YOGA: CONCEITO E SIGNIFICADO

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Para começar, quero compartilhar alguns pensamentos que podem ajudar na compreensão dos muitos significados da palavra yoga. Yoga é um dos seis sistemas fundamentais do pensamento indiano, coletivamente conhecido como darsana-s. Os outros cinco darsana-s são: Nyãya, sãmkhya, mimãmsa e vedãnta. A palavra darsana-s é derivada da raiz, em sânscrito, drs, é sua tradução é “ver”. Darsana-s, portanto, significa “visão”, “ponto de vista” ou até “um certo modo de ver”. Mas, além desses, existe outro significado, para entendê-lo, precisamos evocar a imagem de um espelho com o qual podemos olhar para dentro de nós mesmos. E, de fato, todos os grandes textos apresentam-nos maneiras de ver que criam oportunidades de nos conhecermos melhor. Olhamos mais profundamente dentro de nós mesmos à medida que aprendemos a aceitar os ensinamentos. Sendo um dos seis darsana-s, o yoga tem sua origem nos Vedas, o mais antigo registro da cultura indiana. O yoga foi sistematizado como um darsana especial pelo grande sábio indiano Patanjali no Yoga Sutra. Embora a esse trabalho tenham se seguido muitos outros importantes textos sobre yoga, o Yoga Sutra de Patanjali é certamente o mais significativo.

Muitas interpretações para a palavra yoga nos foram legadas com o passar dos séculos. Uma delas é “juntar”, “unir”. Outro significado é “amarrar, juntar os cordões da mente”. Essas duas definições podem parecer bem diferentes à primeira vista, mas elas realmente falam da mesma coisa. Se “juntar” nos remete ao aspecto fixo, “amarrar os cordões da mente” está relacionado, por exemplo, ao direcionamento da atenção para a sessão de yoga antes de iniciarmos, de fato, a prática. Uma vez que os cordões se juntam para formar uma intenção, estamos prontos para começar o trabalho físico.

Outro significado para a palavra yoga é “atingir o que era antes inatingível”. O ponto de partida para esse pensamento é que há algo que desejamos e não somos capazes de fazer hoje, quando encontramos os meios para transformar esse desejo em ação, esse passo é yoga. Na verdade, toda mudança é yoga. Por exemplo, quando encontramos uma maneira de flexionar o corpo à frente, tocando os dedos dos pés, ou descobrimos o significado da palavra yoga por meio de uma conversa, atingimos um ponto em que nunca havíamos estado antes. Cada um desses movimentos e mudança é yoga.

Um outro aspecto do yoga tem a ver com as nossas ações. Yoga também significa agir de maneira que toda a nossa atenção esteja dirigida à atividade que estamos desenvolvendo no momento. Suponha, por exemplo, que, enquanto estou escrevendo, uma parte da minha mente esteja pensando sobre o que eu quero dizer, enquanto outra parte pensa em algo totalmente diferente. Quanto mais eu estiver focado ma minha escrita, maior será a atenção em minha ação nesse momento. O contrário também pode acontecer. Posso começar a escrever com grande atenção, mas depois ela começa a fugir. Começo a pensar sobre os meus planos para amanhã ou sobre o que cozinhar para o jantar. Parece que estou atento ao escrever, mas na verdade estou prestando pouca atenção em minha tarefa. Estou funcionando, mas não estou presente. O yoga procura criar um estado em que estamos sempre presentes – presentes mesmo – em todas as ações, em todos os momentos.

A vantagem da atenção é que realizamos melhor cada tarefa e ao mesmo tempo estamos conscientes dos nossos atos. A possibilidade de cometer erros torna-se, conseqüentemente, menor à medida que nossa atenção se desenvolve. Quando estamos atentos às nossas ações, não somos prisioneiros dos nossos hábitos, não precisamos fazer algo hoje só porque fizemos ontem. Em vez disso, podemos examinar nossas ações de forma nova e assim evitar a repetição inconsciente.

Outra definição clássica para yoga é “ser um com o divino”.

Não importa o nome que usamos para o divino – Deus, Alá, Ishvara, o que seja -, o que quer que nos aproxime da compreensão de que há uma força superior e maior do que nós mesmos é yoga. Quando nos sentimos em harmonia com essa força superior, isso também é yoga.

Então, vemos que há muitos jeitos possíveis de entender a palavra yoga. O yoga tem as suas raízes no pensamento indiano, mas seu conteúdo é universal, porque trata dos meios pelos quais podemos realizar as mudanças que desejamos em nossas vidas. A verdadeira prática de yoga leva cada pessoa numa direção diferente. Não é necessário concordar com uma idéia particular sobre Deus para seguir o caminho do yoga. A prática de yoga só requer que ajamos e estejamos atentos às nossas ações.

Cada um de nós deve ser cuidadoso com a direção que toma, para que saiba aonde vai e como vai chegar aonde quer. Essa observação cuidadosa nos tornará aptos a descobrir algo novo. Se essa descoberta nos leva a um melhor entendimento sobre Deus, a um maior contentamento ou a um novo objetivo, isso é uma questão completamente pessoal. Quando começamos a examinar asana-s, os exercícios físicos de yoga, vemos como as várias idéias implícitas no significado da palavra yoga podem ser incorporadas à nossa prática.

Onde e como a prática de yoga começa? Devemos sempre começar no nível físico? Eu diria que o ponto onde começamos depende dos nossos interesses pessoais. Há muitas maneiras de praticar yoga, e gradualmente o interesse num caminho vai conduzindo a outro. Então, pode ser que nós comecemos estudando o Yoga Sutra meditando. Ou, em vez disso, começamos com a prática de asana-s e, assim, iniciamos o processo de entender o yoga pela experiência do corpo. Também podemos começar com pranayama, sentindo a respiração como o movimento do nosso ser interior. Não há prescrições sobre onde e como a prática deve começar.

Livros ou aulas geralmente dão a impressão de que há pré-requisitos para o estudo do yoga. Tem gente que diz que não pode fumar, ou que é preciso ser vegetariano, ou ainda que devemos nos livrar de todos os nossos bens materiais. Essas atitudes são admiráveis apenas se originadas de dentro para fora e podem até acontecer como resultado do yoga, mas nunca se forem impostas, de fora para dentro. Por exemplo, muitas pessoas que fumam largam o vício depois de começar a fazer yoga. Como resultado das práticas de yoga, elas perdem a vontade de fumar; não pararam de fumar no intuito de praticar yoga. Nós começamos onde e como somos, e o que tiver de acontecer acontece.

Quando começamos a estudar yoga – quer seja pelos asana-s, pranayama, meditação ou estudando o Yoga Sutra – a maneira como aprendemos é a mesma. Quanto mais progredimos, mais ficamos conscientes da nossa natureza holística, percebendo que somos feitos de corpo, respiração, mente e mais. Muitas pessoas começam a estudar yoga pela prática de asana-s e só continuam aprendendo mais posturas, até que o único significado de yoga para elas seja exercício físico. Nós podemos comparar isso a um homem que cultua músculos de um só braço e deixa o outro fraco. De forma semelhante, há pessoas que intelectualizam a idéia do yoga; escrevem livros maravilhosos e falam brilhantemente sobre idéias complicadas como prakrti e ãtman, mas enquanto estão escrevendo ou discursando não conseguem se sentar eretas nem por poucos minutos. Então, não vamos esquecer, podemos começar no yoga partindo de qualquer ponto, mas, se queremos ser seres humanos completos, precisamos incorporar todos os aspectos de nós mesmos, e fazer isso passo a passo. No Yoga Sutra, Patanjali enfatiza todos os aspectos da vida humana, incluindo nossos relacionamentos com os outros, nosso comportamento, nossa saúde, nossa respiração e nosso caminho para a meditação.

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