ALIMENTAÇÃO AYURVEDICA III

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ALIMENTAÇÃO AYURVÉDICA – PARTE III

Dr. José Ruguê Ribeiro Jr.

O papel primordial da alimentação na manutenção da saúde e na cura de doenças.

PARTE III

“Plantas, como Mães, como Deusas, eu me dirijo a Vós.
Possa eu obter a energia, a luz, o sustento de sua alma,
Que é a mesma da existência humana.”

No artigo anterior, fizemos uma panorâmica geral da abordagem ayurvédica aos problemas de saúde e nos comprometemos a tratar da tema da alimentação neste.

A Medicina Ayurvédica envolve uma grande ciência para abordar o efeito terapêutico ou produtor de doenças não só em relação aos alimentos, mas também às ervas, minerais, pedras preciosas e emoções. Essa ciência é denominada Dravya Guna Rasa Vipak Yiryadi Siddhanta, o maravilhoso conhecimento das substâncias (dravya), relacionando-as com o efeito dos seus sabores (rasa), de suas propriedades (gunas), seus efeitos pós-digestivos (vipak). Todo profissional ayurvédico deve conhecer profundamente essa Ciência, para saber prescrever a dieta e o uso das ervas e minierais medicinais.

Ela aborda as substâncias terapêuticas a partir de seus sabores, porque ao entrar em nosso organismo, por meio da boca, os alimentos, por exemplo, são decodificados pelo nosso sistema nervoso primeiramente pela impressão do sabor produzido, levando a reações de produção de enzimas digestivas, hormônios e outras substâncias, baseado nessa percepção. Os sabores revelam um intricado e dinâmico potencial terapêutico das energias contidas nas substâncias em termos de efetivamente intensificar, reduzir ou equilibrar os Doshas.

São considerados seis sabores e para podermos compreender a ação de cada um deles sobre os doshas  devemos conhecer sua  constituição de acordo com os cinco elementos (mahabhutas). Esse conhecimento será determinante para escolhermos os alimentos adequados, o modo de prepara-los e as combinações, tal como vimos em nosso artigo anterior.

RASA – sabor
BHUTAS – elementos

Doce
terra + água

Salgado
água + fogo

Ácido
terra + fogo

Adstringente
terra + ar

Picante
ar + fogo

Amargo
ar + éter
Os sabores também são analisados de acordo com o Virya que é a capacidade de conter energias que tenham, intrinsecamente, a propriedade de aquecer ou resfriar:

RASA
ENERGIA  (Virya)

Doce
Frio – 3

Salgado
Quente – 3

Ácido
Quente – 2

Adstringente
Frio – 2

Picante
Quente – 1

Amargo
Frio – 1
1 – Primeiro nível, ação mais forte.

2 – Segundo nível, ação moderada.

3 – Terceiro nível, ação mais suave.

Os sabores não têm esta capacidade de aquecer ou resfriar na mesma intensidade, por isso colocamos em números para facilitar a análise. Assim sendo, o sabor picante é o mais aquecedor e o amargo é o mais resfriante.

Devemos associar, ainda, a análise dos sabores sob o ponto de vista de certas qualidades ou Gunas. Elas são em número de 20, divididas em 10 pares de opostos. Desses, os de ação mais direta relacionada com o tema que estamos estudando são dois:

Pesado/leve e Úmido/seco.

 

Essas gunas se referem às propriedades de aumentar terra (pesado) ou ar (leve) e a de acrescentar água ou retira-la, respectivamente.

RASA GUNA
Úmido/seco

GUNA
Leve/pesado

Doce
Úmido – 1
Pesado –1

Salgado
Úmido – 2
Pesado – 2

Ácido
Úmido – 3
Leve – 3

Adstringente
Seco – 3
Pesado – 3

Picante
Seco – 1
Leve – 2

Amargo
Seco – 2
Leve – 1
1 – Primeiro nível, ação mais forte.

2 – Segundo nível, ação moderada.

3 – Terceiro nível, ação mais suave.

Várias exceções existem. Por exemplo, o iogurte, apesar de ácido e doce é pesado. Essas propriedades se manifestam com o uso prolongado do alimento.

O efeito pós-digestivo (Vipak) não deve ser confundido com o sabor secundário. Ele se refere às propriedades do alimento após ser digerido no organismo.

 

RASA
EFEITO PÓS-DIGESTIVO

Doce
Doce

Salgado
Doce

Ácido
Ácido

Adstringente
Picante

Picante
Picante

Amargo
Picante
Assim, por exemplo, os efeitos pós-digestivos (Vipak) dos sabores doce e salgado se enquadram nas propriedades dos alimentos doces, enquanto o adstringente, picante e amargo possuem o Vipak picante, em longo prazo.

Temos, ainda, outro aspecto a ser considerado em relação aos alimentos e ervas medicinais que é o seu Prabhava ou “propriedade especial”. Estão incluídos aqui a composição química do alimento, o modo de prepara-lo e a “energia vital” daquele que prepara o alimento que lhe dá algumas propriedades especiais, que não podem ser explicadas pelo rasa, virya, vipak ou guna. Por esse motivo, nossos alimentos devem ser preparados em estado mental de elevação espiritual, como uma oferenda divina, para que possam ser infundidas neles somente energias salutares. Sri Krishna, no Bhagavad Gita, nos ensina que todo alimento não oferecido à Divindade é tamásico, ou seja, gerador de doenças e obscuridade.

Agora, raciocinando com as informações dadas anteriormente: composição em termos dos cinco elementos e das outras propriedades dos alimentos de acordo com rasa, virya, vipak e prabhava relacionando com os doshas, podemos concluir como os alimentos exacerbam ou reduzem vata, pitta e kapha em nós e  utilizar esse conhecimento para buscar a harmonia e a saúde.

Vata que contém as características de frio, seco e leve é reduzido principalmente pelo sabor salgado e, em menor intensidade, pelo ácido e pelo doce. É aumentado principalmente pelo sabor amargo (ar e éter) e, mais suavemente, pelo adstringente e picante. Esse último, por ter virya quente com muita intensidade, é benéfico para reduzir Vata, apesar de conter ar. Adstringente aumenta imediatamente Vata e amargo mais em longo prazo. Por esse motivo, o que dizer daquelas garotas adolescentes, com sonhos de se tornarem modelos famosas, fazendo uma dieta de pura salada fria, crua (predomina amargo e adstringente), sem temperos e, em horários erráticos, freqüentando festas noturnas com muitos estímulos luminosos e sonoros!! Tornam-se exemplos prontos dos desequilíbrios de Vata (magras sem energia, pálidas, com grandes “olheiras” rapidamente disfarçadas pela maquiagem, ansiosas, insones, caindo freqüentemente em estados depressivos, etc.)

Pitta é aumentado principalmente pelo sabor ácido e, em menor intensidade pelo picante e salgado. É mais reduzido pelo amargo, em seguida pelo adstringente e doce. O sabor amargo (folhas verdes, legumes, ervas digestivas) é o melhor para Pitta por descongestionar e purificar a bile e o sangue. O sabor doce é muito útil por ser frio e nutritivo. Exemplos comuns da exacerbação de Pitta pelos sabores é a piora da gastrite por ingerir frutas ácidas, das hemorróidas pela pimenta (picante) e da hipertensão arterial pelo sal. Parece que as doutrinas de alimentação exclusiva com base em verduras e legumes crus foram feitas por pittas e para pittas!

Kapha (que é frio, úmido, pesado) é aumentado principalmente pelo sabor doce e, em menor intensidade, pelo salgado e ácido. É reduzido principalmente pelo sabor picante e, em seguida, pelo amargo e adstringente. Dietas para redução de peso para kapha em excesso, devem incrementar o uso de picantes e quentes (gengibre, pimentas, mostarda, cominho) e amargos (verduras cozidas) e reduzir o uso do sabor doce (arroz, trigo).

Vejamos, então, as propriedades terapêuticas dos diversos sabores:

Doce:  é construtor e aumenta a vitalidade de todos os tecidos. Harmoniza a mente e promove o contentamento. É demulcente (suaviza as membranas mucosas), expectorante e laxante suave.

Salgado: é suavizante, laxativo e sedativo. Em pequena quantidade estimula a digestão. Em média quantidade é purgativo e, em grande quantidade, causa vômito. Descongestiona as massas de muco endurecidas, acalma os nervos e diminui a ansiedade.

Ácido: estimulante, carminativo (elimina gases), nutritivo e reduz a sede. Desperta a mente e os sentidos, promove a circulação e fortalece o coração, nutre os tecidos, com exceção do reprodutivo.

Picante: estimulante, carminantivo, diaforético (promove o suor). Estimula o metabolismo e promove as funções orgânicas. Promove o calor e a digestão. Estimula a circulação e trata a estagnação do sangue. Abre a mente e os sentidos e limpa os canais energéticos, reduzindo as dores nervosas e a tensão muscular.

Amargo: é alterativo (purifica o sangue), limpando e desintoxicando. Reduz todos os tecidos e aumenta a leveza da mente. É antibiótico e anti-séptico e também purifica a mente e as emoções. Em pequena quantidade é estimulante da digestão. Auxilia a digerir os açucares e gorduras.

Adstringente: reduz sangramentos e outras eliminações excessivas (como suor e diarréia). Promove a saúde da pele e membranas mucosas. Enrijece os tecidos e trata prolapsos.

Quando ingerimos em excesso os alimentos que contêm cada um dos sabores, produzimos um desequilíbrio físico e mental que se reflete nos problemas de saúde expostos no quadro abaixo. Devemos entender que a quantidade ideal de cada um dos sabores varia de acordo com o dosha predominante na pessoa e que cada um dos sabores tem uma potência diferente quanto à capacidade de agravar os doshas. O sabor amargo é o que tem maior potência de agravar os doshas, em seguida, na ordem, o salgado, o ácido, o picante, o adstringente e o doce. Nosso cardápio diário deve levar em consideração essa potência , montando pratos que contenham proporções adequadas.

Sabor (rasa)
Efeito físico do
excesso
Efeito mental do
excesso

Doce
Doenças por excesso de gordura: obesidade, diabetes, indigestão, tumores.
Kapha: letargia

Vata: ansiedade.

Ácido
Flacidez, fraqueza, febre, sede, palidez, anemia pitta, herpes.
Vertigem, raiva, impaciência, temperamento “quente”.

Salgado
Hipertensão, calvície, cabelos brancos, doenças de pele, rugas, herpes, perda de força, abscessos.
Raiva, impaciência, letargia.

Picante
Sede, depleção dos líquidos reprodutivos e da força, desmaios, tremores, dores lombares.
Raiva, impaciência.

Amargo
Depleção dos tecidos, doenças Vata.
Ansiedade, medo, insônia.

Adstringente
Alimentos mal digeridos, dor no peito, sede, emagrecimento, redução da libido, constipação intestinal, bloqueio dos canais.
Ansiedade, preocupação, medo, insônia.
Devemos reconhecer que a abordagem ayurvédica desses temas pode parecer muito estranha para alguns médicos, profissionais de saúde e a população em geral, mas há profundos fundamentos que respaldam todo esse raciocínio e ele devolve, de maneira maravilhosa, a responsabilidade da manutenção da saúde àquele que realmente tem a obrigação e o dever de mantê-la, que é o próprio indivíduo. As mudanças alimentares desempenham papel fundamental nisso. Obviamente, essas mudanças devem ser feitas de forma gradual, para que sejam consistentes e possam não provocar maior stress do que o próprio problema de saúde na pessoa. Nossos cursos de ayurveda têm sido muito gratos a nós professores e alunos por serem grandes motivadores de uma compreensão mais ampla da saúde, como recupera-la e como mantê-la.

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