YOGATERAPIA

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PALESTRA PROFERIDA PELO DR. M. L. GHAROTE

DIRETOR DO INSTITUTO KAIVALYADHAMA – LONAVLA – ÍNDIA

 

O Yoga lida com a mente. Então o primeiro objetivo do Yoga é acalmar a mente, não podemos perder isso de vista.

Todos nós estamos interessados na felicidade. Sem entendermos que a felicidade está na mente clara e calma, corremos atrás de muitas coisas sem importância. O objetivo de nossa vida deve ser acalmar a nossa mente. Para conseguirmos alcançar este objetivo, o Yoga também mostra o caminho. Toda a técnica do Yoga tem esse mesmo objetivo: acalmar a mente.

Se não entendermos isso, vai haver confusão na proposta do Yoga, que é tanto a integração da nossa personalidade como o controle da mente. Entender a relação entre o objetivo e o meio para atingir esse objetivo, é fundamental. No Yoga, uma técnica está relacionada com a outra, tanto diretamente como indiretamente. Ao praticarmos os asanas – as posturas, precisamos entender que estamos praticando Yoga que é definida por “citta nirodha” – o controle da mente ou a cessação dos movimentos mentais. A mesma coisa quando praticamos os pranayamas – ou controle da energia pranica via respiração. A calma da mente pode ser atingida através do pranayama porque a atividade mental está muito próxima da atividade da respiração. Quando a mente está agitada, percebemos uma agitação na respiração. É por isso que o objetivo final do pranayama é ajudar a acalmar a mente, preparando-a para a meditação. Assim, asanas, pranayamas e meditação estão integradas e têm como objetivo comum, afastar os distúrbios mentais.

Sem este entendimento, usamos as técnicas do Yoga só no nível físico, enquanto todas as técnicas do Yoga são psicofísicas. Os asanas não são só físicos e a meditação não é só mental. São todas físicas e mentais – psicofísicas.

Para entendermos bem o Yoga, precisamos ter claro então, que o objetivo é chegar a um estado inalterado da mente e todas as técnicas que levam à tranqüilidade da mente são chamadas de Yoga.

No campo da Yogaterapia falamos em tratamento. Ela está direcionada para pessoas que sofrem de problemas e desordens. Podemos usar técnicas de Yoga para ajudar alguns distúrbios orgânicos. Mas quem precisa de terapia é quem está com problema. Não podemos reduzir Yoga em uma terapia, porque é mais do que isso. Quem está saudável continua praticando Yoga.

Precisamos também entender os limites da Yogaterapia. Embora o Yoga tenha sido usado para resolver alguns problemas funcionais, pode não ser útil em outros problemas. O Yoga é mais bem direcionado para problemas crônicos e não agudos, funcionais e não estruturais. Esses, estão além do Yogaterapia. É útil que entendamos os limites em todos os campos de trabalho, assim, o terapeuta trata o indivíduo, mas não cura o indivíduo.

Por milhares de anos, o Yoga tem sido praticado como uma disciplina espiritual. É uma tendência moderna aplicar algumas técnicas para problemas específicos, e sob esse ângulo seria um Yoga aplicado, com suas limitações. Usamos algumas técnicas para resolver problemas e depois confundimos o Yoga com estas técnicas, e isto não é Yoga, pois, Yoga é o todo.

Se entendermos terapia como uma forma de remover os problemas que enfrentamos estamos condizentes com os princípios do Yoga. Todos os filósofos do Yoga concordam com isso. Buda falou da remoção do sofrimento pelo Yoga. A medicina Ayurvedica também diz: “existe um problema, uma causa para o problema, o problema pode ser resolvido e existem técnicas para resolver o problema – são quatro aspectos”. Patanjali, o codificador do Yoga, também diz que o problema tem que ser resolvido e existe uma causa para todos os nossos problemas. Desde que nascemos temos problemas.

Na filosofia yogue a causa de nosso sofrimento é avidya – a ignorância de nossa situação. Quando não temos clareza da situação que está acontecendo, achamos que ela nos traz sofrimento. Então para lidarmos com a terapia no Yoga temos que ter claro a natureza e a causa do problema.

Podemos pensar no estresse. O estresse é uma experiência pessoal de todos nós, é um problema moderno. Quem sofre de estresse apresenta vários problemas decorrentes dele. Geralmente, o tratamento é a tentativa de resolver os sintomas decorrentes do estresse, mas se não removemos a causa que produz os sintomas, outros sintomas surgem e assim continua num ciclo vicioso.

O primeiro efeito do estresse em nosso corpo é no sistema muscular, ele se instala na região dos ombros, nuca, pescoço e também na região lombar. O senso comum é dizer que se os músculos estão contraídos devemos relaxá-los … mas como vamos conseguir relaxá-los? Quando estamos emocionalmente alterados não adianta alguém simplesmente nos falar para ficarmos calmos. Não sabemos como nos acalmar. É aí que entra o Yoga para nos ajudar. Alongando os músculos por meio dos asanas, vamos relaxá-los. Mas asana não é sinônimo de Yoga e, também, não é mero exercício, mesmo quando estamos usando-o contra o estresse. Asana é uma prática estática de alongamento, onde não há consumo de energia. Num exercício comum consumimos energia. A fisiologia do asana é diferente da do exercício. O objetivo do exercício é trabalhar o corpo, do asana é acalmar a mente. Não podem ser confundidos, pois se os asanas não forem praticados com esse objetivo não se elimina o estresse.

Sob o estresse, a parte mais fraca do corpo vai ser afetada primeiro. Alguns sofrem de asma, outros de acidez gástrica ou problema cardíaco. Mas estes não são problemas orgânicos simplesmente. São psicossomáticos, aparecem no corpo mas a causa está na mente. Com a prática do Yoga, vamos conseguir resolvê-los.

Também temos que lidar com as emoções, que são do sistema nervoso autônomo. Todas as técnicas do Yoga trabalham com o sistema nervoso autônomo.

No Yoga percebemos que cada técnica usa canais diferentes. Asanas trabalham através do sistema muscular, pranayamas através do sistema respiratório, a meditação através do mental e os kriyas, as técnicas de purificação, através dos reflexos. Embora canais diferentes o objetivo é o mesmo: “Citta Virtti Nirodha”, acalmar os movimentos mentais.

Um outro aspecto importante do Yogaterapia, é que existe uma confusão de que quanto mais difícil for a técnica, melhor efeito terá. Mas na verdade, o Yoga funciona num nível muito menor. Técnicas muito simples podem trazer resultados melhores e sem prejudicar o indivíduo. Enfatizamos as práticas simples, com o perfeito entendimento do princípio de cada técnica. Assim, não precisamos complicar o Yoga.

Outro princípio para a prática do Yoga é a adequação do tônus muscular, tanto da musculatura estriada como da lisa, para cada prática, para cada técnica do Yoga. O objetivo de cada asana é adequar o tônus para cada ação.

Como resultado das variações emocionais, o tônus muscular está sempre alterado, para adequar as emoções ajuda muito aprender a adequar o tônus muscular. Por isso, o asana não é puramente físico, é também emocional.

Outra contribuição do asana é aumentar a flexibilidade do corpo. Quanto mais estresse, mais rígido o corpo fica, especialmente na coluna vertebral, o que limita muito nossas atividades. A saúde do corpo também depende da coluna vertebral estar flexível. O Yoga mostra o caminho através dos asanas para manter nossa coluna flexível. Este é um dos objetivos do trabalho com asanas. Não precisa ser uma prática difícil, começamos com práticas fáceis e vamos progredindo gradativamente.

Ninguém é responsável por nossos problemas a não ser nós mesmos e a nossa ignorância. Há pessoas que não consideram seus limites, praticam Yoga por pura imitação, não estão conectadas com seu próprio corpo. O princípio da progressão é importante – começar do mais simples e conhecido para o mais complexo e desconhecido, sempre respeitando as próprias possibilidades.

Há um padrão para cada asana que deve ser obedecido para receber os benefícios da prática, mas não é necessário chegar ao objetivo final. Por exemplo: uma pessoa tenta chegar com a testa no joelho e vai forçando muito. Se a pessoa não está preparada, ela não vai conseguir manter a postura. Um princípio fundamental do asana é que ele tenha estabilidade e conforto. Isto significa que não é só chegar na postura e sair. Parar naquele ponto que a pessoa consegue e que tenha conforto é uma condição da mente, que fica firme e estável enquanto estiver confortável. Corpo e mente devem andar juntos, estabilidade é física e conforto é mental. Temos aqui novamente que todo asana é psicofísico.

Então um princípio muito importante na prática do yoga, é não forçar, é tentar relaxar ao máximo. Esta é outra diferença do asana e de um exercício, o qual procuramos fazer sempre mais para aumentar a resistência. No asana, devemos relaxar mais e mais. Se vamos para as práticas mais difíceis não vamos conseguir relaxar. Por isso temos que escolher as práticas mais simples, mais fáceis, para que haja relaxamento. Este conhecimento, cada um deve ter a partir de seu próprio sentimento e sensação.

É necessário então, que respeitemos os princípios básicos dos asanas. Quando esquecemos isso, convidamos os problemas a se instalarem.

Em relação ao tônus muscular, o mais importante é o tônus da musculatura abdominal, que geralmente é baixo, especialmente nas mulheres. É necessário restabelecê-lo, para começar a praticar os asanas. A saúde da pessoa está diretamente relacionada com os órgãos abdominais. Muitos dos problemas de saúde no nosso corpo, estão ligados ao aparelho digestivo e a seu funcionamento. Se quisermos pensar na saúde integral de uma pessoa, devemos lembrar da flexibilidade da coluna e no fortalecimento abdominal.

Também o alongamento é fundamental. Atualmente a maioria dos esportes utiliza os alongamentos, que são derivados do Yoga. O alongamento é um dos princípios mais importantes na prática de um asana, para promover a saúde do indivíduo. A coluna vertebral tem 4 movimentos: flexão, extensão, lateralização e torção. Se a pessoa faz esses 4 movimentos diariamente, praticando um asana de cada grupo , ela vai ficar com a coluna flexível.

Outro princípio importante no Yoga é a inversão que se faz nas posturas invertidas. São posturas que economizam energia do nosso sistema. Investem pouco e rendem bons resultados, se forem mantidas, como todas elas devem ser, sem esforço. Os resultados destas posturas ocorrem devido ao retorno do sangue venoso. O sangue venoso vem das pernas e abdômen para purificar-se no coração, de onde o sangue arterial será levado para todo o corpo, renovado. Através do sangue, os órgãos vão receber nutrição e funcionar mais saudavelmente. Assim, as posturas inversas praticadas com conforto, vão assegurar uma boa saúde ao corpo.

Se você conseguir se lembrar desses princípios em sua prática, vai obter melhor saúde e flexibilidade. A confusão que as pessoas fazem com o Yoga é devido aquilo que conhecem da prática dos esportes. Mas são coisas diferentes, com princípios diferentes e objetivos diferentes.

 

Relato da palestra do Dr. Gharote a partir das anotações de Lucia M. Nabão.

 

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