticantes dessa filosofia milenar, que estamos em busca do desenvolvimento na direção dessa consciência ampla, precisamos iniciar a prática, ainda que difícil, se quisermos progredir no caminho do Yoga. O tanto que conseguirmos avançar, nos trará uma grande diferença na qualidade de nossa existência.

BIBLIOGRAFIA:

TAIMNI, I. K. A Ciência da Ioga, comentário sobre os yoga sutras de Patañjali à luz do pensamento moderno, tradução de Milton Lavrador, Grupo Annie Besant, Rio de Janeiro, 1989.

METHA, R (1995). Yoga a arte da Integração: Comentário sobre os Yoga-Sutras de Patanjali. Ed. Teosófica, Brasília, Brasil.

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