YOGA DRISHTI – EXERCÍCIOS PARA MELHORAR A VISÃO

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O trabalho com a visão está fundamentado num conhecimento do Yoga, de que o corpo e a mente estão interligados, como numa pista de mão dupla, um acessando e influenciando o outro.

Os órgãos dos sentidos nos ligam com o mundo exterior, são os portais da nossa consciência, por meio dos quais percebemos o ambiente. Quando se trata do olhar, sabemos que os olhos são instrumentos da nossa percepção, sendo esta uma habilidade da mente. Assim, podemos dizer que é a mente que vê, a mente enxerga através dos olhos – os órgãos físicos da visão. A visão está relacionada com a interpretação da mente das impressões feitas na retina. Então, o que vemos nem sempre é a imagem real impressa na retina, mas aquilo que interpretamos.

Devemos levar em conta, aspectos subjetivos na apreensão do exterior, pois cada indivíduo enxerga de uma maneira particular, a mesma realidade. É como se tivéssemos filtros sobre nossas retinas, criados por vários fatores: a maneira como fomos vistos quando crianças, influências culturais, heranças genéticas, características pessoais e inatas, e outros.

Por outro lado, os olhos, além de receber impressões do exterior, refletem nosso estado interior, emocional, nosso estado de espírito.

Usamos muitas expressões para falar do olhar: “olhar no fundo dos olhos”, para conectar profundamente com alguém; “desviar o olhar”, para aquilo que não queremos entrar em contato, “os olhos são janelas da alma”, pois mostram o íntimo da pessoa.

Talvez sem nunca ter ouvido falar das técnicas do Yoga – baseadas em relaxamento, alongamento e respiração ampla para melhorar a circulação da energia vital em todo o corpo, um médico americano, Dr. William Bates, por volta de 1900, pesquisou por quatro décadas, exercícios para as diversas doenças dos olhos. Ele notou como os olhos mudavam quando as pessoas faziam um trabalho que lhes davam prazer ou desprazer, em situações de fadiga, estresse, ansiedade ou confusão e, quando estavam concentradas, excitadas, alegres ou relaxadas. Observou que a visão não era uma condição estática, pois mudava constantemente e que, os defeitos da visão podiam ser produzidos ou piorados pelo estresse da vida diária.

Um de seus seguidores, Meir Scheneider, um ucraniano com cegueira congênita, progrediu tanto com esses exercícios, que chegou a obter habilitação para motorista. Ele prosseguiu a pesquisa e fundamentou o “Método de Auto-Cura ou Self-Healing”, hoje difundido para o mundo, abrangendo exercícios para o corpo todo e tratamento de diversas doenças, como a esclerose múltipla. Segundo ele, o mais importante em preparar seus olhos para ver, foi aprender a relaxá-los, e treiná-los para aceitar a luz que ele havia sido treinado a recuar.

Os problemas mais comuns de visão estão relacionados à falta de claridade nas visões próxima e distante. Ver de perto é diferente de ver de longe. O olho humano opera de maneira semelhante a uma câmara fotográfica, sendo que é o globo ocular que faz o ajuste automático para focalizar a imagem na retina. Para isso é preciso que haja claridade suficiente. Porém, muito mais plástico que uma câmara, o olho humano pode mudar a forma de suas lentes, pode focalizar sem mudar a distância entre a lente e a retina. Para ver a distância, os músculos ciliares, que seguram a lente no lugar, são relaxados, a lente fica relativamente plana. Para ver de perto, esses músculos se contraem e a lente fica mais esférica. Isso é acomodação.

No trabalho dos exercícios com os olhos, a ação é muito maior sobre os músculos maiores e externos dos olhos, que podem ser controlados voluntariamente, que os ciliares, que são involuntários.

Também a forma do globo ocular ou a irregularidade do globo é considerada a causa de dois problemas de visão muito freqüente: a miopia, inabilidade para ver objetos distantes com clareza e hipermetropia, inabilidade para ver objetos próximos claramente. Os exercícios para os olhos podem interferir nessa forma, melhorando conseqüentemente a visão.

Assim, o uso dos óculos ou lentes de contato, não são as únicas formas de corrigir os problemas de visão. Os olhos respondem bem a um treinamento regular e adequado de exercícios, relaxamentos e energização pela luz solar. Muitas pessoas têm deixado de usar lentes corretivas ou diminuído o grau dessas, com este método, que busca restaurar o uso apropriado da visão e eliminar tensões.

Vale ressaltar que a visão não é um organismo independente. Ela está intimamente relacionada a vários aspectos, começando pela nossa respiração, que se for profunda e fizer uma boa troca gasosa, vai beneficiar nosso sangue, músculos, nervos e toda a circulação sanguínea, colaborando para uma boa irrigação dos olhos. Além destes fatores, o Yoga leva em conta a energia vital – prana – absorvida a cada respiração e que leva vitalidade a cada segmento do corpo. Outro aspecto relevante é a alimentação saudável e feita de maneira calma e regular. Os olhos necessitam de muito oxigênio, vitaminas e minerais. Como todo o corpo está ligado entre si, o bom funcionamento dos outros órgãos, influencia beneficamente a visão. Por exemplo, sabemos de casos em que problemas renais alteram a pressão interocular. E, se nosso funcionamento cerebral está excessivo, acelerado, reflete nos olhos que ficam cansados, congestionados e fatigados, perdendo acuidade.

Da mesma forma, nosso estado emocional afeta nossa visão. Em situações que experimentamos medo intenso ou picos de raiva, ficamos com a visão bastante alterada, “cegos” momentaneamente. Quando estamos tranqüilos, alegres ou amando, recuperamos uma visão clara e nítida.

Aldous Huxley, o famoso escritor inglês, foi um praticante dos exercícios para os olhos, recuperando-se de graves problemas com sua visão, que o deixou quase cego. Ele escreveu no seu livro “A Arte de Ver”, que a visão é um processo que se desenvolve em três etapas, envolvendo os olhos, o cérebro e a mente. As células oculares sensíveis à luz recebem informações sobre o ambiente, pelos raios de luz. Como o cérebro não é capaz de lidar com todos os dados visuais transferidos aos olhos, pois são muitos, seleciona alguns. Esses serão reconhecidos e interpretados pela mente.

Para melhorar a visão, precisamos usar a mente a nosso favor. Acreditar que podemos ver melhor é importante, assim como, querer ver melhor. Preparar-nos para ampliar nosso campo de visão, aprofundar o contato com o que vemos, enxergar de fato, com mais detalhes e nitidez, ver as coisas como são (não como idealizamos), enxergar a realidade, ir além dos nossos padrões habituais de enxergar, sair dos nossos condicionamentos visuais (e mentais), lidar com nossos preconceitos estéticos e conceber as formas sob outro prisma, descobrir coisas novas, mudar, transformar-nos pelo olhar.

Como a visão está conectada a mente, ao trabalhar com os olhos, desenvolvemos atenção, focalização, concentração, objetividade, determinação, maior integração corpo-mente, centramento e inteireza. E sobretudo, aprendemos a relaxar para ver melhor.

Trabalhar com nossa visão é um interessante caminho de autodescoberta e de desbravamento de um novo mundo, aquele que passamos a enxergar.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

Blay, A., Fundamentos e Técnica do Hatha Yoga. São Paulo, Edições Loyola, 1986.

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Leloup, J., O Corpo e seus Símbolos: uma antropologia essencial. Petrópolis, Vozes, 1998.

Santos, L.F. dos, Apostila do Curso Yoga Dristi – curso de yoga para os olhos. 2004.

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