YOGA COMO FILOSOFIA E CULTURA

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O Yoga é um dos seis DARSHANAS, que são seis sistemas de filosofia da Índia, ortodoxos (quer dizer, em ocorrência, aceito por todos). E esse Yoga Clássico, tal como foi formulado por Patañjali (considerado o codificador desse sistema) é também o mais conhecido no Ocidente. Existem controvérsias em relação à data dessa codificação variando segundo teorias entre século III ou II A.C.

Também há outras controvérsias em relação à pessoa de Patañjali que foi identificado por alguns como sendo o famoso gramático que viveu no séc. II ou I a.C. e que foi o autor de um grande comentário (Mahābhāṣya) ao célebre tratado gramatical de Pāṇini. Essa identificação foi aceita por uns e rechaçada por outros. Mas o que é indiscutível é a contribuição inestimável que Patañjali legou para Humanidade com essa compilação de um manual prático, de técnicas muito antigas que não foram sua descoberta, nem do seu tempo apenas, mas que foram comprovadas muitos séculos antes dele.

Dadas as últimas descobertas arqueológicas, geológicas, registros astronômicos, varredura de sonar (como feito em Dwarka) imagens de satélites, podemos afirmar sem receio que as datas que tínhamos até poucos anos atrás, recuaram, não séculos, mas milênios. Alguns especialistas já estão vendo essas descobertas recentes como uma confirmação de que a história da civilização precisa passar por uma revisão radical.

A queda da teoria de suposta invasão ariana que teria ocorrido por volta de 1500 a.C. está revolucionando a história da Índia e levando a outra conclusão sobre a origem dos Indo Europeus que migraram da Índia para o oeste e noroeste em tempos pré-históricos. Isso é exatamente o reverso da teoria da invasão ariana.

Assim sendo, podemos no momento afirmar que o berço da filosofia e da cultura humana nasceu na Índia e de lá se espalharam para Ásia Menor e Europa.

O que ocorreu em relação ao Ocidente foi não ter tido acesso a essa cultura, a esse saber, de uma forma metódica e, somente quando foram feitas as primeiras traduções em sânscrito, a língua clássica, por Max Muller é que se começou a descobrir esse tesouro. No entanto, Max Muller, cujo nome se tornou quase um sinônimo de Indologia era um romântico com uma imaginação vivida e às vezes descontrolada. Através dessa combinação de erudição, entusiasmo e habilidade na apresentação de seu trabalho, veio a dominar o campo da Indologia. Para ajustar algumas semelhanças entre as línguas da Índia e as Européias e na falsa suposição da pouca cultura dos indianos, propuseram a assim chamada “Invasão Ariana”. De acordo com essa teoria, tribos nômades habitantes das estepes eurasianas, falando a língua ancestral sânscrita grega, também conhecida como Indo Européia ou Indo Ariana invadiram a Índia do Noroeste pelo desfiladeiro de Khyber entre o Afeganistão e atual Paquistão que fazia parte da Índia. E neste local esses invasores teriam se estabelecido. Por volta de 1200 a.C. segundo eles, teria sido composto o Rg Veda. Posteriormente Max Muller confessou que fora sua firme convicção no Dogma Cristão da criação do mundo em 4004 a.C. (em zona não explicita) e no dilúvio Bíblico em 2448 a.C. que o levou a elaborar essa assim chamada invasão ariana. Isso demonstra outro problema que prejudicou a Indologia desde seu inicio. Não apenas era a Indologia e seu campo de lingüística comparativa sem um fundamento, mas estava sendo também fortemente influenciada pelas crenças cristãs e considerações políticas. Apesar da Tradição indiana nunca ter aceitado essa invasão, ela prevaleceu. Max Muller ainda acrescentou mais um pouco de discórdia não apenas sobre uma língua ariana e sua descendência, mas também sobre uma raça ariana. Os alemães e ingleses rapidamente aceitaram essa teoria que muito convinha a eles.

Então para os Ocidentais ficou a crença de que os Vedas e a língua sânscrita (ou língua ancestral) foram trazidos para a Índia por invasores no 2º milênio, afirmando também não existirem civilizações refinadas originárias do país antes dessa data, sendo suas crenças baseadas em superstições e mitos.

No inicio de 1921 descobriu-se a existência de duas cidades soterradas (as famosas Harappa e Mohenjo Daro). Subseqüentes escavações mostraram tratar-se de parte de uma grande civilização espalhada sobre mais de um milhão de quilômetros quadrados. Essa civilização foi batizada com o nome de civilização Harappeana e situada num período de 3100A. C., porém, seus antecedentes podem ser encontrados até 7000A.C. em KOLDIHWA na Índia Central.

Tentaram então, para fazer prevalecer esses registros ocidentais sugerir que essa civilização fora destruída pelos invasores arios.

Nesse ínterim descobertas dramáticas feitas por satélites comprovaram a existência do leito seco de um rio caudaloso conhecido e decantado nos Vedas, o SARASVATI que na época era o rio Sagrado da Índia e não o Ganges de hoje em dia. Esse rio foi considerado mítico, mas em 1970 o satélite demonstrou que tal rio como descrito no Rg Veda corria caudaloso. Sabemos hoje, que esse enorme rio secou completamente em 1900 a.C. quiçá até antes dessa data. Isso demonstra que esse povo que compôs os Vedas estava estabelecido na Índia muito antes de 1500 a.Cdata essa assinalada para a suposta invasão ariana.

Evidentemente precisei resumir e não mencionar muitos outros dados, mas é importante que essas descobertas a respeito dessa mistificação histórica sejam divulgadas. Portanto o que eventualmente poderá ser interpretado erroneamente sobre a filosofia e a cultura desse povo deve ser esclarecido à luz dessas descobertas recentes já citadas. .

Voltando a filosofia, tema principal da palestra de hoje, as escolas de pensamento da Índia nada mais são do que o desenvolvimento e expansão da semente contida nos Vedas. Os Vedas são escrituras sagradas hindus consideradas as mais antigas da humanidade. Essas Escolas saídas dos Vedas são tidas como uma revelação das ultimas verdades, a saber:

Sāṁkhya

Fundada por Kapila, significa número, avaliação e enumeração dos princípios desenvolvidos da mesma substância Prakṛti (matéria) iluminada em sua evolução por Puruṣa, o espírito primordial.

Vaisheṣhika

Escola que se fundamenta no estudo do átomo sendo que essa palavra significa particular. Preocupa-se com indagações sobre várias estruturas existentes no Universo. Refere-se muito aos atributos da matéria. Sistematizada por Kānada.

Nyāya

Deriva da raiz NI que quer dizer aquilo pelo qual se penetra numa coisa para chegar a uma conclusão. É a escola da racionalidade acentuando a dialética e levantando de modo mais completo o que as outras escolas proclamam, fornecendo os argumentos existentes, em relação à procura da verdade última. Definido por Gautama.

Yoga

Sobre quem já falamos que adotou tudo que Kapila propôs (do Sāṁkhya), porém, sem negar a existência de Īṣvara, o ser supremo, inatingível pelas aflições existenciais, infinito e ilimitado pelo tempo. Proclama que tudo aquilo que evolui tem um limite extremo, que só pode ser atingido pela união com Īṣhvara, apontando um sistema completo e praticável, para se atingir a propalada união. Codificado por Patañjali.

Pūrva Mīmāṁsā

Que quer dizer investigação e que tem por objetivo o dever e a liberação da alma através da observância dos ritos e preces apresentados nos Vedas. Seus sūtras são atribuídos a JAIMINI

Vedānta

É o “Final dos Vedas” procurando dar uma interpretação unificada às escrituras segundo uma concepção monista, em que TAT seria a única realidade e tudo mais Māyā, ilusão. O fundador dessa escola foi Vyāsa, mas um dos seus maiores expoentes foi Shaṁkarāchārya.

Os 6 darshanas apenas nomeados para não extrapolar o tempo estabelecido para essa apresentação, esses darshanas fazem parte da grande tradição da Índia conhecida como Sanāthana Dharma que no Ocidente se traduz por Hinduismo e pode se perceber em meio a extrema diversidade de conceitos uma tentativa constante de definição dos meios de elevação do ser humano à planos transcendentais.

Para completar minha exposição ainda falta mencionar uma outra Tradição de cunho mais popular e mais antiga que os próprios Vedas. Refiro-me a Filosofia do Tantra cuja exata natureza tem sido assunto de disputa entre os eruditos. Ainda é difícil estabelecer conclusivamente a origem das escrituras tantricas denominadas ĀGAMA SHĀSTRAS. A data também agora depois da queda da Invasão Ariana recuou ainda mais no tempo. A teoria é que existiam nos primórdios da história da Índia dois SRUTIS querendo dizer Revelações. Uma revelação a dos Vedas (VAIDIKA SRUTI) e uma a do TANTRA (TANTRIKI SRUTI).

Essa tradição tantrica, é especialmente uma SĀDHANA ŚĀSTRAS a arte de auto realização. Sua filosofia esta alicerçada em SĀDHANA que são as práticas ritualísticas, transcendentais. É um fato que na Índia práticas espirituais ou Sādhana, precedem filosofia. As verdades descobertas pelo sadhana ou pela vivência, experiência pessoal são auto-evidentes, diretas, definidas e extremamente claras. Essas são verdades não apenas porque foram vivenciadas, mas por terem sido verificadas por experiência vivida. Portanto, pelo Tantra queremos significar uma filosofia de vida, uma arte de auto-realização, uma Experiência Integral que ainda é um mistério para a mente Ocidental, pois que, na filosofia Ocidental a faculdade de percepção super sensorial e a arte de despertar a Kuṇḍalinī. (energia primordial criadora) das profundezas abissais da consciência não é apenas ininteligível como também considerada absurda.

No entanto, na Índia, a filosofia seja Védica, ou Tantrica, tem suas origens na Revelação, e é uma tentativa racional da parte de seres humanos inteligentes de harmonizar, reconciliar fé com razão, intuição com insight.

Lembrando que vivendo numa era da ciência e tecnologia cujo objetivo é buscar descobrir material para conferir confortos e prazeres, os ensinamentos dos sábios yogis de eras passadas aparentam ser incompatíveis. Precisam, no entanto se fazer ouvir nessa selva de ceticismo e materialismo que se espalharam e se difundiram na vida moderna civilizada.

Glorificamos a energia atômica e sua aplicação, seu uso, como uma das maiores realizações do homem. Fomos capazes de descobrir e liberar uma tremenda força física da Natureza seja para uso destrutivo como para uso construtivo e temos que pagar um preço altíssimo por tudo isso. Nos esquecemos, que fomos nós que descobrimos os átomos, não foram eles seus auto-descobridores. O homem sempre permaneceu desconhecido e inexplorado atrás das máquinas. Foi crucificado, repudiado, humilhado e negligenciado na era da ciência objetiva e tecnológica. Mas a Índia sempre procurou descobrir e liberar fortes energias, racionais, morais e espirituais que jaziam adormecidas no homem e de trazer esses poderes latentes ao foco da nossa consciência através do Yoga, cujo objetivo principal é a UNIFICAÇÃO, empenhando-se para que cada ser humano seja unido, ligado com todos outros seres humanos em pensamentos, ações e aspirações.

Não há outro modo de se conseguir essa UNIFICAÇÃO do homem com o homem, do homem com plano divino, unificação do homem com o Supremo, e a do Supremo, no homem. Unificação significa identificação, realização da identidade do EU aqui, agora e em toda a parte. A necessidade, universalidade e inevitabilidade do Yoga somente pode ser ignorada por aqueles que concentram e liberam energias vitais e psíquicas para o acumulo de valores mundanos, de riqueza, poder e sexo. Sem negar que esses valores são necessários à vida terrena, mas sabendo que se forem considerados essenciais, corrompem.

Isso é um veredicto histórico. O homem fez a história, a história não faz o homem. Quando por outro lado, o homem se concentrar na descoberta e liberação de energia benévolas vitais e espirituais através do Yoga, estará promovendo a emancipação do ser humano do cativeiro, da servidão e do sofrimento.

OM YOGA

Palestra feita na abertura Semana do Yoga em São Paulo.

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